Curva, no Estádio da Tapadinha, inaugurou oficialmente na última quinta-feira, 21 de maio.
Curva, no Estádio da Tapadinha, inaugurou oficialmente na última quinta-feira, 21 de maio. Foto: DR

Curva. Atlético CP inaugura espaço de cultura e gastronomia para reunir adeptos além dos jogos

Nova área da Tapadinha, desejo antigo de Gifford Miller, surge no ano do centenário do estádio e aposta em música, comida e transmissões do Mundial para prolongar o jogo para lá dos 90 minutos.
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Quando Gifford Miller apaixonou-se por Lisboa, pelo Estádio da Tapadinha e pelo Atlético Clube de Portugal, o americano logo percebeu que atrás de uma das balizas do relvado havia um sítio reservado para muito mais do que futebol. Na tarde da última quinta-feira, 22 de maio, o espaço estava cheio de música, cerveja fresca, sanduíches italianas, bifanas reinventadas e dezenas de pessoas espalhadas pelas bancadas a olhar para o pôr do sol sobre a Ponte 25 de Abril.

Foi ali, no lado direito do histórico estádio do Atlético Clube de Portugal, virado para o Tejo, que nasceu oficialmente a Curva, novo espaço cultural e gastronómico criado pela SAD do clube de Alcântara para transformar a Tapadinha num ponto de encontro regular da cidade. Um desejo antigo do proprietário do clube, que trocou Nova Iorque pela capital portuguesa em 2022.

A inauguração juntou convidados, parceiros gastronómicos, entre outros, numa tarde que começou com uma visita guiada às galerias e à sala de troféus do Atlético, conduzida por Miller e por João Carvalho, CEO do clube, antes de seguir para o espaço exterior onde funcionará a Curva.

“Queremos que este estádio viva para lá do dia de jogo”, explicou João Carvalho durante a apresentação do projeto. “Tornar o Estádio da Tapadinha uma referência de desporto, cultura e entretenimento, um ponto de referência em Lisboa", complementou.

Curva funciona como um dos setores do Estádio da Tapadinha em dias de jogo do Atlético CP. E sim, a cerveja está liberada durante as partidas.
Curva funciona como um dos setores do Estádio da Tapadinha em dias de jogo do Atlético CP. E sim, a cerveja está liberada durante as partidas. FOTO: NADYA M

A ideia acompanha um discurso que o investidor norte-americano Gifford Miller já vinha defendendo desde a chegada ao Atlético. Em entrevista ao DN, no ano passado, o antigo presidente do Conselho da cidade de Nova Iorque falava na criação de um “hub cultural” capaz de aproximar a Tapadinha da comunidade e transformar o estádio num espaço ativo mesmo fora dos jogos. Agora, essa visão ganha forma concreta com o novo espaço, que teve um início de funcionamento gradual ao longo dos últimos meses e na quinta-feira (21) teve sua inauguração oficial.

Durante os jogos do Atlético, a Curva funcionará como bancada com comida e cerveja para os adeptos. Fora dos dias de futebol, a ideia passa por manter o espaço aberto ao público entre quarta-feira e domingo, com programação ligada à restauração, música, eventos privados e transmissões desportivas.

“Os estádios muitas vezes acabam vazios quando não há jogos. Nós queremos exatamente o contrário: ser um espaço para a comunidade e para a cidade”, disse Gifford Miller ao DN durante a inauguração.

O investidor norte-americano acredita que o ambiente da Tapadinha oferece algo difícil de replicar noutro lugar. “Há outros bons estádios em Portugal, mas alguns podiam estar em qualquer parte do mundo. Este só pode existir aqui. É muito português. Tem autenticidade”, afirmou.

A tentativa de transformar a Tapadinha num novo polo cultural de Lisboa, no entanto, também levanta discussões inevitáveis sobre a transformação urbana de Alcântara e os receios de descaracterização e gentrificação do bairro. Durante a visita guiada, João Carvalho reconheceu que o clube está consciente desse debate e defendeu que o objetivo da CURVA passa precisamente por aproximar o estádio da comunidade local, e não afastá-lo dela.

“O Atlético sempre foi um clube profundamente ligado à classe trabalhadora de Alcântara”, afirmou o CEO do clube, ao recordar as origens do Atlético e a ligação histórica aos trabalhadores e carroceiros do bairro. “Queremos preservar essa identidade e fazer com que as pessoas do bairro continuem a sentir que isto lhes pertence".

Jogos do Mundial e a curadoria gastronómica

A aposta passa também por aproveitar o Mundial de 2026 como primeiro grande momento de afirmação do espaço. Segundo Miller, a CURVA deverá funcionar como “fan zone” durante a competição, com ecrã gigante, música e programação especial para os jogos de Portugal, Brasil e Cabo Verde. “Na Praça do Comércio tens muita gente e pessoas a pisarem-te os pés. Aqui tens futebol, comida, cerveja e o Cristo Rei iluminado ao fundo”, brincou o empresário.

E por falar em comida, além da vista privilegiada sobre Lisboa, a componente gastronómica aparece como uma das marcas mais fortes do projeto. A Curva abriu portas com três roulottes residentes: a KAU, especializada em sandes de churrasco americano; a Vetrina, focada em pizzas e sanduíches italianas; e a Trifana, conceito criado por Vasco Lello a partir de uma releitura mais elaborada da tradicional bifana portuguesa.

Trifana é uma das principais atrações gastronómicas da Curva.
Trifana é uma das principais atrações gastronómicas da Curva.NADYA M

“Precisávamos de uma oferta que falasse ao universo do futebol, mas sem perder qualidade”, explicou João Carvalho durante a apresentação dos parceiros gastronómicos. A Trifana, por exemplo, mistura diferentes cortes de porco, molho picante e cebola pickle numa interpretação mais contemporânea da sanduíche tradicional portuguesa. Já a Vetrina, do grupo Non Basta, aposta em pizzas em massa schiacciata e sanduíches italianas inspiradas numa viagem dos criadores a Florença.

Entre as opções disponíveis estão o Philly cheesesteak (€16) e a sandes de pulled pork (€9) da KAU, pizzas a partir de €5,50 e sanduíches italianas da Vetrina desde €8,50, além da especial e já mencionada “trifana” criada por Vasco Lello, vendida a €6,50. O espaço conta ainda com cervejas entre €2 e €3,50 e cocktails como spritz.

Philly cheesesteak da KAU.
Philly cheesesteak da KAU. NADYA M

Embora a curadoria gastronómica por si só já seja apelativa à qualquer comensal (há também opções vegetarianas tanto na Vetrina, quanto na Trifana), a Curva quer vender mais do que comida ou futebol: a ideia é transformar a casa do Atlético CP num espaço de permanência numa cidade onde poucos estádios conseguem escapar à exclusividade dos 90 minutos de futebol.

Há um ano, quando recebeu o DN no estádio, Gifford Miller descrevia a Tapadinha como “o lugar mais romântico do mundo para ver futebol”. Agora, garante que o clube dá o "primeiro e principal passo" através da cultura, a gastronomia, a bola e o convívio, para cumprir outro dos seus principais desejos, que utiliza quase como um mantra: "Queremos ser o segundo clube de todos os lisboetas".

Gifford Miller: da política em Nova Iorque para a Tapadinha, em Alcântara.
Gifford Miller: da política em Nova Iorque para a Tapadinha, em Alcântara. Foto: Leonardo Negrão.

O Estádio da Tapadinha fica na Rua Professor Vieira Natividade, em Alcântara. A Curva abre todas às sextas-feiras, das 17h às 23h, e aos sábados e domingos, do meio-dia às 23h. Todas as informações sobre eventos e transmissões desportivas podem ser encontradas através da página do Instagram do espaço.

nuno.tibirica@dn.pt

A deslocação do jornalista à Curva ocorreu a convite do Atlético CP.
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