A participação na Arco Madrid abriu as portas de Espanha ao trabalho de Inês Zenha.
A participação na Arco Madrid abriu as portas de Espanha ao trabalho de Inês Zenha. Foto: Leonardo Negrão

Inês Zenha mostra ‘Águas Turvas’ no CAM. Uma imersão subterrânea na estranheza

A exposição 'Águas Turvas' da artista está patente no Espaço Projeto do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian até 8 de fevereiro de 2027, vinda do Museu Centro de Arte Dos de Mayo, em Madrid.
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Entrar nesta exposição é confrontarmo-nos com o que é aberrante, com o que é rejeitado, eliminado. O ambiente é escuro, subterrâneo, de esgoto. Há canos e tubagens que evocam a passagem de águas residuais e dos quais irrompem formas que podem ser - ou não ser -, plantas, órgãos do corpo, criaturas. Há um mural que parece pele com pelos. Em Águas Turvas, Inês Zenha convida-nos a “enfrentarmos o que é estranho e o que nos é artificialmente e culturalmente imposto como algo de não natural, que pode até provocar sentimentos de nojo, de julgamento, de medo”.

E nós somos o nosso pior inimigo. “Por isso, quando caminhamos por este percurso subterrâneo, estamos a caminhar dentro de nós. Daí as personagens das pinturas terem sempre os olhos cerrados. A exposição é muito um olhar interior”, diz a artista, explicando que este trabalho resulta de um percurso pessoal. “De eu própria, dentro da cultura portuguesa e de uma educação bastante católica, lidar com essas questões e tentar libertar-me desses constrangimentos sociais. O meu trabalho artístico tem-me ajudado muito nisso, tem-me dado muita força.”

Nesta primeira exposição de Inês Zenha numa instituição cultural de grande dimensão em Portugal, são mostradas esculturas em cerâmica, um mural em barro cru, e um tríptico de pinturas. Salta à vista a qualidade do trabalho cerâmico da artista, nas formas e diferentes acabamentos, mas o material é apenas um meio de expressão das suas inquietações muito ligadas ao universo queer.

'Devir-Hydra IV', em Grés esmaltado.
'Devir-Hydra IV', em Grés esmaltado. Foto: Leonardo Negrão

Há no trabalho artístico de Inês Zenha “um diálogo entre dois polos: a materialidade, o barro, a cerâmica, os vidrados, materiais que se trabalham com as mãos, com o corpo, que implicam um gesto físico, e isso está muito presente no trabalho. Mas, por outro lado, há essa agência política, essa reivindicação de um lugar de fala que é queer, e que pretende ter uma agência no mundo”, diz Luís Silva, curador da exposição juntamente com João Mourão, fundadores do espaço Kunsthalle Lissabon onde a artista já expôs.

Águas Turvas foi apresentada pela primeira vez em Madrid no ano passado, no Museu Centro de Arte Dos de Mayo (CA2M), numa versão mais alargada. A mostra foi adaptada para o Espaço Projeto do CAM, mais pequeno, e inclui uma peça nova, Somos Lodo (2026), da qual escorre água, um elemento central neste projeto. “Eu gosto muito da questão de corpos de água. Tudo é água. A água que uma vez esteve em mim, agora está em ti. Nós somos feitos de todas as águas e a água é um líquido que continua sempre”, diz Inês Zenha.

'Somos Lodo' (2026)
'Somos Lodo' (2026)Foto: Leonardo Negrão

Nesta mostra há também muito corpo, como sublinha João Mourão. “Uma das presenças mais fortes é a presença do corpo queer, um corpo que é estranho, que é estrangeiro, de alguma forma, e que pensa questões relacionadas com o esgoto, com a transpiração, com os pelos. A Inês interessa-se por essas partes mais estranhas e mais bizarras do corpo humano e da própria cidade”.

No mural Desenterro, feito de barro cru, começou a nascer palha, o que também simboliza “sobrevivência” num mundo hostil. “Há um pensamento sobre plantas naturais e como elas apresentam esta questão da resistência, como elas aparecem no meio do cimento. É uma metáfora para pensar o corpo queer como identidade que está sempre a sobreviver de alguma forma, está sempre a procurar caminhos”, indica o curador.

Mural 'Desenterro', feito de barro cru e o "pelos".
Mural 'Desenterro', feito de barro cru e o "pelos". Foto: Leonardo Negrão

Além do mural e esculturas em cerâmica, a exposição inclui uma pintura em três partes, Águas-Vivas. O formato é de “panorama”, “historicamente associado à conquista, ao poder e à construção de imaginários patriarcais e heteronormativos”, lê-se na descrição da peça. As telas criam um contraponto com a restantes obras. “As pinturas são quase um desenterrar, uma passagem a um espaço mais elevado, não tão subterrâneo”, considera João Mourão. “É a primeira vez que a Inês usa o verde nas pinturas, que tem essa luz e essa estranheza do nevoeiro. As figuras que aparecem são sem género, são figuras que recusam esse binómio do masculino-feminino, que se abraçam, entrelaçam e se sustêm umas às outras”.

Tríptico Águas Vivas, com figuras híbridas envoltas em névoa.
Tríptico Águas Vivas, com figuras híbridas envoltas em névoa. Foto: Leonardo Negrão

Inês Zenha estudou Belas-Artes na Central Saint Martins, em Londres, passou os últimos sete anos em Paris, e está representada em várias coleções, entre as quais a Coleção de Arte Contemporânea do Estado Português, o Museu Thyssen-Bornemisza e o Museu CA2M.

A artista começou a trabalhar com cerâmica há poucos anos. “Eu fazia um trabalho muito diferente, até ao período da covid, eu diria. Nessa altura estava numa residência artística em França e não tinha grandes condições de trabalho ou dinheiro de produção. Mas eles tinham muita terra e um forno de cerâmica”.

Revela que estava a passar por um período difícil na sua vida, a nível psicológico. “Precisava de fazer algo para mim. Eu fui bastante formatada pela minha universidade de artes. Em acreditar que não havia espaço na arte para o íntimo, o pessoal, para as emoções, para o figurativo. Mas comecei a brincar com as cerâmicas. Comecei a fazer órgãos sexuais, diferentes órgãos, flores, animais. E aquilo abriu-me um caminho que eu não estava à espera. E as pinturas também. E foi aí que o mundo da arte se tornou interessante para mim”, diz ao DN.

Afirma que tem dificuldade em assumir-se como escultora. “Digo sempre que sou ceramista, porque tudo o que faço em termos de escultura é em cerâmica”.

O barro, diz, é um material que nos ensina uma grande lição sobre o ego. “Enquanto na escultura com outros materiais tu consegues controlar o resultado final, na cerâmica não. Comecei a perceber que existe todo um mundo de vidrados. E que os vidrados são feitos de coisas naturais. Então comecei toda uma investigação química, eu sempre gostei bastante de química, e o meu estúdio é um laboratório de química”.

Inês Zenha com os curadores João Mourão e Luís Silva.
Inês Zenha com os curadores João Mourão e Luís Silva. Foto: Leonardo Negrão

Inês Zenha revela que no início escondia o trabalho. “Tinha muita vergonha. Achava que era um trabalho infantil. Até quando vim à ARCOlisboa pela primeira vez, tinha algum medo de apresentar o meu trabalho. Porque sentia que não tinha nada a ver com a arte portuguesa. No sentido contemporâneo, mais atual.”

A participação na Arco Madrid através da galeria francesa que a representava foi um importante marco na sua carreira artística. “Foi na ARCOmadrid que muitas portas se abriram para mim. Tanto as instituições espanholas como os galeristas e o próprio mercado de arte espanhol se abriram bastante. Foi algo que eu não estava à espera.”

Sobre o futuro, Inês Zenha diz que vai continuar a trabalhar com cerâmica e a pintar. “São mundos diferentes, mas que se complementam. A pintura é um lugar onde sempre pude ser. Aliás, antes desta exposição, sempre senti que a pintura era quase um chamamento, que me permitia ser algo que não conseguia ser na realidade. Era quase um trabalho terapêutico. Sempre disse que as minhas pinturas tinham mais coragem do que eu. Hoje, posso dizer que estamos por igual.”

Foto: Leonardo Negrão

Já a cerâmica é outra história. “A cerâmica é algo muito mais visceral e lida mais diretamente com as dores provocadas pelo sistema. Daí os tubos. Acho que é um corpo a tentar libertar-se. São lugares diferentes.”

O fundamental, diz Inês Zenha, é continuar a fazer um trabalho “honesto”. “Eu sinto que tenho muita pressão. Com o sucesso vem muita responsabilidade. Tenho estado em sítios que me põem muita responsabilidade em cima e muita exigência. Eu só tenho três meses de produção para uma coisa enorme. E tem sido assim desde o início da carreira”, diz a artista. “Eu sinto que o meu lugar enquanto artista, não enquanto criadora, mas enquanto artista de profissão, é proteger o meu espaço criativo. E não deixar que essa pressão exterior retire a minha verdade, a minha essência. O trabalho tem que ser honesto, não pode ser forçado. Eu não quero ser uma impressora de objetos de decoração”.

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