Tiborna de requeijão com anchovas e biqueirão do Almadrava.
Tiborna de requeijão com anchovas e biqueirão do Almadrava.DR

Almadrava: brasileiros apostam no marisco e em vinhos biológicos em novo restaurante com vista para o Tejo

Inaugurado há três meses, restaurante de Fred Frank e Rodrigo Braga navega entre marisqueira e taberna moderna, com pratos para partilhar e vinhos de pequenos produtores.
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Quando o assunto é a vida na cozinha, o paulista Fred Frank tem bagagem para falar sobre o tema. “São 34 anos nessa vida”, conta ao DN depois de receber a reportagem para um jantar no seu mais novo estabelecimento em Lisboa, o Almadrava, que tem como sócio o carioca Rodrigo Braga. Os dois já tinham afinado a parceria na Taberna Meia Porta, no Bairro Alto, e agora levam a dobradinha para o topo do Campo de Santa Clara, numa casa de marisco com alma de tasca e vista frontal para o Panteão Nacional e o Tejo.

Eu faço a parte financeira, administrativa. E o Fred cuida da parte da gastronomia”, resume Rodrigo, em Lisboa há sete anos. “Somos apaixonados pelas mesmas coisas no mundo da restauração, uma certa simplicidade e informalidade, mas com muita atenção para a comida e os produtos.” É dessa combinação que nasce o conceito que ouviram uma vez a respeito do Almadrava e gostam de repetir: uma marisqueira sem burocracia.

“Não tem um aquário, não tem um martelinho, não tem lavagante. Mas é uma marisqueira, são produtos do mar, boa bebida, tudo o que a gente gosta”, diz Rodrigo, a olhar para a esplanada virada para o rio, que enche sempre que o tempo ajuda. O plano, desde o início, foi criar um lugar para partilhar marisco, "beber um copo e ficar na conversa", sem formalidades e a preço democrático.

A escolha do Campo de Santa Clara não foi acaso. O antigo restaurante vegetariano que ali funcionava estava encerrado quando os dois sócios se cruzaram com o espaço. “A gente se apaixonou pelo lugar. O panteão, o mar... pensamos: temos que ficar aqui. Até porque em Lisboa é muito difícil de encontrar bons pontos”, lembra Rodrigo.

Na cozinha, o discurso segue a lógica que acompanha o trabalho dos dois. “Eu não complico a nossa vida. A Taberna Meia Porta sempre foi uma proposta honesta com uma troca de 'vale quanto pesa' de verdade", afirma Fred, garantindo que, no novo restaurante, a lógica é a mesma.

“Para cá, a gente tentou trazer escolha de produtos que sejam frescos, bons fornecedores, sem muitas misturas ou produtos caros. Assim conseguimos chegar a um valor agradável”, explica o chef. O nome do restaurante, diga-se, remete ao sistema de armadilhas de atum usado há séculos no Mediterrâneo e no sul da Península Ibérica, e, como não poderia ser diferente, o peixe aparece como uma das estrelas na carta.

Fred Frank, à esquerda, e Rodrigo Braga.
Fred Frank, à esquerda, e Rodrigo Braga.DR

O cardápio é curto, pensado para ir à mesa em ritmo de petisco. Há um couvert clássico com pão, manteiga, azeitonas e pickles (€7); seguem-se o queijo amanteigado com abóbora e mel (€10), o presunto português com melão e azeite (€11) e o paté de sapateira com pão crocante (€12). Do lado mais fresco entram o crudo de atum com maçã e rabanete (€17), a tiborna de requeijão com anchovas e biqueirão (€10), o carpaccio de tomate com alho-francês e laranja (€12) e as inevitáveis amêijoas (ou cogumelos, na versão vegetariana) à Bulhão Pato (€13/€19).

Já a “Caixa do mar” (€32) funciona como mariscada para duas pessoas, com camarão, ostras (na nossa visita vindas do Algarve e Setúbal), enquanto o bife de atum com molho “pica-pau”, tomate e brócolos (€21) ocupa o lugar de prato-símbolo da casa.

Caixa do mar do restaurante.
Caixa do mar do restaurante.DR

Há ainda arroz de bacalhau com legumes para duas pessoas (€28), um cachaço de porco desfiado em sandes na carcaça com pickles e mostarda (€12), que serve como o substituto do tradicional prego das marisqueiras, e duas sobremesas fixas: terrine de chocolate com ginja (€6,5) e cheesecake com calda de goiaba vermelha (€7).

Menu "aquecido"

Aberto na reta final do verão, o Almadrava prepara-se agora para a primeira temporada de frio, o primeiro grande desafio da dupla. A visita do DN aconteceu precisamente na semana em que Fred testava os pratos quentes que vão entrar no menu de inverno, do qual, felizmente, fomos as cobaias: sopa de marisco com peixe, escabeche de camarão com mexilhão e uma versão quente do crudo de atum foram algumas novidades do menu que, como como diz o chef, tem a ideia não de alterar, mas sim “aquecer o cardápio”.

Se o mar manda na comida, os vinhos dão o tom ao resto. A carta aposta em referências portuguesas de várias regiões, com espaço também para rótulos estrangeiros e vinhos de intervenção mínima, muitos deles biológicos e de produtores locais de regiões diferentes, de Sintra ao Douro. Assim como a comida, a escala de preços é democrática, divididos no menu, literalmente, com "bom, melhor e ótimo".

A clientela, conta Rodrigo, é um espelho do próprio bairro: muitos turistas que sobem a colina depois da Feira da Ladra ou do Panteão param para conhecer o Almadrava, assim como os próprios locais do bairro. Para Fred, aliás, cozinhar para os portugueses é também dialogar com um povo que "leva a mesa a sério". “Acho que a maior vontade do português é falar que ele entende de comer. Ele dá atenção ao que come, das azeitonas até à sobremesa: é divertido cozinhar para pessoas que dão valor a isso”, diz, entre idas e vindas da cozinha.

Desse prazer está parte da explicação para o entusiasmo com que os dois brasileiros falam do projeto e da cidade que escolheram viver. O resto fica por conta da vista para o pôr-do-sol e de uma “marisqueira sem burocracia” onde o atum, as ostras e os vinhos biológicos tratam de fazer o resto.

nuno.tibirica@dn.pt

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