A promessa, escrita sem pudor nas várias sinopses da peça intitulada Um Inimigo do Povo – que surge com um texto original de Marco Martins a partir da obra homónima do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen – é no sentido de haver “uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem” de imigrantes “sem jamais lhes darem verdadeiramente voz”. Uma fotografia tirada com um telemóvel, no dia 19 de dezembro de 2024, quando a PSP realizou uma operação na Rua do Benformoso, em Lisboa, que levou a que várias dezenas de imigrantes fossem encostadas à parede foi o ponto de partida para, através desta peça, a voz ser devolvida a estas pessoas, até porque um dos atores que estará em placo é mesmo um dos participantes nessa operação policial, junto a dez outros imigrantes que farão o exercício de refletir sobre o individual e o coletivo transposto a uma lógica de “oposição entre a minoria e a maioria”, explicou Marco Martins, numa conversa com o DN. Tudo poderá ser visto no Centro Cultural de Belém (CCB) entre 12 e 15 de março.“Nós estamos em permanente diálogo e alerta com o que nos rodeia e somos afetados, de forma menor ou maior”, observa Marco Martins quando questionado sobre se esta adaptação parte de uma preocupação com o mundo ou com aquele momento particular em dezembro de 2024. “A minha atenção ao Benformoso prende-se com essa ideia de, de repente, haver cerca de 60 pessoas encostadas a uma parede, numa posição de aparente criminalidade, numa rua a 200 ou 400 metros do lugar onde eu vivo”, observa, enquanto explica a forma como muitas vezes a realidade é mediada por pessoas, “idealmente por jornalistas profissionais - mas muito raramente -, com muita informação a chegar por outras vias, pelas redes sociais, por órgãos mais ou menos de informação cujas fontes não sabemos quais são”, afirma.Para além disto, a juntar ao caldeirão de possibilidades, continua o encenador, estas pessoas - imigrantes - “nunca são ouvidas, nunca têm uma voz, nunca têm um palco, nunca têm uma identidade”.Por todos estes motivos, da distorção da realidade à pouca visibilidade que é dada aos imigrantes, apesar de serem tema de conversa frequente, Marco Martins diz que quis “fazer um espetáculo que virasse essas pessoas para nós e as pusesse a falar sobre as suas vidas”.A preocupação de Marco Martins com os imigrantes do sudeste asiático começa desde logo por conceitos e pela utilização do termo “hindustânicos”, com o qual muitas vezes são genericamente identificados por outras pessoas de outras proveniências.“É como se nos chamassem ibéricos. Há uma desumanização daquelas pessoas, no sentido de retirá-las da sua individualidade”, descreve, vincando o trabalho que tem desenvolvido ao longo dos últimos 20 anos em comunidade. Marco Martins estava a trabalhar a peça Um Inimigo do Povo, escrita por Henrik Ibsen em 1882, partindo do conflito entre o indivíduo e o coletivo, que é o que a define. No entanto, em dezembro de 2024, a operação policial deu ao encenador a ideia de fazer uma adaptação ao momento, com esta preocupação espelhada.Por isso, a ideia inicial de Marco Martins era transportar para o universo da peça as pessoas que tinham sido encostadas à parede durante a operação da rua do Benformoso. O objetivo não se concretizou totalmente, mas não ficou pelo caminho. Das várias dezenas de imigrantes que protagonizaram a operação policial, um integra a peça. Em relação aos outros atores imigrantes que estarão em palco, o encenador lembra que “não estavam naquela parede, mas podiam ter estado, só que não passaram lá naquela altura, naquele dia”.Para além disso, foi o que estas pessoas sentiram que puxou o encenador para esta criação, isto é, “o pavor de serem agredidas, de serem insultadas, expulsas”.A grande assembleiaA narrativa da peça original de Ibsen passa-se numa cidade norueguesa que tem como principal motor da economia uma espécie de termas, e apresenta como principal argumento o conflito entre o individual e o coletivo. Porém, na leitura de Marco Martins, “a grande frase da peça é: a maioria nunca tem razão.”“É esta ideia de que normalmente a minoria está mais perto de alguma coisa que nós possamos chamar verdade, apesar da palavra verdade ser uma palavra difícil”, completa o encenador..Numa alusão a uma cena, que refere como sendo “a da assembleia, que é um pouco um tribunal”, uma das personagens “tenta dizer à população que as águas estão envenenadas e, portanto, deviam fechar as termas. E eles dizem: mas se fecharmos as termas a cidade morre. O que é que fazemos? E a nossa posição para com este problema da imigração e a condição dos imigrantes é sempre também, de alguma forma, fechar os olhos à forma criminal e desumana como eles são tratados, em prol da nossa economia”, descreve Marco Martins.É neste ponto que o texto do encenador se encontra com o texto original do dramaturgo norueguês, explica, acrescentando que “esta minoria também não é ouvida e ela própria está mais perto do problema”, mas talvez não da “verdade, porque essa é relativa”.“O meu trabalho é sobre pôr questões e vários ângulos sobre temas que por vezes parecem ser unívocos. Não é um trabalho de ativismo, é um trabalho de levantar questões, de levantar perguntas”, esclarece.Numa ligação entre o título da peça e a narrativa, Marco Martins explica como se procede a “uma reflexão sobre a ideia de que alguns grupos políticos, sobretudo ligados mais à extrema-direita, aos populismos, defendem que o imigrante é a causa de todos os nossos males”.Questionado sobre se esta ideia de uma minoria estar mais próxima da verdade – com a advertência de que o conceito de verdade não é absoluto – pode colocar em causa a própria ideia de democracia, Marco Martins esclarece que a “peça é um clássico e sempre foi controversa”. “Na peça do Ibsen isto está ligado muito mais a uma elite, ou seja, que as elites estão mais perto do conhecimento, são elas que estarão mais perto da razão, não da verdade”, adverte.No entanto, principalmente por ser polémica, a peça, para o encenador, “é uma grande reflexão sobre a democracia”, porque “não há uma exclusividade da razão, não pode haver”.Independentemente de onde partiu a peça, distante da Noruega do século XIX, Marco Martins espera que o público saia do CCB “inquieto” depois de assimilar esta peça.“Hoje em dia sentimos que as pessoas vão ao teatro ou ao cinema um bocado como quem vai à missa, para se sentirem bem. Eu gostava que as pessoas saíssem inquietas e sobretudo mais atentas a este fenómeno da imigração e a estas pessoas que fazem parte do nosso dia a dia, de várias maneiras: a pessoa que nos entrega a comida, a pessoa que guia o nosso transporte, a pessoa que faz as limpezas.”Para o encenador, os imigrantes “são pessoas que estão presentes e que nós escolhemos sistematicamente ignorar. Dito isto, acho que não é exclusivo da imigração, acho que estamos a caminhar para uma sociedade em que há uma grande ausência de pensamento coletivo e pensamento sobre o outro. Acho que o teatro tem esse lugar de empatia único”, conclui.Entre o medo e a vergonhaPor trás da peça, há um trabalho de investigação que ficou a cargo das jornalistas do Expresso Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, que chegaram às pessoas que no dia 19 de dezembro de 2024 acabaram por ser apanhadas na operação policial.Ao DN, Joana Pereira Bastos relata “um processo moroso e difícil”, porque se trata “de uma população, de uma comunidade que está um bocado desconfiada” depois de terem sido “apontados como os responsáveis de todo o mal”. Joana Pereira Bastos ultrapassa aquele dia em concreto e refere “aspetos políticos, até com cartazes a dizer ‘isto não é o Bangladesh’”, que são “altamente dirigidos a eles”, o que acaba por gerar um clima de desconfiança que tornou tudo muito mais complicado.“Não foi fácil chegar lá e pedir-lhes que nos contassem as suas histórias de vida, não só aquilo que viveram nos seus países de origem e tudo aquilo que viveram até chegarem a Portugal, as dificuldades económicas, sociais, culturais, de integração”, relata a jornalista, acrescentando que só não foi ainda mais difícil porque tiveram o apoio de duas pessoas importantes da comunidade do Bangladesh em Portugal: o líder da comunidade, Rana Uddin, e “um imigrante também do Bangladesh que está em Lisboa há vários anos, que fala bastante bem português e é uma pessoa que tem algum ascendente sobre a comunidade, porque os ajuda a tratar de documentação, ajuda em vários problemas que têm”.As barreiras acabaram por ser quebradas, mas a adicionar mais um nível de dificuldade a esta tarefa, completa a jornalista, há o facto de serem duas mulheres a fazer esta investigação. “Até do ponto de vista cultural essa questão das mulheres também já não é a coisa mais fácil do mundo”, observa.Ainda assim, de acordo com Joana Pereira Bastos, muitos dos imigrantes apontados pelas duas fontes das jornalistas como tendo estado encostados à parede durante a operação policial, acabaram por negar a sua participação. “Isto aconteceu várias vezes com pessoas que nós sabíamos que tinham estado encostadas à parede”, conta a jornalista, que acabou por concluir, mais tarde, que “as pessoas tinham muita vergonha, além do medo”.Está tudo ligado ao facto da polícia, durante “aquela operação policial”, ter mantido “encostadas à parede durante mais de duas horas pessoas sobre quem não recaía nenhum tipo de suspeita, mas que de alguma forma são tratadas como criminosas”, explica a jornalista, levantando o véu de mais um problema da comunidade bengali.“Eles achavam que se alguém soubesse que eles estiveram durante mais de duas horas encostados à parede, alguém iria achar: ‘alguma coisa fizeram, se foram tratados como criminosos é porque alguma coisa fizeram.’”Este fenómeno ultrapassou mesmo as fronteiras portuguesas e acabou por chegar às próprias famílias destes imigrantes nos países de origem, através das imagens difundidas nos órgãos de comunicação social. “As imagens correram o mundo e passaram até na CNN Internacional”, esclarece Joana Pereira Bastos, contando a história de um imigrante em concreto, que teve os pais e a filha dele, no Bangladesh, a assistir na televisão à operação policial, acabando por identificá-lo como uma das pessoas que estava encostada à parede, juntamente com dezenas de outros imigrantes, chegando a associá-lo a criminosos.No final, apesar de ele assegurar a sua inocência, perguntaram-lhe, insistentemente: “O que é que tu fizeste?”Com tudo isto, a jornalista percebeu que houve “um antes e um depois daquele dia na Rua do Benformoso”. “Apesar do crescimento do discurso de extrema-direita nos últimos anos, apesar dos cartazes, até àquele momento, para muitos imigrantes Portugal era visto como um país acolhedor”, conclui..‘Corpo Nómada’, no São Luiz, mostra as muitas vozes da “transumância” humana.‘John Gabriel Borkman’ no São Luiz questiona o “frio no coração”