Ao fim de 48 horas da passagem da depressão Kristin pela região Centro, o Hospital de Santo André, em Leiria, que tem estado a funcionar com o apoio de geradores, pela falta de eletricidade, depara-se com outro problema. O que fazer aos óbitos ocorridos dentro do hospital? – mortes que não têm a ver com o temporal, mas de doentes já internados na unidade. Ao DN fontes da Saúde garantem que “a morgue dentro da unidade é pequena e a sua capacidade está esgotada. A ULS já pediu ajuda à Direção Executiva para resolver o problema”.Um problema que tem vindo a avolumar, segundo as nossas fontes, porque "não tem sido fácil informar as famílias da morte do doente e que venham levantar o corpo, que acaba por ficar na morgue. Ou porque quando se consegue avisar a família, por vezes, esta não tem forma de ir à morgue para resolver a situação", dizem. "Ou porque têm tudo destruído e ficaram sem carro ou porque ainda não conseguem chegar à cidade", relataram ao DN, sublinhando que “a morgue está a encher há vários dias”. O DN confrontou a administração da ULSRL com estas questões, que nega que “a capacidade da morgue esteja esgotada”, garantindo que está, “desde a primeira hora do evento meteorológico associado à depressão Kristin, a gerir a situação dos óbitos ocorridos no Hospital de Leiria em estreita articulação com a Direção Executiva do SNS e com o apoio do Instituto Nacional de Medicina Legal”. Na resposta enviada ao DN, a ULSRL diz mesmo que “a capacidade da morgue do Hospital de Leiria não se encontra esgotada, estando a situação a ser acompanhada e gerida com todo o cuidado, rigor e atenção, de acordo com os procedimentos definidos para este tipo de ocorrências”.Sobre a razão para o acumular de óbitos na morgue do hospital, a ULSRL explica que “tem desenvolvido todos os esforços para garantir a comunicação atempada, tendo em conta as limitações pontuais de rede e comunicações verificadas na região na sequência do evento meteorológico”, assumindo que “sempre que as famílias são informadas e não é possível proceder de imediato ao levantamento do corpo, essa situação decorre de constrangimentos externos ao hospital, relacionados com o contexto vivido na cidade.”Para fontes do setor da região, a situação “é uma preocupação desde o primeiro momento, mas não é só a questão da capacidade da morgue estar esgotada, é também uma preocupação para que não se torne numa situação social grave. As famílias que não têm condições para ir levantar o corpo do doente, se calhar deveriam ser apoiados”, argumentam ao DN. No entanto, a ULSRL reforça ao DN que “a situação é permanentemente monitorizada e estão a ser acionados todos os meios necessários para assegurar uma resposta adequada, em articulação com as entidades competentes, garantindo o respeito pelos doentes falecidos e pelas suas famílias.”A vice-presidente da Fnam comenta ao DN que “é mais uma situação que surge da depressão Kristin, mas que reflete o estado das infraestruturas na Saúde”. Joana Bordalo e Sá admite que se trata de “uma situação muito sensível”, criticando “a forma insensível como o governo de Luís Montenegro tem estado a passar a mensagem à população de que está a fazer alguma coisa. Não é uma mensagem empática nem solidária para com as vítimas, familiares, utentes e até profissionais da Saúde que têm estado a assegurar todas as situações”, afirmou ao DN.A dirigente sindical, que já ontem tinha criticado a ausência da ministra da Saúde, ausente em Cabo Verde, volta a fazê-lo, nesta sexta-feira, dia 30, ao DN, dizendo que “é absolutamente inaceitável não ter havido uma palavra da ministra sobre a situação e até a sua ausência numa situação destas”.Recorde-se que o ministro da Presidência, Leitão Amaro, esteve nesta sexta-feira em Leiria a visitar zonas atingidas pela depressão Kristin, e em particular a Unidade Local de Saúde da Região de Leiria, assumindo que "a dimensão dos prejuízos é brutal, como creio que todos podem observar, em todas as dimensões, desde as infraestruturas públicas ao património natural". Com o diretor-executivo ao lado, Leitão Amaro aproveitou para elogiar a resposta dada pelo SNS.