O vinho branco deixou de pedir licença e entrou na mesa principal. E não foi por acaso, foi por mérito.

Francisco Fortuna Guilherme

Sommelier e Consultor Vínico

Publicado a

Durante muito tempo, existiu uma lei do costume no mundo dos vinhos: os grandes vinhos eram tintos e os vinhos tintos eram profundos, envelheciam e acompanhavam grandes e importantes refeições; os vinhos brancos eram simpáticos, leves, bebiam-se jovens e eram apenas vinhos de verão. Ninguém dizia isto de forma explícita, mas quase toda a gente pensava assim.

Os consumidores cresceram com uma ideia cultural, diria até geracional, de uma espécie de hierarquia silenciosa, presente nas cartas dos restaurantes, nas garrafeiras, nas prateleiras das lojas e até nas conversas à mesa, segundo a qual o vinho tinto ocupava naturalmente o lugar cimeiro e o branco existia apenas como alternativa. Não era uma regra escrita, mas era um código implícito que moldava escolhas e expectativas.

Não por acaso, já dizia Eça de Queiroz: "Como não há vinho, beba-se branco!".

A frase é inocente e tem até a sua graça, mas representa bem uma ideia que perdurou durante décadas: a de que o vinho branco não passava de uma substituição para o verdadeiro vinho, o vinho tinto. 

Curiosamente, esta perceção nunca correspondeu à realidade. Portugal sempre produziu brancos extraordinários: Encruzado no Dão; Alvarinho em Monção e Melgaço; Arinto em Bucelas; Verdelho na Madeira e nos Açores; Rabigato, Viosinho e Gouveio no Douro; Códega do Larinho em Trás-os-Montes; Fernão Pires no Tejo; Antão Vaz no Alentejo. A lista poderia continuar durante páginas. Castas com personalidade, regiões de enorme vocação e produtores capazes de criar vinhos de classe mundial sempre existiram. Então, o que mudou?

Mudou o clima, isso é inegável. Os verões são mais quentes, as refeições tornam-se mais leves e procuramos frescura para as acompanhar, algo que os grandes brancos conseguem oferecer de forma extraordinária. Mas essa é apenas uma parte da resposta.

Evoluíram também os conhecimentos e as técnicas. Durante muito tempo, fazer um grande branco era tecnicamente mais difícil do que fazer um grande tinto. Controlar temperaturas, evitar oxidações, preservar aromas, manter tensão e precisão exigia equipamentos e conhecimento que muitas adegas simplesmente não tinham. Hoje, graças à evolução tecnológica e ao enorme crescimento da viticultura e da enologia, tornou-se possível revelar todo o potencial de muitas castas que antes raramente chegavam ao consumidor na sua melhor expressão.

Mas mesmo quando existem conhecimento técnico, matéria-prima de excelência, investimento e boas ideias de marketing, muitos produtos continuam a morrer na praia. E porquê? Pela mesma ideia cultural, diria novamente geracional, de que falava no início: o preconceito.

Porque a forma como olhamos para um produto influencia inevitavelmente a forma como o valorizamos. Durante décadas, o vinho branco carregou o peso de uma expectativa demasiado baixa. Era visto como um vinho simples, de ocasião, incapaz de oferecer a profundidade, a longevidade ou a complexidade que se reservavam aos grandes tintos. E, quando acreditamos durante tempo suficiente numa ideia, ela transforma-se quase numa verdade, mesmo quando os factos dizem precisamente o contrário.

O vinho nunca se dividiu entre tintos importantes e brancos secundários. Divide-se apenas entre vinhos que nos emocionam e vinhos que esquecemos. Libertarmo-nos destas ideias pré-concebidas permitiu que o vinho branco deixasse finalmente de ser avaliado pelo rótulo da cor e passasse a ser julgado pelo que realmente oferece no copo. E essa mudança aconteceu quase sem darmos por ela.

Durante mais de quinze anos como sommelier, alguns dos maiores momentos de surpresa surgiram precisamente quando alguém descobriu que um grande vinho branco pode envelhecer de forma absolutamente magnífica. A fruta dá lugar à complexidade, a juventude transforma-se em profundidade, surgem novas camadas de aroma e sabor e uma elegância que só o tempo consegue oferecer. São momentos que desafiam convicções antigas e demonstram, de forma muito mais eficaz do que qualquer discurso, que a grandeza de um vinho nunca depende da sua cor.

Hoje, já ninguém estranha encontrar um branco fermentado ou estagiado em barrica, com naturalidade alguém paga cinquenta ou cem euros por um grande vinho branco e já não é incomum abrir uma garrafa com quinze ou vinte anos. O consumidor mudou, os produtores também e, felizmente, mudou a forma como olhamos para estes vinhos.

O vinho branco deixou de pedir licença e entrou na mesa principal. E não foi por acaso, foi por mérito.

Temos falado tanto sobre a forma como o vinho é comunicado que talvez esta seja uma ideia a reter: comunicar vinho não é apenas explicar castas, regiões ou métodos de produção; é também desafiar preconceitos e despertar curiosidade. Porque sempre que conseguimos comunicar um vinho para além das ideias feitas, não estamos apenas a conquistar alguém para um determinado estilo. Estamos a ampliar os seus horizontes, a dar-lhe confiança para experimentar sem preconceitos e a abrir a porta a uma nova forma de descobrir, compreender e desfrutar do vinho.

E, no fundo, talvez esse tenha sido o maior mérito do vinho branco ao longo dos tempos: não dizer às pessoas que deviam gostar dele, mas ajudá-las a descobrir aquilo que ainda não sabiam que eram capazes de gostar.

image-fallback
E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?
image-fallback
O vinho nunca teve pressa. Nós é que passámos a tê-la.
image-fallback
Naturais, Biológicos e Biodinâmicos: os vinhos de que todos falam, mas poucos sabem o que são
image-fallback
Pet-Nat: a maior novidade do vinho… tem centenas de anos

*Esta secção tem o patrocínio da Quinta da Biaia. Os textos são produzidos pelo DN com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre restaurantes e artigos de crítica gastronómica.

Diário de Notícias
www.dn.pt