O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, disse esta quarta-feira que parece que se está "num país de faz de conta”, criticou a ausência de comunicação e admitiu que o seu grau de tolerância começa a esgotar-se.“Quem está a dar a cara sou eu, todos os dias a comunicar-vos a pouca informação que tenho e o processo tem de ser mais transparente, o processo tem de ser mais claro. Na [pandemia] de covid tínhamos ‘briefing’ e comunicação ao país sobre o que estava a acontecer e eu acho que ninguém comunica ou não querem comunicar. Parece que estamos num país de faz de conta”, declarou Gonçalo Lopes.O autarca falava aos jornalistas nos Bombeiros Sapadores de Leiria, onde está instalado o centro de operações do município na sequência da depressão Kristin que, há uma semana, afetou gravemente o concelho.Questionado se se trata de uma crítica ao Governo, liderado pelo social-democrata Luís Montenegro, o presidente do município socialista respondeu que “o que aconteceu em Leiria é algo demasiado grave para que não haja uma comunicação credível, transparente sobre a evolução das reparações na rede”.“O grau de escrutínio que colocam à minha atividade como político tem de ser colocado também a quem é responsável de gerir as redes nacionais, seja o fornecimento de água em alta, seja o fornecimento de eletricidade. Tem de existir mais transparência”, prosseguiu.Segundo Gonçalo Lopes, a transparência passa por dizer ‘estou a fazer esta obra, tenho estes meios, de ontem para hoje conseguimos reparar uma torre’, insistindo que “esse grau de transparência de informação tem de existir”, para “criar confiança”.Admitindo que as empresas responsáveis pela prestação de serviços públicos estão a fazer um esforço, o autarca salientou ser necessário que “alguém preste contas sobre isto e as contas não estão a ser prestadas”. .Gonçalo Lopes: “Se isto tivesse sido em Lisboa, não haveria tanta gente a ver o Benfica com aquele entusiasmo”."Tem sido um corrupio de líderes", mas "resultados concretos não se veem”. Gonçalo Lopes disse ainda desconhecer a presença hoje, em Leiria, da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, para acompanhar trabalhos de recuperação da rede elétrica.“Não tive conhecimento desta visita, admito que me possam ter ligado”, adiantou, acrescentado que “tem sido um corrupio de líderes das mais diversas áreas que passam, mas ações concretas para resolver ou resultados concretos não se veem”. .“Apagão completo” nas freguesias rurais de Leiria.O presidente do município de Leiria afirmou ainda que há um “apagão completo” nas freguesias rurais do concelho, onde há uma semana não há energia elétrica devido à depressão Kristin.“O apagão é de tal maneira grave que são, sobretudo, as populações que vivem nas freguesias urbanas que têm energia. A partir do momento que passamos para um raio de quilómetros que se afasta da cidade, é o apagão completo”, declarou aos jornalistas Gonçalo Lopes, nos Bombeiros Sapadores de Leiria, o centro de operações do município para responder ao impacto da depressão Kristin.Segundo o autarca, “a situação do restabelecimento da energia está num processo lento”.Declarando-se muito preocupado “com as zonas mais afastadas das infraestruturas públicas, de fornecimento de água, luz e comunicações”, o presidente da Câmara alertou que as pessoas que vivem nas freguesias mais rurais estão a passar por “momentos dramáticos, porque estão apagados há mais de sete dias”.“A fase que tínhamos previsto de restabelecimento está a demorar muito mais tempo do que tínhamos pensado, o que coloca estas populações num nível de preocupação e de alarme que merece um reforço e uma estratégia muito mais rápida e contundente, não só no restabelecimento do fornecimento de eletricidade em alta, mas muito em especial em linhas de trabalho para recuperar toda a distribuição da energia em baixa”, defendeu.O autarca considera que deveria ter tido o “apoio massivo de geradores”, evitando “prejuízos enormes para a vida das pessoas”.“Monte Real, Carvide, Souto da Carpalhosa, Coimbrão, Monte Redondo, Bajouca, Bidoeira, Colmeias, Memória, Caranguejeira, Santa Catarina da Serra, tudo o que tem a ver com o arco mais distante e que precisa de alimentação em alta, está prejudicado no seu fornecimento”, adiantou, frisando que “são estas as populações que estão a sofrer e são muitas”.Para Gonçalo Lopes, “o grau de desespero e de tolerância começa a esgotar-se”, assim como o grau de tolerância da população, notando que “sete dias é um marco dramático, porque não se conseguiu dar uma resposta mais rápida”.“A rapidez da resposta acho que tem de ser avaliada”, acrescentou..“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”. Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros..E-Redes não define datas para reposição total de energia. 20 freguesias terão geradores de grande potência.Autarca de Leiria critica ação no terreno: "Temos que ter todos os recursos disponíveis a nível nacional"