O telemóvel do presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, não para de tocar.
O telemóvel do presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, não para de tocar.Reinaldo Rodrigues

Gonçalo Lopes: “Se isto tivesse sido em Lisboa, não haveria tanta gente a ver o Benfica com aquele entusiasmo”

Presidente da Câmara Municipal de Leiria critica ministros que pedem estimativas de prejuízos e diz que “as pessoas não têm noção do que aconteceu”
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Gonçalo Lopes está sentado, envolto em fumo de tabaco e em pessoas que lhe vão sussurrando informações. O telefone, que toca de 10 em 10 segundos, está ligado a um power-bank. Desde quarta-feira de manhã, 28 de janeiro, que o presidente da Câmara Municipal de Leiria fez do quartel dos Bombeiros Sapadores de Leiria o seu quartel-general, e é daqui que é feita a coordenação de todas as operações que estão no terreno para tentar mitigar os efeitos da tempestade Kristin.

“Esta manhã, o ministro da Economia chegou aqui a perguntou se eu tinha noção do valor estimado do prejuízo”, conta o autarca, olheiras fundas e garrafas de água amontoadas à sua frente. “Quando me perguntam isso, é de quem não tem noção do que aconteceu”, lamenta.

O concelho de Leiria continua sem energia elétrica, sem água e as comunicações estão, finalmente, a voltar a ser repostas, mas ainda com muitos constrangimentos. “Não tenho nenhuma estimativa sobre quando vamos ter energia elétrica, porque caíram muitos postes de muita alta tensão, e as reparações vão demorar. A cidade está a ser abastecida por um posto móvel da E-Redes, mas os estragos são muito grandes, e o sistema terá de ser reposto com a ajuda de geradores… não sei”, diz.

Apesar de a cidade estar a ser alimentada com alguma energia elétrica, não há sinais de trânsito a funcionar, grande parte dos estabelecimentos comerciais continuam fechados e a energia chega para pouco mais do que o estritamente essencial.

“A água tem vindo a ser reposta com geradores próprios, mas tivemos uma rutura do funcionamento em alta” do consumo e, "ao contrário do que esperávamos, não vai ser possível ter a água reposta até ao final do dia de hoje (30 de janeiro)”, lamenta.

E continua nas críticas ao Executivo: “O estado de calamidade só foi decretado passado um dia, e depois de eu insistir. Acho muito que quem vive em Lisboa não tem noção do que aconteceu”, repete. “Foi um milagre só terem morrido 3 pessoas em Leiria”, diz, antes de fazer uma pausa.

“Se tivesse acontecido em Lisboa, não haveria tanta gente a assistir ao jogo do Benfica [na quarta-feira, 29, à noite] com tanto entusiasmo”, atira ainda em jeito de desabafo.

Acredita que em termos de prevenção não podia ter sido feito mais – “ninguém tinha noção da real dimensão do que aconteceu” – mas que a resposta à tragédia “devia ter sido mais imediata”.

“A capacidade de resposta pode sempre ser melhorada, através de maior resiliência por parte das instituições da proteção civil”, continua.

Sem comunicações, populações estão entregues à sorte

O DN passou por várias freguesias do concelho de Leiria onde, 48 horas depois da passagem da tempestade, ainda não tinha chegado qualquer tipo de ajuda por parte das entidades oficiais. Famílias, amigos, vizinhos juntaram-se para limpar caminhos, acudir aos mais afetados e garantir os bens essenciais para sobreviver à passagem do tempo. A maior dificuldade foi a falta de comunicações, que os impedia de pedir ajuda sem se deslocarem ou avisar os mais próximos sobre a atual situação.

O quartel dos Bombeiros Sapadores de Leiria é o quartel-general do autarca.
O quartel dos Bombeiros Sapadores de Leiria é o quartel-general do autarca.Reinaldo Rodrigues

“Temos plena noção de que nesta tragédia as pessoas têm de ser as primeiras a fazer as suas tarefas. Uma das nossas principais corporações de bombeiros também foi atingida pela queda do telhado, o que significa que mesmo estas entidades estão limitadas na sua ação”, sublinha o autarca.

Garante que o briefing diário com os presidentes de Junta de Freguesia tem conseguido colmatar as necessidades mais urgentes, mas reconhece que não vai ser possível chegar a todo o lado, para já. Até porque a total falta de comunicações durante as primeiras 48 horas acabou por condicionar muito o processo.

“Estamos numa região onde muitas pessoas estão ligadas ao setor da construção e das madeiras e isso só nos dá orgulho e a certeza de que têm também capacidade para ajudar a reparar o nosso concelho”. Lá fora, continuam a chegar carros de bombeiros vindos de várias regiões do país. Vila Verde, Anadia, Águeda, Murtosa… “são centenas de bombeiros que nos vieram ajudar”, diz em jeito de explicação. Estão a ser acolhidos pelo seminário de Leiria, que abriu as portas para ajudar a população.

No mesmo sentido, “as pessoas que ficaram desalojadas estão a ser, na sua maioria, acolhidas por familiares, amigos, vizinhos, muitos até fora da região, mas temos também alojamento municipal em casas que temos, ou no centro de acolhimento”, continua, quando questionado sobre as condições da autarquia para acolher a quem perdeu tudo.

Enquanto o sol se punha sobre Leiria, a chuva voltava a cair com mais intensidade, e um vento frio permanece como que a lembrar que os próximos dias não deverão ser mais fáceis por estes lados. Gonçalo Lopes levantou-se para mais uma reunião, antes de se preparar para voltar ao Jardim Luís de Camões, ícone do centro da cidade, agora completamente vazio de árvores de porte, para receber Marcelo Rebelo de Sousa, naquela que deverá ser uma das suas últimas visitas enquanto Presidente da República.

O telemóvel do presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, não para de tocar.
“Connosco foi só o telhado. Há pessoas que não têm paredes”

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