Profissionais responderam à chamada de quem precisava de cuidados, mas também eles precisam de apoio.
Profissionais responderam à chamada de quem precisava de cuidados, mas também eles precisam de apoio.

ULS de Leiria está a dar apoio aos profissionais, mas “o que nos preocupa é a necessidade de apoio que vai existir daqui a três meses”

Leiria foi dizimada pela depressão Kristin e a Unidade Local de Saúde criou de imediato um gabinete de crise onde incluiu os serviços de psicologia e social. Porquê? Porque a esmagadora maioria dos profissionais também era vítima da tempestade. Duas psicólogas especialistas em intervenção de crise têm, desde há uma semana e meia, a tarefa de ouvir e de apoiar os colegas que as procuram. Mas a grande preocupação é já com o futuro.
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“É difícil encontrar-se uma pessoa na cidade ou dentro do hospital que não tenha sido afetada pela tempestade. E a ULS percebeu rapidamente que era preciso cuidar dos nossos para que estes cuidassem dos outros”. Quem o diz é Joana Correia, diretora do Serviço de Psicologia da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria (ULSRL), que acrescenta: “É praticamente impossível alguém passar por uma situação desta natureza de forma inócua. Seja porque foi vivida na primeira pessoa de forma mais difícil, porque à sua volta está tudo destruído, porque há uma pessoa amiga que perdeu o telhado de casa ou porque vê as cheias do outro lado da estrada e não sabe se a própria casa vai ser atingida. Tudo isto faz com que seja inevitável existir aqui alguma sensação de ausência de controlo e quando há fatores incontroláveis à mão humana, há também uma fragilidade adicional à nossa saúde mental, por mais redes de apoio ou sistemas de sobrevivência que existam”.

E uma das preocupações da ULSRL, segundo Joana Correia, foi precisamente garantir que, após a passagem da depressão Kristin, no dia 28 de janeiro, os seus profissionais teriam o apoio psicológico que necessitassem. Conforme explica, “o Conselho de Administração da ULS criou um Gabinete de Crise e teve a preocupação de mobilizar as equipas dos serviços de psicologia e social para darem a sua opinião e assumirem responsabilidades no tipo de resposta e procedimentos a acionar. Numa fase inicial, a preocupação foi reforçar a resposta adicional às situações mais complexas que entravam no serviço de urgência hospitalar - portanto, dar resposta direta à população. Numa segunda fase, foi criar um sistema de apoio aos profissionais, uma espécie de primeiros socorros psicológicos para a equipa da ULS, porque sabemos que é preciso preparar os nossos para que estes possam, de alguma forma, dar resposta o mais eficaz possível à população. Se não começássemos logo a cuidar dos nossos, seria mais difícil haver uma boa prestação por parte destes”.

Ao DN, Joana Correia destaca que na ULS da Região de Leiria, “há três psicólogas com formação em intervenção de crise feita junto do INEM e duas ficaram responsáveis pela resposta aos profissionais, que tem sido dada de forma gradual e vai ficar ativa durante as próximas semanas e até haver necessidade”. O objetivo da equipa “é olhar para a experiência individual de cada pessoa e perceber se esta está integrada de forma normativa na sua vida”. Ou seja, “estamos na fase em que basicamente estamos a dizer às pessoas que é normal e até expectável que esteja mais hiper-vigilante, ansioso ou até com taquicardia, porque passou por uma situação aguda de stress e o seu corpo está mais ativado, à espera do que pode acontecer a seguir, para se ajustar a uma realidade que está em continuidade. A tempestade não aconteceu e parou, tem sido uma tempestade contínua e a forma de reagir ou de lidar com a experiência também vai mudando”.

ULSRL tem mais de 2400 profissionais.
ULSRL tem mais de 2400 profissionais.

A dualidade de ser profissional de Saúde e cidadão vítima da tempestade


Mas o que já é visível é que, após esta semana e meia, há um fator comum nos pedidos de apoio por parte dos profissionais, que já são alguns, é o sofrimento pela dualidade que vivem nesta situação : “São profissionais de Saúde, mas também cidadãos com danos na sua vida”. Ou seja, “tenho a minha vida caótica como qualquer outra pessoa, mas sou profissional de Saúde e, nesta altura, não posso abdicar de ser esse profissional para ser só cidadão”. E é o que têm feito, “temos cirurgiões a operar que ficaram com casas destruídas. Tivemos ortopedistas a reforçar as urgências, porque recebemos uma grande números de pessoas com traumas, que também tiveram danos que não puseram em causa o facto de serem profissionais de Saúde. Vieram trabalhar porque era isso que queriam fazer. Mas é importante explicar às pessoas que o sentimento de dualidade é normal, expectável e está ajustado à realidade”.

No fundo, “o que temos vindo a fazer é quase dar uma validação externa, porque se a pessoa não consegue fazer a normalização desta experiência vai achar que está a adoecer e se for este o caminho tudo será muito mais difícil”, acrescentando: "É importante explicar que o facto de “acordar todos os dias às três da manhã à espera que haja vento não é um problema. É só o cérebro a dizer: 'Mantém-te em segurança'”.

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O grande sinal de alerta, sublinha, seria não ter esta reação ou não estar a lidar com a situação de acordo com a dimensão que teve, havendo para já também uma grande preocupação em relação ao futuro, porque, como sublinha Joana Correia, “os problemas de saúde mental que vão decorrer desta situação não são avaliados nem agora, nem daqui a quatro semanas, mas sim daqui a três meses. Agora, estamos perante reações expectáveis, daqui a três meses teremos as reações tardias ao stress. E o que nos preocupa é o volume de necessidade de apoio que vai existir nessa altura, quando o que é normativo se possa transformar em sintomatológico e patológico”.

Esta é a verdadeira preocupação e à qual, enquanto profissionais de Saúde, todos têm de estar atentos. Mas Joana Correia, diretora do Serviço de Psicologia da ULS de Leiria, diz ser “uma pessoa otimista”, até porque vê que as pessoas, profissionais de saúde ou apenas cidadãos, “estão a arregaçar as mangas, estão a ajudar quem precisa de um telhado novo ou o vizinho que precisa de comida”.

Por isso, se há mensagem ou aprendizagem que se pode retirar de uma experiência como a que viveu Leiria e os concelhos adjacentes na última semana de janeiro, com a passagem da depressão Kristin é que “a resiliência é uma das características que acompanha o ser humano, que no meio da destruição total é empático e voluntarioso”.

Há unidades de saúde, como a de Leiria, que tiveram de suspender a atividade programada, consultas e cirurgias, para se dedicarem às situações urgentes. Estiveram dias a funcionar à custa de geradores. Há profissionais que tiveram de “saltar árvores” para chegarem aos locais de trabalho, porque havia que dar assistência clínica ou salvar “medicamentos e vacinas” da falta de eletricidade. Nos primeiros dias a seguir à tempestade, só a urgência de Leiria recebeu mais de 500 episódios de trauma, provocados pelos trabalhos de rescaldo. No período da tempestade, só na zona foram contabilizadas quatro vítimas mortais, embora este número já tenha subido para 12, devido a quedas durante a reconstrução de telhados.

Como nos foi dito pelo vice-presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Centro, Rafael Henriques, “nos primeiros dias estivemos em serviços mínimos, havia profissionais que ficaram com as casas destruídas, sem o carro ou tiveram que ficar com os filhos”, mas “na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, as unidades, mesmo com telhados, janelas ou portas partidas, começaram a sua atividade normal”.

Segundo dados recentes, a ULSRL tem 2.463 profissionais, 435 médicos, 980 enfermeiros, 172 técnicos de meios complementares de diagnóstico, 209 assistentes técnicos, 602 assistentes operacionais e 166 outros profissionais. Para todos , a grande expectativa agora é: "Quando vai voltar tudo ao normal?”.

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Seis dias depois, hospital e centros de saúde de Leiria voltam à atividade normal
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