Inês Teixeira com o filho Tomás, ao colo
Inês Teixeira com o filho Tomás, ao coloReinaldo Rodrigues

“Connosco foi só o telhado. Há pessoas que não têm paredes”

No Pavilhão Desportivo de Pousos, a esperança chega em forma de lonas e de um pouco de rede de telefone. Com a meteorologia sem dar tréguas, todas as mãos se unem para ajudar
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Inês Teixeira espera, em silêncio, com o filho Tomás ao colo. Sentada numa cadeira, afastada do movimento provocado pelos vários braços que carregam lonas num ritmo cadenciado, é toda calma e cansaço. “Não estamos à espera há muito tempo. Só que quando chegámos tinham-se acabado as lonas. Uma meia hora depois já estava a chegar este camião. Parece que uma empresa conseguiu vir trazer”, conta ao DN, enquanto segue o marido com os olhos. É um dos voluntários que se ofereceu para ajudar a descarregar o camião acabado de chegar.

No Pavilhão Desportivo de Pousos, cruzam-se pessoas de todas as idades, com o desalento marcado no olhar – ainda que haja quem não deixe de sorrir. Em redor do pavilhão, de quando em vez, a rede de telefone decide aparecer, e permite troca de informação com familiares e amigos preocupados. Ou somente tentar obter informação que teima em não chegar.

Equipas da Câmara Municipal de Leiria (CML), voluntários e habitantes da região de Leiria e da Marinha Grande vão chegando e fazendo fila. O sistema está montado para facilitar a logística: primeiro, tiram uma senha, à entrada do campo multiusos. Depois, esperam sentados nas cadeiras da plateia e, quando ouvem a voz megafónica de Carla Cardoso a chamar pelo seu número, aproximam-se da mesa. Faz-se o registo, e volta-se à espera. Quando a voz da funcionária da câmara – “também estive no processo de vacinação por causa da minha voz!”, conta divertida ao DN – se faz ouvir de novo, o número respetivo desce a uma sala no rés-do-chão e recolhe os 50 metros quadrados de lona que a CML está a dispensar.

Carla Cardoso é quem coordena as chamadas das senhas para atribuição de lonas
Carla Cardoso é quem coordena as chamadas das senhas para atribuição de lonasReinaldo Rodrigues

É aqui que encontramos Inês, que espera pelos seus 50m2 de lona. Não para si, mas para os sogros. Ou a cunhada. “A nossa casa está bem – voaram umas telhas do telhado do prédio, mas não é grave –, a da minha sogra está destruída”, diz, com os olhos marejados de lágrimas. “E não temos informação nenhuma. Eu tive sorte de saber que aqui estavam a disponibilizar lonas”, conta. “Porque vivo na Marinha Grande e trabalho aqui. Vim avisar o meu patrão – não há comunicações a funcionar – que não vinha trabalhar. Temos de salvar as casas pelas quais lutámos tanto. Quando entrei na empresa, uma colega minha disse-me que ouviu na rádio que estavam a dar lonas no estádio e no pavilhão, e viemos aqui. Foi sorte”, diz.

Vir à empresa foi a etapa quase final “de um risco que decidimos correr”, continua. “Hoje já temos um fio de água, mas estivemos sem água, estamos sem luz, comunicações, gasóleo…não havia uma bomba com combustível e não havia supermercados. Na quarta-feira decidimos arriscar. Tinha autonomia para 45km no carro. Fomos no sentido de Alcobaça, e felizmente conseguimos atestar o depósito. Porque, felizmente, também, tínhamos dinheiro connosco – aprendemos com o apagão! – porque só aceitavam dinheiro”.

Inês Teixeira com o filho Tomás, ao colo
Leiria sem mãos a medir na reação aos estragos deixados pela depressão Kristin (veja as fotos)

Foram às compras de bens essenciais, porque não era certo quando abririam os supermercados – alguns abriram as portas ontem, mas com filas de horas. “Comprei bens essenciais para a família e os vizinhos do meu prédio. Tenho, neste momento, comida para 15 pessoas que deverá chegar até domingo”. Isto porque está também a tentar consumir ao máximo os alimentos que tinha congelados numa das arcas. A outra já deu por perdida.

Lonas são distribuídas às populações
Lonas são distribuídas às populaçõesReinaldo Rodrigues

Juntámos quatro casas numa para partilhar a comida”, continua, enquanto o marido mantém o ritmo com os colegas, também voluntários, e descarrega as lonas que vão sendo abertas e cortadas, de forma rápida e decidida por outras equipas cheias de funcionários e voluntários – tantos deles também a precisar de ajuda.

Uma das maiores preocupações, atualmente, é o facto de o tempo parecer não querer dar tréguas. Os ventos e as chuvas mantêm-se ao longo de toda a manhã, intensificam-se perto da hora do almoço. Os funcionários da CML repetem o apelo àqueles com quem se cruzam: “Não tentem reparar os telhados. Está a chover, está tudo escorregadio, é muito perigoso”, pedem. “Compreendemos que queiram arranjar o que está estragado, mas tenham cuidado”.

Habitantes tentam colmatar os estragos causados pela tempestade Kristin
Habitantes tentam colmatar os estragos causados pela tempestade KristinReinaldo Rodrigues

“É uma destruição muito grande”, continua Inês. “Houve uma altura em que pensei que íamos morrer”, diz, enquanto respira fundo e deixa as lágrimas correrem livres.

Inês acredita que as autoridades estão a fazer o que podem – “vimos Proteção Civil e Bombeiros, mas não chega para tudo…e há quem esteja pior que nós. Não vamos pedir ajuda, nem comida. Connosco foi só o telhado. Há pessoas que não têm paredes”, suspira enquanto esboça um sorriso.

O seu nome é, finalmente, chamado. Inês pega na mão de Tomás – “tem sido muito paciente, o que mais lhe custa é estar sem internet”, brinca – e segue o marido de regresso à Marinha Grande.

“Eu sei que esta zona de Leiria está muito afetada. Mas não se esqueçam de nós. Temos tudo, tudo destruído”, lamenta enquanto se despede.

Lá fora, o vento voltou a soprar forte a chuva continua a cair em aguaceiros fortes e ritmados. A rede de telefone voltou a falhar.

Estradas continuam com muitos obstáculos
Estradas continuam com muitos obstáculosReinaldo Rodrigues
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