É uma das três peças de teatro atribuídas a Luís de Camões e foi escrita e representada pela primeira vez na Índia. Não é muito apresentada e, diz Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II) e encenador de Filodemo, a última vez que foi levada ao palco foi em 2004 no Teatro da Cornucópia. “Eu vi essa versão, tinha uma amiga que fazia parte do elenco e fui ver. Eventualmente até já terá sido feita noutros contextos, mas creio que profissionalmente terá sido essa uma das últimas vezes. Sendo que o teatro de Camões não é muito representado, não há assim tantas companhias profissionais que se interessem pelo teatro de Camões, o que é pena”, diz Pedro Penim ao DN. Uma das razões para isso é a linguagem, porque o português que se ouve é de outros tempos, e até se brinca com isso na peça. “A linguagem é uma barreira imediata e muito óbvia, porque estamos a falar de um português que se falava no século XVI”. Mas, considera Pedro Penim, “é uma barreira que se ultrapassa muito rapidamente, porque há uma musicalidade, há uma melodia, há uma intencionalidade na forma como as palavras são usadas que é muito direta ao ouvido do espectador e, apesar dessa distância – que para nós é assumida, não vamos estar a disfarçar que ela existe –, ela é transponível, não está tão recôndita como seria de pensar”. No final de 2024 o D. Maria II já tinha apresentado uma leitura encenada de Filodemo, mas agora a peça de Camões ganhará vida no palco da sala estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, a partir do Dia Mundial do Teatro, a 27 de março, e ficará em cena até 18 de abril. . Filodemo é uma comédia pastoril que conta a história de um jovem apaixonado por Dionisa, mas que enfrenta obstáculos familiares e sociais para viver esse amor. Ao longo da peça, surgem conflitos, mal-entendidos e situações cómicas típicas do teatro daquela época. No final, revela-se a verdadeira origem de Filodemo e o amor triunfa.“É uma sinopse muito típica destas peças de século XVI. Encontros, desencontros, nobres que se apaixonam por pastoras, há uma história anterior à ação que de alguma forma vai resolver aquilo que é um mistério que se está a adensar conforme a ação vai avançando, mas se compararmos com as narrativas de hoje, estas narrativas de século XVI são muitas vezes muito binárias e muito elementares”. A riqueza desta peça, diz Pedro Penim, advém da “linguagem e da forma como as personagens se expressam e como dialogam umas com as outras, que é altamente complexificada e é aí que se vê toda a beleza da escrita camoniana”. .Pedro Penim: “Estou a fazer exatamente aquilo que quero. Mas sei que não será consensual” . O espetáculo conta com Vítor Silva Costa no papel de Filodemo e o restante elenco é formado por Ana Coimbra, Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Guilherme Arabolaza, João Grosso, José Neves, June João, Mariana Magalhães e Stela.Os ensaios começaram no início de fevereiro – oDN assistiu, na semana passada, a um deles – e, diz Vítor Silva Costa, “a maior dificuldade no início – mas mesmo agora – foi clarificar aquilo que estamos a dizer, não só as palavras individualmente, mas a construção. E, nesse sentido, é muito complexo, mas é muito prazeroso podermos ter o privilégio de nos ligarmos a uma das três peças dramáticas de Camões e torná-la viva”.Neste espetáculo onde não existe “manipulação da palavra de Camões” – ao contrário da anterior peça quinhentista encenada por Pedro Penim, em 2024, A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, em que houve uma “reescrita total” – , há “uma visão de 2026 sobre um documento do século XVI. E, nesse sentido, há pequenas combustões que são geradas a partir desse confronto entre este elenco, especificamente, e as palavras do Camões, que transformam imediatamente a peça numa leitura contemporânea daquilo que o Camões escreveu”, diz Penim. O encenador assume o anacronismo do texto procurando “compreender o que em nós permanece igual”. . A peça conta com um prólogo escrito por Pedro Penim (ver entrevista), e uma particularidade desta encenação é a incorporação das didascálias (indicações cénicas) na própria representação. “As didascálias normalmente não são ditas, nós optámos por inclui-las, porque já sabíamos que queríamos uma cena bastante despida, onde não há grandes objetos, e que, de alguma forma, as didascálias conseguissem acrescentar cores e ações àquilo que as personagens estão a fazer”. A cenografia é feita com cadeiras do espólio do D. Maria II e há também um vídeo que “dá uma dimensão ora poética, ora mais imagética a estes ambientes que a peça vai criando”, explica Pedro Penim. Os figurinos são reciclados de outros já criados pelo TNDM II. O encenador diz que gostava que o público se apaixonasse pela sonoridade e virtuosismo da escrita de Camões, e afirma que enquanto diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, “é a minha obrigação tornar possível o contacto com esta dramaturgia, porque ela é riquíssima.” . Filodemo terá três sessões de entrada livre no âmbito do Dia Mundial do Teatro, a 27, 28 e 29 de março. Os bilhetes têm de ser levantados no próprio dia nos Jardins do Bombarda. No dia 4 de abril haverá uma conversa com os artistas no final do espetáculo. Entre abril e junho, Filodemo será apresentada também em Mafra, na Gafanha da Nazaré e em Matosinhos..‘Um Inimigo do Povo’ propõe uma reflexão sobre a imigração enquanto lhe dá voz