Portugal está a contribuir com a Rede Europeia de Institutos Forenses (ENFSI na sigla em inglês) na recolha de informação e análise para caracterizar um fenómeno que ganha mais força na atualidade em vários países: o fabrico de armas com recurso a impressoras 3D. O objetivo será ajudar a “criar protocolos para os laboratórios de polícia, específicos para analisar, do ponto de vista forense, tudo o que possa ser feito em laboratório para identificar e fazer o rastreamento deste tipo de armas”, explica ao DN o presidente do Observatório de Segurança Interna, Luís Fernandes.Também professor do Instituto Universitário de Ciências da Saúde da CESPU, em Gandra, é neste âmbito que Luís Fernandes está a conduzir a investigação sobre o tema, com uma “recolha de informação que passa primeiro por caracterizar o problema” para, na sequência, avançar para uma segunda fase. “Vamos pegar no material e identificar como ajudar a rede europeia de laboratórios a estabelecer protocolo de identificação balística”, destaca o docente.‘Trend’, mas não novidadeEste trabalho nasce de uma ideia de Maria Silva, mestranda em Ciências Forenses naquela instituição. “O nosso objetivo seria ter materiais para desenvolver estes protocolos que permitirão, não só a Portugal, como a toda a rede europeia, fazer uma análise e conseguir rastrear (as armas). Prevenir é difícil, temos que conseguir lidar com este fenómeno e responder da melhor forma possível”, explica a estudante ao DN.Segundo Luís Fernandes, a lógica será “aplicar o que já fazemos para armas normais àquilo que será a nova trend que está a surgir. Temos causística para isso em Portugal suficiente? Não ainda, mas se tivermos, vamos estar preparados para ela”..As armas 3D têm origem ainda nos anos de 1970, nos Estados Unidos, quando houve uma “tendência entre grupos de querer sair fora da rede, viver off-grid, não ter qualquer conexão com o Estado, o Estado é hipervigilante, teorias da conspiração”, destaca Luís Fernandes. É neste contexto que “surgem manuais de fabrico artesanal de armamento com metais, com peças que se encontram numa loja de ferragens”.Em 2012, os EUA começam a registar formalmente os achados de ghost guns, “armas fantasmas” pela ausência dos números de fabrico obrigatório nas componentes. “Pegam nessas ideias, nas teorias criadas nos anos 70, na criação desta desinformação das redes sociais. As pessoas vão procurar e encontrar os tais livros dos anos 70. Passando essa tecnologia rudimentar, mais metalúrgica, para 2012, 2018, 2023, e entramos na época de impressão 3D, coincide com a baixa de custo do equipamento. E isto leva a que muita gente tenha uma ideia: vamos fazer armas”.Num estudo recente sobre a América Latina, os investigadores concluem que o fenómeno passa a ser um ecossistema de produção ilícito, com Brasil, México, Chile e Equador a integrar de modo crescente estas armas no narcotráfico. “O que vimos do outro lado do Atlântico vem para o lado de cá com outra perspetiva, que advém de um fenómeno social. Movimentos de extrema-direita têm vindo a crescer na Europa”, analisa Luís Fernandes.Em meados de 2024, um modelo em concreto começa a ser identificado e associado a grupos de extrema-direita na Suécia, Alemanha, Bélgica, Finlândia e França. “E o que é preciso para imprimir em 3D? Um desenho que tenha as medidas e as capacidades para fechar o circuito. E isso é conhecido, fazem-se downloads, criam-se ficheiros”, completa o investigador..Autoridades identificam novos suspeitos no caso do grupo neonazi MAL.Em Portugal, as primeiras armas 3D foram apreendidas numa operação da Polícia Judiciária contra a milícia armada de extrema-direita Movimento Armilar Lusitano no ano passado. No despacho do Ministério Público, revelado na quarta-feira (dia 6) pela Lusa, fala-se da realização de perícia de grande complexidade, “uma vez que se trata de apreensões sem histórico de antecedentes em território nacional”.O trabalho agora em desenvolvimento vai permitir “rastrear as marcas que são deixadas pela impressora, as do percutor, seja ele mais artesanal ou menos artesanal. O percutor é um pequeno pino metálico que embate na base e faz com que haja o disparo. Todas essas marcas características para a balística identificativa do ponto de vista forense e laboratorial terá que existir (para as 3D). É possível identificar quase até ao ponto de origem”, reforça o docente. “Há investigação académica já a ser transposta para protocolos, não em Portugal, mas estamos a colaborar com esse grupo, para garantir que conseguimos replicar aquilo que é feito noutro país”, completa Luís Fernandes..Licenças de armas de fogo para defesa pessoal caíram 95% em dez anos