Sérgio Mah: “A coleção CAM vai ter uma presença importante no programa dos próximos anos”
Diretor do Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian desde maio deste ano, Sérgio Mah vai apresentar a nova programação da instituição no final deste mês, mas adianta ao DN algumas das suas prioridades. No dia 7 de novembro inaugura na Nave e Mezanino a exposição Lugares que se Desenham, de que será curador com Leonor Nazaré.
O Espaço Engawa vai mudar a funcionalidade que tinha, onde mostrava o processo criativo dos artistas, para ser apenas um espaço expositivo?
Exato, é um espaço expositivo. Isto não é nenhuma espécie de crítica aos projetos que foram feitos antes, eu acho é que os projetos que são feitos para ali devem potenciar a natureza arquitetónica e a relação que aquele espaço tem com o exterior. Aliás, a própria palavra Engawa tem a ver com esta simultaneidade de estar dentro e fora, que é muito evidente naquele espaço.
A Nave e Mezanino passam a expor exclusivamente a coleção do CAM?
Não. A última exposição que encerra este último ciclo do ano vai ser uma exposição coletiva que terá lugar no grande espaço da Nave e do Mezanino, mas não é uma exposição permanente.
Mas esse espaço será sempre para apresentar exposições com a coleção?
Não. A coleção vai ter uma presença importante no programa dos próximos anos, mas entrarei mais em detalhe no final do mês, quando apresentar o programa. Ficarão completamente claras as novas orientações do CAM. Mas, já há bons anos que não havia uma exposição da coleção na Nave. Isso vai ocorrer, não sei se se vai repetir sempre, não é esse o modelo. Aliás, uma das ideias é quebrar a rigidez dos espaços. Portanto, a coleção vai entrar por muitos espaços e não necessariamente só na chamada Galeria da Coleção. Ela vai estar em muitos outros sítios e a ideia é ter uma relação dinâmica com a coleção e de como aquilo que nós temos na coleção se pode adaptar e potenciar a natureza das várias galerias do CAM e da fundação.
Acaba a estratégia da anterior direção de pôr artistas a olhar para a coleção em diálogo com o trabalho deles?
Sim, no próximo ano posso dizer que não vai haver uma exposição em que sejam artistas a olhar para a coleção, tirando uma exposição que ainda vem do programa da anterior direção, em que isso se mantém. Mas nos projetos que estou a pensar para os próximos anos isso não está a ocorrer. Não quer dizer que não volte a acontecer, mas, mais uma vez, acho que a ideia é que devemos variar, ter uma abordagem dinâmica sobre a forma como nós trabalhamos a coleção. Podemos ter uma exposição com uma natureza mais historiográfica, outra pode ser mais temática, outra pode ser mais focada sobre um autor. A ideia é não termos um modelo regular na maneira como nós trabalhamos a coleção.
Vai apresentar a a programação brevemente, mas quais são as suas prioridades como diretor do CAM?
O CAM é uma instituição muito importante dentro da oferta museográfica em Portugal e certamente que continuaremos a dar uma grande atenção às figuras importantes da arte moderna e contemporânea. Outra, é trabalhar a coleção, que é única no contexto português. É uma das nossas prioridades e está na vocação desta instituição a ligação a essa coleção, onde predomina a arte portuguesa. O CAM tem um papel muito importante na promoção e no estudo da arte portuguesa. É um museu em que um desejo da sua programação é trabalhar, promover e escrutinar autores essenciais da nossa história.
A Sala Projeto manterá a sua vocação?
Não necessariamente. Cada ideia adapta-se e encontra o seu espaço e cada espaço também reclama um certo tipo de exposições. É esta dinâmica que nós queremos, e estamos a trabalhar em exposições em que há uma grande adequação das ideias com cada uma das galerias do CAM. Portanto, a ideia é quebrar alguma espécie de rigidez, em que naquele espaço teremos sempre este tipo de exposições, é sempre a coleção... Não, não vai ocorrer assim.
Haverá alguma articulação com o Museu?
Há uma grande sintonia de ideias e de relacionamento entre mim e o Xavier Solomon. Há partilhas e até questões operacionais dos dois museus, mas é uma coisa em que estamos efetivamente a trabalhar, conceber projetos em que vamos sobrepor as duas missões de cada um dos museus.
A exposição Águas Turvas já estava programada antes de assumir a direção. Já conhecia o trabalho de Inês Zenha?
Já conhecia o trabalho da Inês Zenha e tenho-o acompanhado. É uma das artistas que mostram a riqueza de uma nova geração de artistas em Portugal. Eu vi a exposição da Inês Zenha há alguns anos na Kunsthalle Lissabon, e achei uma exposição surpreendente. E eu acho que, não só do ponto de vista plástico, mas também conceptual, pela singularidade dos temas que aborda e da forma como os aborda, é um trabalho muito singular. E, ainda que seja uma exposição herdada, herdo-a com muito gosto.
O que nos pode dizer da exposição em torno da coleção que inaugura em novembro com curadoria sua e da Leonor Nazaré?
Ela já está na agenda, o título é Lugares que se Desenham e são uma série de artistas que trabalham com a ideia do território, com a noção antropológica do lugar, ou porque trabalham sobre tipologias de lugar ou porque a natureza do trabalho manifesta uma ideia de edificar, de estabelecer limites, que está na própria raiz da palavra e dos significados ligados à noção de lugar.
