Marcelo e a selfie com o descobridor da Califórnia

Reconheci Donald Valadao entre os luso-americanos que fizeram questão de tirar uma foto com o presidente português, durante um dos encontros de Marcelo Rebelo de Sousa com a comunidade que vive na Califórnia. Para mim, Valadao (sim, sem o til) é o homem que vi em setembro de 2016 vestir uma armadura do século XVI e encarnar a chegada, à Baía de San Diego, de João Rodrigues Cabrilho, navegador português ao serviço da Coroa Espanhola. A barba foi uma das razões para ter recebido aquela honra, e há muito que lhe cabia dar vida durante o Festival Cabrilho ao primeiro europeu a pisar a Costa Oeste dos Estados Unidos, mais de dois séculos antes de estes nascerem como país em 1776, três séculos antes de a Califórnia se tornar o 31.º estado da União. Hoje, a origem portuguesa do navegador já não é consensual entre os historiadores, mas a estátua em Point Loma mantém o escudo com as quinas e continua a olhar para o Pacífico, oceano batizado por Fernão de Magalhães, indiscutivelmente português, tal como português era Estêvão Gomes, que cartografou a Costa Leste dos atuais Estados Unidos.

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Opinião

João Lopes

A imagem que repousa

Regresso a Jorge de Sena. E cito os versos com que termina um poema de 1950 dedicado ao pintor Pierre Bonnard: "A vós só cores convergem os sentidos / - só cores, não uma, não esta sobre aquela, / mas esta, aquela, todas, / presença fervorosa em gradações conjuntas: / a vossa idade calma de existir, / de estar pousado sobre a terra humana / como coisa alada que repousa." O poema pertence ao livro Pedra Filosofal, datado desse mesmo ano, há poucos meses reeditado pela Assírio & Alvim, com prefácio de Joana Meirim.

João Lopes

Daniel Deusdado

Ao juiz: 186 volumes BES explicados em 5 minutos

Era uma vez uma criança abandonada às portas da Misericórdia de Lisboa, corria o santo ano de 1850, de nome posto em batismo José Maria, acrescentado depois de "Espírito Santo" por alturas do Crisma. Muito pobre e lutador, montou bem cedo, pelos 20 anos, uma lojinha de câmbios e lotaria espanhola para as bandas da Calçada do Combro, reinava ainda D. Carlos I. Tão bem-sucedido foi que, ainda novo, ficou rico. E depois banqueiro, mudando-se então para a mais vetusta Rua Augusta, ali por volta da entrada do século XX.

Daniel Deusdado

António Araújo

Paraíso perdido

Há coisas de pasmar neste mundo. Uma delas, das maiores delas, são as moai e as ahu de Rano Raraku. São gigantes, chegam a ter mais de 20 metros de altura, mais do que um prédio de cinco andares, e a mais pesada de todas atinge as 270 toneladas. Encontram-se no pedaço de terra mais remoto do mundo, longe de tudo, a distâncias astronómicas: a 3700 quilómetros a Oeste da costa do Chile, a 2000 quilómetros a Leste das ilhas de Pitcairn, na Polinésia. Há milhares de anos, houve seres humanos que percorreram essa distância, a bordo de pirogas mais que frágeis, sem bússolas, nem instrumentos de navegação, indo parar ali, no meio do nada, o zero absoluto num oceano imenso. Sabermos isso é coisa que ainda hoje desafia a razão e o entendimento. O que mais nos inquieta, e ao mesmo tempo fascina, é alcançar o motivo, o propósito que animou os protagonistas de tal epopeia, o que os terá feito aventurarem-se assim, mar adentro, sem a mínima certeza de que, por mais que navegassem, iriam encontrar terra firme (e que nessa terra viveriam melhor do que no lugar de onde partiram).

António Araújo

Sebastião Bugalho

O grande swing

Hilary Mantel, provavelmente a maior escritora do século XXI britânico, introduz o leitor ao seu primeiro romance histórico (A Place of Greater Safety, 1992) da seguinte forma: "Tudo o que lhe parecer particularmente improvável é provavelmente verdade". Mantel, que se instituiu literariamente através de retratos ficcionados de momentos de rutura (a Revolução Francesa, no livro citado; o anglicanismo de Henrique VIII, na trilogia Wolf Hall), partiu esta semana deste mundo, não se inibindo de deixar lições a quem nele permanece. Também nós, não há dúvida, atravessamos um tempo de transformações, ainda que sem a sorte de virmos a ser narrados pela pena de Hilary Mantel.

Sebastião Bugalho

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Viriato Soromenho Marques

Da esperança à resistência

O Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) promoveu duas jornadas de reflexão sobre a primeira Conferência das Nações Unidas, realizada em Estocolmo, há 50 anos. Foi a ocasião para recordar, com olhar crítico e preocupações de futuro, os contributos pioneiros dessa conferência para uma consciência planetária sobre a crise global do ambiente. Os seus impactos em Portugal foram especialmente analisados, evocando-se personalidades marcantes como José Correia da Cunha ou Gonçalo Ribeiro Telles. O que me parece mais notável, contudo, é o contraste entre 1972 e 2022.

Viriato Soromenho-Marques

Rui Diogo

Desejo sexual, conforto e ciúmes: um difícil equilíbrio histórico e evolutivo

Há umas semanas estive em Portugal, e como costume quando estou em Portugal pediram-me para falar da evolução do... sexo. Foi precisamente o tema que falei no excelente TEDXOPorto 2022, e também em várias entrevistas, incluindo para o programa "Sociedade Civil" da RTP2. Frequentemente, mas nem sempre, os jornalistas que me entrevistam acham que eu vou defender que a monogamia, ou casamento monogâmico é algo "errado", ou obsoleto. Mas, como veremos em baixo, isto não é nada o que eu digo, como resultado dos dados empíricos que compilei para os meus últimos livros sobre este tema. Ou seja, por um lado sim, mostro, com dados empíricos científicos, que em relação à evolução humana, é um pouco "contra-natura". Os primatas são quase todos poligâmicos, e os seres mais próximos de nós, os chimpanzés, têm um modelo polimacho-polifêmea, em que tanto os machos como as fêmeas têm vários parceiros sexuais (geralmente do sexo oposto, mas não sempre, pois a homossexualidade está presente em quase todas as espécies de mamíferos, e os bonobos - uma das duas espécies de chimpanzés - participam frequentemente em relações homossexuais). Similarmente, os povos caçadores recoletores que existiram antes da agricultura em todo o globo, e os que existem hoje em várias regiões do planeta, em geral também são poligâmicos, ou ao menos não tem uma imposição cultural tão forte da monogamia, a qual é em grande parte uma construção social que apareceu sobretudo depois da agricultura.

Rui Diogo

Evasões

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