Carlos Costa voltou a casa para salvar mais alguns bens e encontrou-a ainda mais destruída pelo deslizamento de terras.
Carlos Costa voltou a casa para salvar mais alguns bens e encontrou-a ainda mais destruída pelo deslizamento de terras.Foto: Reinaldo Rodrigues

População compreende, mas não gosta. O adiamento da democracia em Arruda dos Vinhos e na Golegã

Nestes dois municípios, como em Alcácer do Sal, as eleições foram adiadas para o próximo domingo. Habitantes que concordam com a medida acham que esta devia ter sido concertada com o resto do país.
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Para lá chegar há que ignorar o primeiro sinal de trânsito proibido e estar muito atento ao segundo: o caminho que servia o povoado de Estrada de Lapão, em Arruda dos Vinhos, foi revolvido como mar encapelado. Imediatamente antes, à esquerda, as brechas na subida para o casario são um desafio para a carrinha de caixa aberta na qual Carlos Costa e o seu cunhado Sérgio acarretam alguns bens.

As duas casas da família e os armazéns ao lado estão a cair aos pedaços, condenadas pelo deslizamento das terras, e o cenário agrava-se de dia para dia. A família já tinha saído, tal como os habitantes de uma dezena de casas nas encostas em redor. Dois carros antigos e o trator que era do avô já não conseguiram ser retirados a tempo. Foi como se um sismo de grande intensidade tivesse sacudido a serra. 

Sem se deter muito, porque há que salvar o possível, Carlos comenta que a avó ainda “está a cair em si” depois de a casa e o terreno da sua vida se perderem. Também ele, que ali tinha um complemento ao seu trabalho e que sonhava ampliar a vinha – entretanto destruída – e dedicar-se por inteiro à terra, viu o seu objetivo terra abaixo. “Tenho de mudar de plano”, resigna-se enquanto deita um olhar fugaz em redor.  

A Estrada do Lapão é uma das 22 vias fechadas no município, além de outras dez estradas com trânsito condicionado, segundo a informação disponibilizada pela proteção civil local. Neste domingo, os pouco mais de 12 mil eleitores de Arruda dos Vinhos não vão votar. Com 42 desalojados de Lapão, mas também de outros povoados, todos resultantes de deslizamento de terras originadas pela saturação dos solos, e as dificuldades para alguns habitantes de se deslocarem num concelho “cada vez mais isolado”, como disse o autarca Carlos Alves à Lusa, o dia não é para votar.  

A pouco mais de uma légua de Lapão, no centro de Arruda, no Bar Rezas, frequentado pela juventude local, o mau tempo é tema à mesa. Sobre o adiamento das eleições, há quase unanimidade nas duas mesas ocupadas na esplanada. José Neto, funcionário do estabelecimento, vem de uma localidade da freguesia de Santiago dos Velhos e compreende bem a dificuldade que é para as pessoas se deslocarem no concelho, que há muitos caminhos intransitáveis. 

Inês Tenreiro, que vive na sede do concelho, é a voz discordante: “Há sempre maneira de ir votar.” Na mesa ao lado, outra Inês, Coelho de apelido, está de acordo com o adiamento e garante que irá votar no próximo domingo. Funcionários e clientes da outra mesa também garantem que irão cumprir o dever de votar, apesar de saberem que a eleição já está decidida. Mas será que no dia 15 as condições já estão reunidas? “Acho que não vai mudar grande coisa”, admite Rogério Reis, empregado do bar.  

Delfim Marques, um dos proprietários de O Fuso.
Delfim Marques, um dos proprietários de O Fuso.Reinaldo Rodrigues

Uns metros abaixo, do outro lado da rua, Delfim Marques, autointitulado “o empregado mais velho” do restaurante O Fuso, mas na realidade um dos proprietários, fica em silêncio ao ser questionado pelo adiamento eleitoral. Revela, por fim, estar “de acordo” com a decisão tomada pelo presidente da Câmara, porque “não há condições”. Um grupo de amigos que costuma monopolizar a mesa de entrada daquele estabelecimento, entretém-se a petiscar. 

Da esq. para a dir.: Jorge Serrano, Casimiro Agostinho, Eduardo Ferreira e José Sales,
Da esq. para a dir.: Jorge Serrano, Casimiro Agostinho, Eduardo Ferreira e José Sales,Reinaldo Rodrigues

Eduardo Ferreira, Casimiro Agostinho, José Sales e Jorge Serrano mantêm animada discussão, em jeito de troça. Mais a sério, todos concordam com o adiamento do ato eleitoral, embora a Casimiro, que diz ter votado “no almirante”, lhe seja indiferente, porque à segunda volta estará ausente. “Acho que o adiamento devia ser a nível nacional, nem que fosse por respeito àqueles que estão a sofrer”, crê Eduardo, no que é secundado pelos restantes. Jorge, que faz questão de distinguir a opinião daquele grupo de arrudenses da opinião da população, lá diz que a Arruda dos Vinhos “nem é das terras que ficaram pior”, ao que José contrapõe que os eleitores dos casais e das aldeias têm “dificuldades em dirigir-se às mesas de voto”. De volta ao tom pícaro, este último lamenta o facto de as tempestades “não terem vindo mais cedo para derrubar todos os cartazes”. 

Os depósitos da empresa Riazor.
Os depósitos da empresa Riazor.Reinaldo Rodrigues

"Está tudo fidalgo"

A caminho da Golegã, no distrito de Santarém, os efeitos da depressão Kristin estão à vista. Em Riachos, os depósitos da fábrica de azeite e óleos Riazor ficaram amolgados como uma lata de refrigerante espalmada. Cedros e sobreiros de grande porte caíram pela raiz junto da estrada com lençóis de água que desemboca na chamada capital do cavalo. Em comparação com Lisboa, onde a depressão Marta não dava tréguas no dia de reflexão, viam-se quase mais arco-íris no céu do que pessoas nas ruas do centro da Golegã. 

No supermercado, Olga Medinas não se mostra convencida de que a subida das águas do Tejo seja motivo para o município ser uma exceção ao lado de Alcácer do Sal e de Arruda dos Vinhos. “Toda a vida houve água no campo. Agora está tudo fidalgo”, atira a idosa. “Não há aqui nada que impeça as eleições”, sentencia. Joana Lino, gerente do negócio, junta-se à conversa para chamar a atenção sobre os eleitores goleganenses que ficariam impedidos do direito de votar por estarem recenseados na vizinha Chamusca e na freguesia da Azinhaga, e cujas estradas de acesso estão cortadas. 

Nuno Nalha.
Nuno Nalha.Reinaldo Rodrigues

Para Nuno Nalha, proprietário da pastelaria Flor da vila, a poucos metros da casa-estúdio José Relvas, justifica-se a medida para os 4700 eleitores devido às duas freguesias com menos votantes, mas “afetadas” pelo nível das águas. “Ou é para todos ou não é para ninguém.” E, pela mesma ordem de razão, afirma: “A meu ver, os municípios deviam ter juntado todos e adiado as eleições por 15 dias.”  

A lei eleitoral do Presidente da República atribui a cada presidente da Câmara a prerrogativa de adiar a eleição por uma semana na totalidade do município ou apenas em determinadas freguesias, assembleias ou secções de votos. Ou seja, em teoria, a totalidade dos 308 autarcas poderia agir em conjunto e adiar as eleições. No entanto, a legislação impede outra data que não a de sete dias depois da data original.  

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Ainda assim, Nuno Nalha garante que, tal como sempre votou desde os 18 anos, assim irá fazê-lo.  

Golegã.
Golegã.Reinaldo Rodrigues

Na esplanada do Café Central, Esmeralda Rodrigues acredita que a abstenção no dia 15 vai ser elevada, uma vez que o vencedor estará atribuído. Compreende o adiamento, pelo menos na Azinhaga, mas na sua opinião os resultados gerais deviam ser apenas contados no próximo domingo. Mais do que para o efeito, Esmeralda aponta para a causa: “Constrói-se em sítios propícios a cheias, perto de um rio”, e recorda que os agricultores “abençoam as cheias”

Esmeralda Rodrigues.
Esmeralda Rodrigues.Reinaldo Rodrigues

Já nos anos 70 do século passado o arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles dizia, cristalino: "A cidade e o campo são construções do homem. A sua construção ou é sábia e positiva e em benefício da comunidade, ou profundamente negativa e apenas em benefício de alguns." 

Campo de jogos do Pombalinho.
Campo de jogos do Pombalinho.Reinaldo Rodrigues

Em Pombalinho, a outra freguesia mais tocada pela subida do nível do Tejo, o pior parecia já ter passado, apesar do campo de jogos permanecer submerso. Durante a semana, a localidade tinha ficado isolada. Os habitantes protegeram-se como sabem e podem. Não chegaram sacos de areia, como se chegou a pedir, pelo que se recorreu ao que havia, como espuma de poliuretano a vedar as portas. No Café O Pátio, além dessa solução, os frigoríficos e a máquina do tabaco foram elevados para cima de uma mesa e de cadeiras. “Foram precisos quatro homens”, diz Ângela Rodrigues, a proprietária. Ainda assim, desdramatiza o assunto. “Acho que havia condições para votarem. A água não entrou em casa de ninguém.”  

Ângela Rodrigues.
Ângela Rodrigues.Reinaldo Rodrigues

O local da votação é na junta de freguesia, a uns 50 metros. A partir do café, a estrada é uma mistura de lama, de plásticos usados na rega, e de laranjas atiradas pelo vento. Ângela vai votar na vizinha freguesia de Vale de Figueira, a sua terra. “Daqui a uma semana, se fosse o caso, não iria votar.” 

António Leal e Reinaldo R. Garcia.
António Leal e Reinaldo R. Garcia.Reinaldo Rodrigues

António Leal, acompanhado da mulher Rosélia, não põe a hipótese de se juntar aos abstencionistas. “É o meu dever [votar]. Não é por A ou B ganhar. Tenho de lá ir pôr a minha ideia. E nunca engoli sapos”, garante este homem que se declara comunista, numa referência à famosa indicação de Álvaro Cunhal para os seus militantes votarem em Mário Soares, na segunda volta das presidenciais, em 1986. Este reformado da Setenave e da Lisnave é acompanhado por Rosélia e pelo amigo Reinaldo Rodrigues Garcia quando diz concordar com o adiamento local do ato eleitoral.

“Está tudo a pensar em 1979”, diz este último sobre as cheias daquele ano. “Ninguém dormia”, afirma Rosélia sobre as últimas noites. Reinaldo não vai votar, mas defende que os resultados gerais só deviam ser conhecidos no dia 15. "É melhor comer feijão com couve do que ir votar", conclui este agricultor que diz só ter votado numa ocasião.   

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