Na noite de 2 para 3 de fevereiro, as águas voltaram a inundar a Avenida dos Aviadores, em Alcácer do Sal. Ainda não tinha passado uma semana desde que a depressão Kristin fizera os maiores estragos - pelo menos parte de um telhado voou, a Correaria Machado e Goucha ficou alagada e perdeu parte significativa do seu inventário (produz casacos, selas e outros produtos em pele), tal como o snack-bar A Tosca, e vários outros estabelecimentos comerciais.Esta semana, foi a vez da agência da Caixa Agrícola, cujo mobiliário estava todo a ser retirado das instalações com a ajuda de funcionários da Câmara Municipal de Alcácer do Sal. Os alertas que avisavam para o agravamento do tempo durante a tarde de ontem puseram novamente as autoridades de sobreaviso. “Têm estado aqui equipas dia e noite. Bombeiros, proteção civil, câmara municipal… têm sido impecáveis”, conta ao DN Maria Manuela Morais, proprietária da Ourivesaria Morais. Está, com a filha Carla, atrás do balcão da loja, de frente para o rio Sado, cuja ameaça de subida vai monitorizando pelo canto do olho. “Estamos aqui nesta loja há 40 anos. Não me lembro de nada assim desde que temos a loja aqui”, continua Maria Manuela..O marido, Manuel Maria, entra pouco depois. “Andei aí a ver o que andam a fazer. Cheias como as dos anos 1960 nunca mais tivemos... não deve chegar aqui”, diz, enquanto olha pela porta de vidro. “Depois de terem feito esta rotunda aqui [à saída da ponte], é preciso ser uma coisa mesmo muito grande para termos água deste lado”, diz tranquilo. Na Avenida dos Aviadores, há muitos estabelecimentos de portas fechadas - protegidas por sacos de areia que servem de obstáculo no caso de a água subir - mas a larga maioria segue aberta ao público. Excetuam-se as lojas que sofreram danos graças à tempestade Kristin, tal como o próprio mercado, “que não abre há uma semana”, conta-nos Maria de Lurdes.Está, com o amigo Luís, debruçada sobre um dos gradeamentos da ponte a observar a subida das águas e os movimentos ritmados dos elementos da Proteção Civil e da Autoridade Marítima Nacional, que vão estendendo e monitorizando mangueiras para tentar escoar a água que ainda ocupa a larga avenida, cortada ao trânsito. .A chuva prevista para o final da tarde, que começou a cair sem dar tréguas por volta das 17h00, era a principal preocupação. Isto porque o aumento da pluviosidade ia coincidir com uma descarga de barragens prevista, e também com uma maré ainda cheia. “Há muitos anos que não víamos nada assim. Eu cá não me lembro”, reforça Carla Morais. “Mas temos ali uma grade para colocar na porta e uns sacos de areia”, continua Carla. “O movimento está exatamente igual ao de outro dia qualquer… na semana passada realmente foi pior, ainda ficámos dois dias sem luz. Mas foi só isso. No sábado já tínhamos de novo”, conta, garantindo que tudo o que foi destruído pela passagem de Kristin já foi, na medida das possibilidades, resolvido pelas autoridades.“Levantámos as arcas, tirámos as coisas das prateleiras mais baixas e pronto. Também não há mais nada que possamos fazer. Não acho que a água vá subir até aqui”, diz, igualmente tranquila, uma das funcionárias da Gelataria do Largo, onde continuam a entrar clientes em busca de café, crepes ou somente dois dedos de conversa.Curiosos e críticos“Esta coisa da natureza…”, comenta Sérgio Valente. Está de cigarro na mão, encostado a um dos postes da zona ribeirinha, a olhar para os trabalhos da Proteção Civil. “Ali cavaram um rego, está a ver? Com aquela giratória que está ali atrás do hotel. Para ajudar a água a escoar”. Radicado na Suíça, vai alternando a vivência entre aquele país e Portugal. Quando está por Alcácer - “vivo além, longe, a água não chega” - é o produtor de rebuçados de ovo que todas as pastelarias procuram. “Só faço isto por gosto, à noite. Quando me apetece”, conta sorridente. “As piores cheias foram umas na década de 1960. Essas é que foram muito grandes. Depois houve umas em 1985 também grandes. Mas agora isto é o que é. É a natureza, olhe…”, diz, encolhendo os ombros. Habituados aos revés dos elementos, os habitantes de Alcácer do Sal olham, curiosos, para o movimento de jornalistas e autoridades. “Vocês também só cá vêm quando há estas coisas, não é?”, atira Maria de Lurdes, divertida. “Em minha casa nem fiquei sem luz, nem comunicações, nem nada. Vivo mais do outro lado da cidade”, continua. “E mesmo aqui, na avenida, não houve assim pessoas com casas estragadas. Houve uns prédios de onde as pessoas tiveram de sair de apartamentos no primeiro andar. Outras que vivem no segundo ou terceiro e que ficaram algum tempo sem poder sair - ainda há pouco falei com uma senhora que estava na varanda - mas a câmara e os bombeiros levaram-lhes bens essenciais”, contou ainda ao DN.Para Maria de Lurdes, estas cheias são a natureza a tomar conta do que é seu. Não está particularmente preocupada, tal como não o estão a maior parte dos habitantes com quem o DN se cruzou, até à hora de fecho desta edição. Nas esplanadas - seja na agora fechada A Tosca ou em outras, que continuam de portas abertas, juntam-se grupos de amigos, mais ou menos idosos, que partilham cervejas, charutos ou somente a observação dos trabalhos de prevenção que estão a ser levados a cabo pelas forças no terreno.Os elementos da Autoridade Marítima Nacional, que exibem equipamento acabado de estrear, azafamam-se a desenrolar mangueiras que vão ligando a motores, alimentados por geradores, consecutivamente a serem atestados. Equipamentos da Lisnave juntam-se aos da proteção civil para ajudar na empreitada, e são ligados por funcionários da câmara municipal, que se dividem entre tarefas de limpeza e de monitorização da subida do caudal da água..Elementos dos bombeiros aguardavam, quando a chuva se fez sentir mais forte, debaixo do toldo da pastelaria Crespo’s, onde os proprietários se apressam a selar a porta de vidro com fita isolante e a empilhar sacos de areia, à semelhança dos vizinhos.“Na última hora e meia, a água subiu três degraus”, comentam alguns dos transeuntes, enquanto observam o rio. Lá em baixo, o gradeamento que separa o rio da zona ribeirinha era antigamente um muro que também ajudava a proteger mais os acessos destas enchentes que são mais comuns do que o resto do país possa pensar.“Quiseram trocar por aqueles gradeamentos… sabemos lá porquê”, atira Maria de Lurdes. À medida que a tarde avança - aproximando-se o horário mais crítico, segundo as previsões meteorológicas - aglomeram-se também mais pessoas nas margens do rio. Algumas estão a sair do trabalho, outras a fazer um passeio de final de tarde. Um grupo de amigos junta-se, costas voltadas para os jornalistas que desde a semana passada têm estado presentes na cidade. “Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”, comenta um deles, antes de enfiar as mãos no casaco e, de cabeça baixa, enfrentar a chuva e o vento, cada vez mais frios, cada vez mais fortes. “Não sei como é que eles acham que vão tirar a água com estas mangueiras”, duvidam os outros, que se preparam para voltar para casa, chapéus de chuva aberto e passo vagaroso. O ruído das bombas que continuam a drenar água das ruas torna o silêncio da via pública ainda mais notório. É só tranquilidade que se sente em Alcácer do Sal, apesar das previsões de agravamento do tempo. As equipas de socorro, que se preparam para mais uma noite de prontidão, comem as últimas sandes e sumos, antes de regressarem aos seus postos de vigia. Um dos bombeiros, em constante monitorização da subida do caudal, passa pela equipa do DN e é evasivo: “Esperamos que a água não suba. Esperamos que não”, e segue, em passo apressado, para mais um ponto de situação com a equipa.Junto ao quiosque do Largo 25 de Abril, de portas abertas apesar da chuva e do vento, descansa vazio um bote dos fuzileiros, de prevenção ao possível agravamento do cenário. .Autarca do Cartaxo garante que 600 pessoas de três aldeias estão “em segurança” mesmo que fiquem isoladas.Os municípios e as bacias hidrográficas que a Proteção Civil coloca sob o risco de cheias nos próximos dias