Pedro Cabrita Reis, com as telas de 'Apostolado' no chão, uma última adição à exposição 'com o coração livre de cuidados'.
Pedro Cabrita Reis, com as telas de 'Apostolado' no chão, uma última adição à exposição 'com o coração livre de cuidados'. Foto: Paulo Spranger

Pedro Cabrita Reis entra nos 70 com exposição no MAAT. "Com a mesma intensidade e o coração livre de cuidados”

Pedro Cabrita Reis exibe cerca de 200 obras, quase todas feitas nos últimos dois anos para esta mostra no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. Com curadoria de João Pinharanda, 'com o coração livre de cuidados' – assim se intitula a exposição – realiza-se com o artista a celebrar 70 anos de vida e o MAAT a assinalar uma década de atividade. Pode ser visitada até dia 15 de fevereiro do próximo ano.
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Na véspera da abertura da exposição com o coração livre de cuidados, Pedro Cabrita Reis ainda trabalhava na sua montagem na Galeria Oval do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa. Em plena visita de imprensa à primeira exposição individual do artista neste museu, entram no espaço “três almas danadas” do seu atelier - usando as palavras do artista -, carregadas com 13 quadros que, no último instante, Cabrita Reis decidiu adicionar à exposição.

As pinturas representam Cristo e os doze apóstolos e a inspiração surgiu após uma visita ao Museu El Greco, em Toledo, Espanha, onde está exposto Apostolado, um conjunto de 13 telas pintadas por Domenikos Theotokopoulos (El Greco) entre 1608 e 1614, retratando precisamente Cristo e os doze seguidores.

'Cristo', um dos 13 quadros inspirados no 'Apostolado' de El Greco.
'Cristo', um dos 13 quadros inspirados no 'Apostolado' de El Greco. Foto: Paulo Spranger

Uns dias antes, o artista tinha juntado à exposição uma escultura, Croce. “Tinha acabado de montar a exposição toda, começámos segunda-feira e acabámos terça-feira à hora do almoço. Fizemos a nossa última ceia numa mesa grande aqui, e almoçámos todos juntos. Eu gosto de celebrar. Levantou-se a mesa, dou uma volta pela exposição e senti imediatamente que estava uma coisa a faltar. Essas coisas não se sabem, sentem-se. Sentir é uma forma superior de exercer a inteligência e o pensamento, porque não é baseado em conjeturas de qualquer ordem. Percebi que aqui, no centro, faltava um ponto de referência”.

Para Pedro Cabrita Reis, “as exposições são em si próprias obras de arte, porque a forma como construímos as conversas diversas, as relações, os olhares, as ligações que as obras estabelecem umas com as outras, é do mesmo campo de pensamento que nos faz fazer uma escultura ou uma pintura. Uma exposição é uma obra de arte exponenciada”.

A escultura 'Croce', de alumínio e pedra.
A escultura 'Croce', de alumínio e pedra.Foto: Paulo Spranger

Croce é uma escultura em alumínio, a sugerir uma escada e uma cruz. A escultura já estava desenhada e pensada nos cadernos do artista, foi só pedir ao serralheiro para a fabricar em tempo recorde. “É um olhar para o momento do calvário, com a cruz, o personagem do Cristo já morreu, os seus discípulos, nomeadamente José de Arimateia, sobe à cruz para o tirar de lá e entregá-lo aos outros discípulos, que por sua vez o entregam à mãe, que é aquilo que está ali, Pietà”, sublinha Cabrita Reis, apontando para a série de quadros Doppia Pietà à sua esquerda.

A escultura incorpora também uma pedra que o artista tinha em casa, trazida de Foz Côa, depois de uma intervenção que ele fez na Barragem de Bemposta em 2013, a convite da EDP – “eu gosto de pedras, coleciono pedras”.

Em Croce, a pedra tem um duplo sentido. “É um contrapeso no plano geral da física das coisas, e na vidinha do dia a dia, mas, no contexto desta obra, que tem a escada que acede à cruz, aquela pedra é o prenúncio da pedra do túmulo de Cristo de onde ele, por artes ainda hoje inexplicáveis, terá saído e ido para o céu”.

A temática religiosa está ainda presente noutras séries expostas, como o tríptico Adam and Eve (revised), Descent from the Cross (2021), Ecce Homo ou a escultura em alumínio esmaltado 3=1, que remete para “o mistério insolúvel da Igreja Católica em que três entidades diversas são apenas uma”.

Apesar da temática cristã nestas obras recentes de Pedro Cabrita Reis – o artista tem também em exposição na Bienal de Veneza XIV Steps, constituída por 14 dípticos de pintura inspirados nas 14 estações da Via-Sacra –, o artista e o curador da exposição, João Pinharanda, afastam qualquer conversão religiosa.

“A grande interrogação é, e perguntam-me: ‘Então, agora és católico? Eu digo, bom, há muitas formas de se acreditar. Eu não me reconheço como um crente com uma estrutura de fé organizada, como aquela que assiste aos católicos e às outras confissões. Mas, no que eu acredito verdadeiramente, é no poder de transformação da arte”, diz Pedro Cabrita Reis. “E eu, quando me debruço sobre uma temática formal e conceptual, aparentemente ligada às interrogações que decorrem da análise dos textos da liturgia ou dos evangelhos, narrativas que vão desde a mitologia do Adão e Eva até à Pietá, na verdade, o que me interessa é olhar para a forma como, ao longo da história, os que me precederam abordaram esses temas. Não faço daqui um exercício de devoção”, acrescenta.

Galeria Oval do MAAT com as obras de Pedro Cabrita Reis.
Galeria Oval do MAAT com as obras de Pedro Cabrita Reis.Foto: Paulo Spranger

Esta ligação com a História da Arte está patente na nova série Nymphaea Redux, constituída por 28 pinturas inspiradas nos nenúfares do pintor impressionista Claude Monet (1840–1926).

“Olhando muito rapidamente para o meu trabalho, começam-se a distinguir e a destacar nessa análise esta aparente dicotomia: a representação da natureza e a representação do corpo. A natureza aqui é abordada através das invenções que eu faço do Monet, nomeadamente da sua série, que é talvez a mais famosa, dos Nenúfares, série essa que tem mais de 500 peças”.

Foram “matéria de trabalho, de investigação e de aprendizagem”, e o resultado “é um lugar onde a pintura atinge uma espécie de clímax, de apogeu, em que já não é representação material de uma qualquer verossimilhança, mas sim o exercício puro da transparência, da luz. E é isso que eu retiro dos Nenúfares do Monet, os reflexos na água, a passagem das águas, as próprias manchas, os apontamentos de cor dos nenúfares, as flores que flutuam nas superfícies do lago”.

Telas da série 'Nymphaea Redux'
Telas da série 'Nymphaea Redux'Paulo Spranger

Pedro Cabrita Reis pinta esta série sobre madeira tratada, com tintas de óleo nobres, e utilizando uma esfregona. São pintadas no chão, para evitar o dripping, nada de confusões com o Jackson Pollock, diz com humor o artista que também anuncia o começo do “esfregonismo”. O suporte de madeira permite alcançar maior transparência na pintura e tem ainda outras vantagens: “Gosto de pintar na madeira, porque eu ataco a tela com alguma força, com agressividade, e a tela não mexe”.

As esfregonas e os baldes (de tinta) permitem ganhar velocidade. “Ás vezes pinto com duas esfregonas”, diz o artista. “Eu pinto depressa porque não sei pintar devagar. Só sei pintar muito depressa. Tudo o que é o dispositivo, quer do corpo, quer do gesto, quer da preparação de toda a estrutura que leva a realizar um quadro, tem que, acima de tudo, ser uma forma de andar muito muito depressa”.

Série de quadros pintados sobre madeira com esfregonas. “Um exercício puro de transparência e luz”, diz o artista.
Série de quadros pintados sobre madeira com esfregonas. “Um exercício puro de transparência e luz”, diz o artista.Foto: Paulo Spranger

Nesta exposição, todas as obras são expostas pela primeira vez, com exceção da série Ridi Pagliaccio, de 2015, que já foi mostrada em Faro e em Famalicão. Cabrita Reis junta fotografias suas em contexto íntimo e familiar, às quais junta ou sobrepõe desenho, pintura e texto, numa autorreflexão irónica. Este conjunto encontra-se no início da exposição, na rampa descendente. Do lado oposto, na parte final da mostra, subindo a rampa, está Ecce Homo, que representa a entrega de Jesus à multidão, e que Pedro Cabrita Reis diz que há quem veja nela também uma autorrepresentação. “Esta série, que tem esse título, já foi interpretada por mais de uma pessoa como uma forma de autorretrato. E onde é que eu o vou buscar? Justamente à pintura belíssima e famosíssima do Dürer (Ecce Homo, de 1523) , em que ele se representa a si próprio como Cristo. Eu não me propus claramente essa ambição, mas há quem veja este Ecce Homo como uma forma, novamente e uma vez mais, de o Cabrita fazer autorretrato. Daquele lado, com aquela índole, deste lado, com outra índole”.

Obra da série 'Ridi Pagliaccio' (2015), em que Pedro Cabrita Reis junta fotografias suas em contexto íntimo e familiar, às quais  junta desenho, pintura e texto.
Obra da série 'Ridi Pagliaccio' (2015), em que Pedro Cabrita Reis junta fotografias suas em contexto íntimo e familiar, às quais junta desenho, pintura e texto. Foto: Paulo Spranger

Aos 70 anos, feitos no dia 5 de setembro, Pedro Cabrita Reis diz que não tem “angústias existenciais”, mas sim “um frisson, tenho uma inquietação interior, mas vem-me, sobretudo, de um maravilhoso aroma, que não é um cheiro, é um aroma, é um perfume, que de manhã reencontro todos os dias no ateliê, que é o das tintas de óleo”.

Para o artista, não há carreira, há “vida” e a prática artística desenvolve-se num fluxo criativo contínuo que tanto se pode materializar numa pintura a óleo, como num desenho ou numa escultura de alumínio. “Não há carreira, carreira têm outros artistas. E combino no tempo várias coisas. Posso estar a pintar uma peça, de repente quero fazer um apontamento, não o posso fazer porque ainda está relativamente molhado, não tem problema. Sento-me e continuo a fazer um desenho de uma série que já estava a fazer antes. Portanto, não há períodos especiais da minha vida para períodos especiais da minha obra. Há um fluxo contínuo e uma arte combinatória, em que tudo converge à mesma velocidade, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e sempre com o coração livre de cuidados”.

Com o coração livre de cuidados é uma citação da obra Trabalhos e Dias de Hesíodo, poeta grego da Antiguidade. “Eu, que estava muito preparado para chegar à sétima década, e que sempre fiz o que me apeteceu, sempre vivi com o coração livre de cuidados, para além das opiniões das pessoas e das situações que me arreliavam, resolvi deixar plasmado, escrito, registado num catálogo, o que poderia ser o meu moto.”

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