Eitan é um geneticista judeu de Berlim que se apaixona por Wahida, uma americana de origem árabe, numa biblioteca em Nova Iorque. Para ambos, as suas origens não têm peso e basta o amor para justificar a sua união. Mas a família de Eitan, David Zimmerman, o seu pai, e Norah, a mãe que apoia o pai, não aceitam que o filho se junte a uma mulher árabe.Eitan reúne-os num jantar em Nova Iorque, onde está também o avô, Etgar, pai de David, para os convencer a aceitar Wahida. Etgar mostra-se mais compreensivo em relação às pretensões do neto, viu a família ser morta no Holocausto, mas diz: "Viver o que eu vivi é meu”. Mas o mesmo não pensa David, para quem todos os judeus carregam a história, o passado, o “sentimento de culpa” que não pode ser esquecido.. Os esforços de Eitan para convencer o pai a aceitar a namorada são em vão, com David a não suportar ver “o filho mudar para o campo do inimigo”. Esta oposição desencadeia uma série de acontecimentos e leva Wahida e Eitan - que se sente “envenenado pela dor do passado” -, até Israel para ver Leah, a avó que ele mal conhece. Em Israel Eitan é vítima de um atentado e vai parar ao hospital. Com os pais e avós reunidos em solo israelita, são feitas revelações surpreendentes sobre a família. No final, ninguém é quem julga ser, há novas identidades que se revelam e outras que se desfazem com a vida a mostrar-se mais complexa do que parece.A peça Todos Pássaros foi escrita em 2017 por Wajdi Mouawad, dramaturgo e ator libanês, cuja família fugiu da guerra no Líbano quando ele tinha dez anos, refugiando-se primeiro em Paris e depois no Quebec, no Canadá. À sua origem e experiência de vida não será alheia esta dramaturgia, que parte de uma história de amor no cenário do conflito israelo-árabe, abordando questões como a memória e a identidade. .É a primeira vez que esta peça é encenada em Portugal, tendo sido uma escolha de Álvaro Correia. “Eu gosto da escrita dele e gosto desta peça em particular por tratar de dar uma outra possibilidade no meio desta confusão toda que são estes conflitos que não têm solução à vista”, diz ao DN o encenador. "No fundo, é uma peça sobre o amor e sobre a questão também da identidade, a questão da pertença, e sobre a capacidade que nós temos de empatia pelo outro, a capacidade que nós temos de aceitar e eventualmente perdoar e de nos reconstruirmos", sublinha Álvaro Correia. Para o encenador, esta empatia pelo outro é demonstrada pelo próprio dramaturgo. "Acho interessante que, sendo ele um autor de origem libanesa, de descendência árabe, ter a coragem de se colocar no lugar do outro, no lugar dos judeus."O texto, que considera "muito bem urdido, muito bem construído" e que "é duro, dá-nos diferentes perspetivas, há coisas que são difíceis de ouvir, mas que depois têm uma consequência, não estão ali gratuitamente". . Esta peça conta no elenco com Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto, Virgílio Castelo e dois alunos finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema, Duarte Romão e Laura Garnel, que também contribuem para o espetáculo tocando música ao vivo.A música, original, é da Vitória e tem influências árabes e judaicas. "Ela resgatou uma canção que se ouve, uma canção sefardita, aqui da Península Ibérica", diz Álvaro Correia. Virgílio Castelo faz o papel de Etgar e considera esta história "muitíssimo bem escrita. Este autor tem uma maneira muito moderna de tratar um tema atual e profundo de uma maneira teatralmente engenhosa. Ou seja, não há neste texto um certo tipo de dramaturgia, como acontece muito nos textos modernos, que são mais panfletários do que propriamente dramatúrgicos. Este texto tem, objetivamente, uma mensagem para passar, mas passa-la de uma maneira teatralmente brilhante. A construção teatral é fantástica, e isso apaixona-me na peça, por tratar de um assunto muito importante, de uma maneira teatralmente apelativa", diz ao DN. . Para Madalena Almeida, que interpreta Wahida, "o autor encontra um equilíbrio perfeito entre o global e o particular. Ou seja, estamos a falar de uma guerra, mas a guerra acontece dentro de casa, no seio da família, e é devastadora em todos os sentidos. Seja aquela que acontece dentro de casa, seja aquela que acontece lá fora". Além disso, acrescenta a jovem atriz, "esta guerra, casada com esta problemática da identidade, do que é que nós somos, o sítio onde nascemos define quem nós somos, marca-nos, em que medida é que nos marca, que barreiras é que levanta entre nós, e como nos impede depois de nos relacionarmos uns com os outros? O lado que a mim mais me encanta no texto é essa poética, apesar de ser um texto ao mesmo tempo muito cru e muito duro". desafio de interpretar as personagens desta . Virgílio Castelo sublinha que o desafio para os atores, "independentemente das características de cada personagem, é que é um texto que não dá para se desconcentrar um segundo. Ou seja, nós temos que estar sempre com uma noção, como a Madalena dizia, do global e do particular. Porque se na poética se está a transmitir um determinado clima, no verso individual está-se a dizer uma coisa muito específica. E isso às vezes não é fácil, porque nós como atores temos a tendência para nos levarmos para um lado ou para o outro, ou para a poética ou para o pragmatismo. E aqui há alturas em que é uma coisa e alturas em que é outra. E isso é muito difícil de conseguir de um modo harmonioso".Virgílio Castelo acrescentou duas características à personagem que desempenha. Uma delas é uma mão que treme constantemente. "Há um momento em que o David diz para o Eitan, olha para as mãos dele, olha para os olhos dele. Eu lembrei-me de ter qualquer coisa que fosse um resultado de ter estado num campo de concentração, um nervo qualquer que não ficou bom", explica o ator. . "E outra coisa que também não está no texto e que eu meti, é o Ani Ma'amin, que eu digo várias vezes e canto a certa altura. Eu descobri isso, é a cantiga e os versos que os judeus cantavam a caminho do crematório. Eles sabiam que iam ser mortos e diziam Ani Ma'amin, eu acredito. São duas coisas que eu encontrei que não estavam no texto, que não estavam pedidas, e que me parece que podem ajudar à compreensão da personagem", diz o ator. Todos Pássaros é uma coprodução da Culturproject, Teatro Municipal Joaquim Benite e o São Luiz. Estreia esta quarta-feira, 18 de março, e estará em cena até 29 de março, de quarta a sábado às 20 horas, e aas domingos às 17h30. .‘Filodemo’, uma comédia de Camões para celebrar o Dia Mundial do Teatro .‘Um Inimigo do Povo’ propõe uma reflexão sobre a imigração enquanto lhe dá voz