A pizzaria cresceu em 2023 para a porta da frente
A pizzaria cresceu em 2023 para a porta da frente Gerardo Santos

La Matta: a pizzaria de adn francês e italiano, que é um restaurante de bairro em plena Graça lisboeta

Cozinheiros, amigos e crentes de que a comida une as pessoas, Matteo Bravi e Antoine Legrand abriram o La Matta em 2021. Com o pizzaiollo Mario Diaco criaram uma comunidade em torno da gastronomia italiana
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Quando o italiano Matteo Bravi se mudou para Lisboa, depois de vários anos a viver entre vários países de continentes tão diferentes quanto África e Austrália, fê-lo porque se apaixonara pela cidade - e pela mulher, que trocara a enfermagem pela hospitalidade para responder a um desafio de um familiar que tinha um hotel no Castelo, em pleno centro da cidade. Corria o ano de 2015, e depois de uma carreira ligada ao petróleo, na italiana ENI, chegara a hora de se reinventar. “Eu cresci em restaurantes. Os meus pais tinham um restaurante e o meu avô era chef. Então foi uma espécie de regresso à base”, conta com um sorriso. Natural de Senigallia, uma cidade na costa adriática trabalhou, “como todos os meus amigos”, em restaurantes durante os verões. “Portanto, voltei aos restaurantes. Em 2019 abri um espaço na Ericeira mas vendi-o, entretanto”.

Matteo Bravi e Antoine Legrand são amigos, sócios e ambos põem as mãos, literalmente, na massa nos seus La Matta
Matteo Bravi e Antoine Legrand são amigos, sócios e ambos põem as mãos, literalmente, na massa nos seus La MattaGerardo Santos

Até porque, entretanto, conhecera Antoine Legrand, o cozinheiro e gestor que também se mudara para Lisboa em 2016. Viviam na mesma rua e conheceram-se por acaso. Trabalharam juntos no negócio de catering e chef privado que Antoine abrira com a então mulher e, em 2020, a pandemia deu-lhes uma oportunidade: encontram o espaço onde abririam, em 2021, o primeiro La Matta, uma pizzaria descontraída e despretensiosa de bairro, na Graça, onde abundavam as receitas da família de Matteo e a vontade de criar memórias.

“Temos um cliente que vem aqui duas vezes por semana comer a mesma pizza”, conta Antoine, divertido. Uma Mortazza (straciatella de burratta, mortadella, pistácio e manjericão), descobrimos entretanto.

O espaço, que aposta no vermelho e branco tradicionais dos restaurantes italianos, e no azul que lembra o mar Adriático, convida a estar. As pizzas são feitas no local, com farinha biológica produzida localmente em Torres Vedras por uma empresa familiar e a massa fermenta entre 26 a 48 horas.

Salada de tomate com Burratta
Salada de tomate com BurrattaGerardo Santos

O molho de tomate é preparado diariamente com Pomodoro San Marzano e a mozzarella Fior di latte e a Bufala Campana DOP são importadas de Nápoles “Isto não conseguimos igual em Portugal”, adiantam. “O resto dos queijos compramos à Ortodoxo, em Azeitão. Hoje muitos restaurantes compram lá o queijo, mas fomos dos primeiros clientes”, dizem ao DN. “Na verdade, também comprámos umas vacas…”, contam divertidos enquanto explicam que é fundamental trabalhar com produtores próximos e familiares que partilhem dos seus princípios. É por isso que quem lhes faz o chouriço para a recém-chegada Pizza Portuguesa são os senhores do talho da Travessa do Monte, a poucos passos da pizzaria. “Nós temos uma receita, e eles fazem segundo essa receita italiana, com carne muito boa e sabores portugueses”.

“A comida italiana e portuguesa partilham sabores. Achámos que devíamos ter algo mais português na carta, para mostrar essa união”, explica Matteo revelando que, no entanto, a pizza (que é uma mistura da napolitana com a romana, com uma massa fina, mas um rebordo mais cheio) favorita dos clientes é a Montanara. Tomate, presunto de Parma e trufa. Simples e funcional.

Os clientes são, sobretudo, moradores do bairro. “Temos uma base muito grande de clientes que vivem aqui, portugueses e estrangeiros. Temos avós que veem regularmente buscar pizza para os netos. Ou Tiramisu!”. Para Antoine, a cozinha italiana (em detrimento da francesa) era a opção sensata. Depois de gerir vários restaurantes em Paris, reconhece que para o negócio, a comida italiana de qualidade é o que faz sentido. “Os clientes portugueses procuram consistência. Nós damos-lhes produtos de qualidade, e é por isso que eles voltam. Demoram a ter confiança, mas se lhes dermos constância, regressam”, garante.

À distância, a curadoria da cozinha é feita por Mauro, o pai de Matteo. “Sempre que tenho uma dúvida, que testo uma receita, falo com o meu pai”, admite o empresário. Que aprovou os pratos do restaurante mas não sem dizer que “faria diferente”, conta Matteo, divertido. Em 2023, depois de meses com filas à porta, surgiu a oportunidade de a La Matta crescer para um edifício mesmo em frente. Numa rua pedonal num bairro tradicional de Lisboa, “pareceu-nos perfeito. Podemos ter a esplanada no meio e aqui, onde antes era uma antiga mercearia, passámos a ter também massas e a nossa própria pequena loja”, contam enquanto apontam para as prateleiras do lado, recheadas de latas de tomate e pacotes de massa italianos.

A pizza Amalfi é uma das mais pedidas na La Matta
A pizza Amalfi é uma das mais pedidas na La MattaGerardo Santos

La Matta passou a ser pizzaria e restaurante com passas frescas, ao melhor estilo de cantina italiana tradicional. A carta é fácil e descontraída, convidando à partilha. Da tradicional salada de tomate e burratta passando pelas Polpette Marchigiane ou a Foccacia Caseira para entradas, até à Lasagna, Carbonara (outro favorito) ou Spaghetti Vongole, o que se encontra no La matta é Itália. Às pizzas clássicas juntam-se algumas especiais - onde entra a Portuguesa - como a Amalfi, uma das favoritas dos donos. É feita com tomate, burrata, anchovas, azeitonas e raspas de limão “e sabe a fresco, a verão”, dizem. E, claro, há Tiramisu, receita da avó de Matteo.

“Os portugueses gostam de comida italiana. É uma comida simples, confortável. E gostam de experimentar pratos diferentes”, garantem. Para o sucesso do La Matta e a transformação deste italiano num restaurante de bairro em pleno coração lisboeta, contribuiu a chegada do pizzaiolo Mario Diaco, trazido diretamente da costa adriática, também, depois de umas férias de Matteo em Itália. “É fácil conectar as pessoas através da comida. É aquilo de que mais gosto e gosto de o fazer aqui”, diz ao DN. Na cozinha, os três trabalham massas, receitas e ideias. Mas, acima de tudo, constância. “Queremos continuar a ser local de encontro. Os nossos filhos também já crescem aqui, no restaurante”, dizem, saudando a dimensão humana de Lisboa, cidade que escolheram para viver e da qual já sentem fazer parte.

Gerardo Santos

Sugestões vínicas para pratos italianos, por Francisco Fortuna Guilherme

Tomate Cherry e Burrata

A simplicidade deste prato merece um vinho que respeite o equilíbrio dos seus ingredientes. Um branco fresco, com boa acidez e sem influência da barrica, realça a doçura do tomate, a cremosidade da burrata e a riqueza do azeite, mantendo a refeição leve e vibrante. Sugiro um Murgas Arinto Bucelas, pela sua frescura e precisão ou, para quem prefere um branco com mais estrutura, o Quinta das Bágeiras Reserva Branco oferece profundidade sem perder elegância.

Pizza Amalfi

A burrata, as anchovas, as azeitonas e o toque cítrico do limão fazem desta pizza uma combinação cheia de personalidade, pedindo um vinho à altura. Um branco atlântico, mineral e salino acompanha na perfeição os sabores do mar e a frescura do prato, enquanto um tinto jovem, leve e sem barrica surpreende pela fruta e pela elegância. Por isso, deixo como sugestão um Entre Pedras Verdelho, para uma harmonização vibrante e cheia de sabor ou um Tubarão Fera, cuja frescura e elegância fazem dele uma combinação surpreendente e deliciosa para este prato.

Memoria di Sicilia

A cremosidade da ricotta e do mascarpone, a frescura da laranja, a intensidade do cacau e o crocante das amêndoas caramelizadas pedem um vinho doce, mas equilibrado por uma frescura que não torne pesada a sua combinação. O Quinta do Piloto Moscatel Roxo 10 Anos, com notas de mel, laranja cristalizada e especiarias, prolonga os sabores da sobremesa, enquanto que um Villa Oeiras Tinto 12 Anos conquista pela elegância, frescura e notas de frutos secos e caramelo, oferecendo um final de refeição memorável, tornando ambos duas excelentes opções de acompanhamento.

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*Esta secção tem o patrocínio da Quinta da Biaia. Os textos são produzidos pelo DN com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre restaurantes e artigos de crítica gastronómica.

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