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Marc Ballabriga, o padrasto, e Marine Rousseau, a mãe das crianças abandonadas em Alcácer do Sal, no momento em que foram conduzidos pela GNR ao Tribunal de Setúbal. Foto: Rui Minderico / Lusa

“Penso neles a cada segundo.” Pai de crianças francesas abandonadas em Alcácer quebra o silêncio

Com o casal em prisão preventiva em Portugal, o processo de extradição para França deverá ser acelerado nos próximos dias, ao abrigo de um Mandado de Detenção Europeu que pende sobre os suspeitos.
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O pai das duas crianças francesas encontradas abandonadas na passada semana numa zona florestal em Alcácer do Sal quebrou o silêncio. O progenitor, residente em Colmar (Alsácia), confessou — numa entrevista concedida sob anonimato ao canal regional francês Ici Alsace TV e citado pela Franceinfoa dor que tem vivido desde o desaparecimento dos filhos e manifestou a esperança de os ter de volta muito em breve.

"Penso neles a cada segundo", afirmou o pai aos microfones da estação francesa, revelando que mantém o telemóvel permanentemente ligado, de dia e de noite, à espera de um contacto das autoridades francesas ou portuguesas.

Apesar da angústia, o homem garantiu que confia plenamente no desenrolar dos trâmites judiciais. "Deixo a Justiça fazer o seu trabalho", sublinhou, acrescentando crer que o repatriamento dos menores será agora "uma questão de dias". O cidadão francês apelou ainda à moderação e à prudência nas reações públicas a um caso que gerou forte comoção social em ambos os países.

Disputa judicial na origem do desaparecimento

As declarações recolhidas pela FranceInfo ajudam também a compreender o complexo contexto familiar que antecedeu o crime. Segundo o canal francês, o pai tinha os seus direitos de visita fortemente limitados e supervisionados por decisão de um juiz do Tribunal de Família de Colmar — uma medida judicial da qual já tinha recorrido.

A situação precipitou-se no passado dia 11 de maio, data em que a mãe terá desaparecido com as crianças, cortando qualquer contacto. Perante o sumiço dos filhos, o pai apresentou de imediato uma queixa por rapto internacional junto das autoridades francesas, desencadeando as primeiras investigações em França antes mesmo de a viatura da família ser localizada em território português.

O testemunho do pai surge dias após o desfecho dramático de uma caça ao homem que mobilizou as forças de segurança portuguesas, amplamente acompanhada pela imprensa nacional, nomeadamente pelo Diário de Notícias.

O percurso do caso em Portugal: do abandono à prisão em Fátima

O drama começou a desenhar-se a 20 de maio, quando os dois irmãos, de três e cinco anos, foram encontrados sozinhos e desorientados na berma da Estrada Nacional 253 (EN253), numa área de pinhal entre a Comporta e Alcácer do Sal. Acabaram por ser resgatados por um automobilista de passagem — um padeiro local —, a quem as crianças disseram que os pais as tinham deixado ali para "fazer um jogo".

Cada um dos rapazes trazia consigo apenas uma laranja, uma pêra e uma garrafa de água, sem sinais visíveis de violência física — indícios que levam a crer que a mãe lhes terá deixado estes mantimentos para garantir a sua subsistência imediata.

Menos de 24 horas depois do abandono, a mãe, Marine Rousseau, de 41 anos (psicomotricista e sexóloga), e o padrasto, Marc Ballabriga, de 55 anos, foram localizados e detidos pela GNR num estabelecimento comercial em Fátima. O alerta crucial foi dado por uma cliente de 80 anos, que, face à cobertura mediática do caso, terá desconfiou do comportamento invulgar do casal e da viatura de matrícula francesa em que seguiam, contactando as forças de segurança. De acordo com as autoridades, os suspeitos demonstraram uma frieza invulgar e desapego emocional em relação ao destino dos menores no momento da detenção.

Detalhes entretanto apurados junto da imprensa francesa revelam que Marc Ballabriga é um antigo gendarme (a força francesa equivalente à GNR) com um vasto cadastro criminal. O homem é referenciado pelas autoridades gaulesas em mais de 10 incidentes, incluindo violência doméstica contra uma anterior companheira, ameaças e mensagens maliciosas repetidas.

Cânticos e gritos de "Armagedão" à porta do tribunal

Durante a audiência de apresentação ao Tribunal de Setúbal, o casal chegou a protagonizar episódios surreais. Ao chegar, o padrasto gritou por duas vezes "Amo-vos" aos jornalistas, enquanto a mãe entoava uma melodia semelhante a um cântico eclesiástico. À saída do tribunal, Marc Ballabriga gritou de forma descontrolada a palavra "Armagedão" (Armageddon).

A atitude do arguido torna‑se mais compreensível à luz das informações divulgadas pelo diário francês Le Parisien. Segundo este jornal, Marc Ballabriga acreditava que o mundo iria acabar a 22 de maio e que apenas as crianças com menos de sete anos sobreviveriam. O diário descreve-o como alguém com ideias místicas e apocalípticas, marcado por referências esotéricas, “energias” e desconfiança das instituições — traços que surgem tanto nas suas publicações online como no contacto com pessoas próximas.

O diário francês recorda ainda que Ballabriga é autor de vários livros autopublicados, onde desenvolve ideias de natureza conspiratória e espiritualista, misturando conceitos de psicologia, misticismo e profecias de destruição global. Estas obras, ignoradas pelo circuito editorial tradicional, são apontadas como reflexo de um pensamento fragmentado e de uma crescente rutura com a realidade, contribuindo para o perfil inquietante que as autoridades francesas já tinham identificado antes do desaparecimento das crianças.

Segundo Le Parisien, a crença apocalíptica atribuída a Marc Ballabriga poderá ter estado na origem do abandono dos dois menores a 20 de maio. No quadro delirante descrito, deixar os filhos num local isolado e afastá-los dos adultos "condenados", antes da data do alegado “fim apocalíptico” surgiria como uma forma de os “proteger” do colapso iminente que acreditava estar prestes a ocorrer.

Prisão preventiva e extradição à vista

Todo este cenário de apocalipse não passa, no entanto, de conjeturas para tentar entender o quadro mental em que o casal se encontraria no momento do abandono das crianças.

No sábado, 23 de maio, o Tribunal de Setúbal acabou por determinar a aplicação da medida de coação mais grave, a prisão preventiva, para ambos os detidos pelo crime de exposição ou abandono. Uma vez que contra o casal pende um Mandado de Detenção Europeu (MDE) emitido pela Justiça francesa, o processo de extradição para França deverá ser formalizado nos próximos dias, onde também deverão responder pelo crime de rapto internacional.

Neste momento, as crianças encontram-se sob a proteção do Estado português, acolhidas provisoriamente por uma família de acolhimento e a receber apoio psicológico, enquanto decorrem as distribuídas diligências consulares para viabilizar o seu regresso seguro a França e a consequente entrega ao pai.

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Perigo de fuga e perturbação da ordem pública. Casal francês que abandonou crianças fica em prisão preventiva
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