Sergio Palacios, 38 anos, é o responsável pelo único restaurante chileno de Lisboa, o Entre Puertos.
Sergio Palacios, 38 anos, é o responsável pelo único restaurante chileno de Lisboa, o Entre Puertos. Foto: Paulo Spranger

Entre Puertos: as viagens que levaram Sergio Palacios a trazer a gastronomia chilena para Lisboa

Chef encontrou em Portugal o lugar para abrir o seu primeiro negócio, onde uma culinária ainda pouco representada na capital se cruza com a cultura, a política e a identidade de quem a cozinha.
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Foi a vista para o Tejo, em Santa Engrácia, Lisboa, que fez Sergio Palacios regressar, por um instante, a Valparaíso. "Quando encontrei este espaço senti que fazia todo o sentido. Às vezes até brinco a dizer que foi a minha avó que me trouxe para aqui", conta ao DN o responsável pelo Entre Puertos, o único restaurante chileno da capital.

A avó, Anabella, é figura central na sua história. Quando Sergio ainda era criança foi ela quem o ensinou a escolher ingredientes, a distinguir carnes e a dar os primeiros passos na cozinha. Anos mais tarde, aos 18, deixou a cidade em que nasceu e mudou-se para Barcelona, onde a mãe já vivia, estudou Audiovisual e trabalhou na área antes de descobrir que era nas cozinhas dos restaurantes que encontrava o caminho que nunca chegara verdadeiramente a abandonar.

Vista para o Tejo encantou Sergio Palacios ao escolher qual seria a casa do Entre Puertos.
Vista para o Tejo encantou Sergio Palacios ao escolher qual seria a casa do Entre Puertos. Foto: Paulo Spranger

Em 2014, aceitou um convite para integrar um projeto de restauração mexicana em Lisboa e, aos poucos, descobriu uma vantagem que considera difícil de encontrar noutras capitais europeias: a proximidade entre cozinheiros. "Como Lisboa é pequena, é relativamente fácil conhecer gente e trabalhar lado a lado com grandes chefs". Foi isso que fez e passou a rodar por restaurantes de alta gastronomia na capital.

Enquanto trabalhava na alta cozinha durante a semana, reservava os dias de folga para um projeto muito mais pessoal. Sob o nome Dona Isabelita, começou a organizar pop-ups dedicados à comida chilena em diferentes espaços da cidade. Participou durante anos na Feira Latino-Americana da Fábrica Braço de Prata, onde as sanduíches começaram a ganhar clientes fiéis. "As pessoas iam às feiras à nossa procura e esgotávamos tudo", recorda. Foi aí que percebeu que talvez existisse espaço para um restaurante chileno numa cidade onde esta gastronomia continuava sem representação.

Sergio continuou a trabalhar, poupou durante alguns anos e foi acumulando experiência antes de começar a procurar um espaço. Visitou vários locais, mas nenhum o convenceu. Até que um dia, quando passava pela Santa Engrácia, bairro que frequentava para jogar ténis de mesa com amigos no Mirantense Futebol Clube, se deparou com um letreiro de arrendamento.

Bastou-lhe olhar para o balcão para imaginar o restaurante a funcionar. Seguiram-se três meses de obras, licenças e burocracia. Um arquiteto chileno, conhecido por acaso num pop-up, ajudou a desenhar o espaço, enquanto amigos trataram do grafismo, do mural e de outros detalhes da decoração.

O Entre Puertos abriu oficialmente as portas em junho de 2025 com apenas €50 na caixa. "Digo sempre que, caso não tivesse faturado nos primeiros dois meses, teria fechado imediatamente". Não foi o caso. Depois de um primeiro verão movimentado e um inverno um tanto difícil, o Entre Puertos começou finalmente a encontrar o seu ritmo nos últimos tempos.

Hoje, Sergio acredita que a casa vai muito além da gastronomia. "Acho importante que o restaurante seja também um lugar de encontro cultural, com exposições, eventos, convívios". Essa dimensão além da comida, aliás, estende-se também à decoração. Nas paredes surgem referências à Palestina e a outras causas políticas que o chef faz questão de assumir. "Não tenho qualquer problema em mostrar aquilo em que acredito, de me posicionar em prol dos menos favorecidos. Faz parte da identidade do espaço".

Sanduíche de língua de vaca do restaurante Entre Puertos.
Sanduíche de língua de vaca do restaurante Entre Puertos. Foto: Gerardo Santos

Já na cozinha, apresenta uma "street food chilena com um twist próprio", de acordo com suas palavras. "Costumo dizer que, para os mexicanos, a comida de rua são os tacos; para os turcos, os kebabs; e, para os chilenos, são as sanduíches", explica. "Então queria fazer comida de rua chilena, mas aplicar-lhe tudo aquilo que aprendi na alta gastronomia. Ou seja, usar técnicas diferentes, ter muita atenção ao detalhe, mesmo servindo sanduíches", frisa.

Entre os pratos mais pedidos estão a Pastelera de Choclo, um creme de milho doce com carne desfiada, a couve-flor empanada em cerveja e ervas aromáticas, a sanduíche de língua de vaca e o Completo, que faz questão de não chamar simplesmente hot dog. Durante o verão juntam-se ainda ceviches de polvo, corvina e salmão, enquanto, na carta de bebidas, o clássico Pisco Sour divide atenções com o Bagaço Sour, criado a partir de aguardente portuguesa. "Não sou radical ao ponto de dizer que tudo tem de ser exatamente como no Chile. Prefiro adaptar-me ao contexto, aproveitar bons fornecedores locais e criar coisas novas".

Couve-flor empanada na cerveja e ervas aromáticas.
Couve-flor empanada na cerveja e ervas aromáticas. Foto: Gerardo Santos

Sobre a clientela, Sergio diz que uma das maiores satisfações foi conquistar a confiança da vizinhança. "Há pessoas que me dizem que já não precisam de ir ao Príncipe Real para comer algo diferente", conta. Acredita também que a abertura do Entre Puertos - batizado em homenagem às três cidades portuárias que marcaram a sua vida, Valparaíso, Barcelona e Lisboa - acompanha o crescimento da comunidade chilena em Portugal. "Quando cheguei havia muito poucos chilenos, mas hoje chegaram muitos jovens. Se existem restaurantes mexicanos, argentinos ou de tantos outros países, por que não um chileno?"

Um ano depois da abertura, Sergio diz olhar para o futuro sem pressas. Primeiro quer consolidar o Entre Puertos e afirmá-lo como uma referência da cozinha chilena em Lisboa. Mais tarde, diz que gostava de criar um segundo projeto, desta vez dedicado a uma cozinha chilena de fusão e inspiração fine dining. Até lá basta-lhe aquilo que acontece quase todos os fins de semana em Santa Engrácia. "Quando vejo a casa cheia, a minha comida na mesa, a minha playlist a tocar e as pessoas felizes, também eu fico feliz. Com isso já me sinto pago".

Pastelera al Plato con Mechada: creme de milho doce servido no prato com carne desfiada (mechada) na base.
Pastelera al Plato con Mechada: creme de milho doce servido no prato com carne desfiada (mechada) na base.Foto: Gerardo Santos
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