Os projetos de lei apresentados por PSD, Chega e CDS sobre identidade de género foram aprovados na generalidade em março.
Os projetos de lei apresentados por PSD, Chega e CDS sobre identidade de género foram aprovados na generalidade em março.Foto: Leonardo Negrão

ONU pede retirada de projetos sobre identidade de género. Chega recusa e CDS ataca "inaceitável ingerência"

Alto-comissário para os Direitos Humanos alerta para riscos de violação de compromissos internacionais, mas André Ventura garante que não recua. PSD em silêncio, ao contrário do parceiro de coligação.
Publicado a
Atualizado a

O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos pediu ao Parlamento português que retire ou reveja os projetos de lei apresentados por PSD, Chega e CDS sobre identidade de género, por considerar que as alterações propostas podem entrar em conflito com compromissos internacionais assumidos por Portugal.

A posição de Volker Türk consta de uma carta enviada ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, revelada esta quarta-feira, 26 de agosto, pelo jornal Público.

Caso os partidos não retirem as iniciativas, Türk defende que sejam revistas através de consultas "transparentes e inclusivas", de forma a garantir o respeito pelas normas internacionais de direitos humanos. O Chega já rejeitou o apelo e garantiu que não vai retirar o seu projeto.

Recorde-se que os três diplomas foram aprovados na generalidade em março e encontram-se agora em discussão na especialidade. Entre as alterações está a introdução de validação médica no processo de mudança da menção do sexo e do nome próprio no registo civil.

Alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk.
Alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk.FOTO: EPA/SALVATORE DI NOLFI

Na análise enviada ao Parlamento, o gabinete do alto-comissário alerta que a exigência de certificação médica pode voltar a "patologizar a identidade de género" e afetar direitos como a privacidade, a autonomia e a autodeterminação das pessoas trans.

A ONU defende que o reconhecimento legal da identidade de género deve assentar na autodeterminação, através de um procedimento administrativo simples.

A intervenção surge depois de Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda, e Catarina Martins, eruodeputada do partido, terem levado o caso às Nações Unidas, alertando para uma eventual reversão da atual legislação portuguesa.

Ventura rejeita apelo

Pouco depois de conhecida a posição da ONU, André Ventura anunciou que o Chega não retirará o projeto apresentado pelo partido.

"Permitir a uma criança mudar de sexo é que não é aceitável nem justificável. Não vamos retirar a iniciativa!", escreveu o líder do Chega na rede social X, antigo Twiter, classificando a proposta do partido como "absolutamente razoável".

André Ventura, presidente do Chega.
André Ventura, presidente do Chega.Foto: Reinaldo Rodrigues.

No caso específico do diploma do Chega, o gabinete de Volker Türk contesta também a utilização da expressão "transtorno de identidade de género", por considerar que a recuperação deste tipo de terminologia na legislação portuguesa pode contribuir para a estigmatização das pessoas trans.

A proposta do Chega pretende revogar a atual legislação e alterar as regras para a mudança de nome e género no registo civil, além de impedir tratamentos médicos relacionados com disforia de género em menores de 18 anos. O partido enquadra essas alterações naquilo que define como proteção de crianças e jovens.

A atual lei portuguesa, aprovada em 2018, estabelece o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais.

Núncio rejeita "interferência injustificável" e Hugo Soares não reage

Num comunicado assinado pelo seu líder parlamentar, Paulo Núncio, o CDS-PP garantiu que manterá na íntegra a sua iniciativa "para impedir as terapias hormonais para a mudança de sexo em crianças". E que rejeita "a inaceitável ingerência de um representante das Nações Unidas no processo legislativo parlamentar".

"O apelo à retirada do projeto de lei do CDS em discussão na Assebleia da República, apresentado com total legalidade e legitimidade política e democrática, é uma interferência injustificável no processo legislativo português que não pode deixar de merecer a absoluta rejeição do CDS-PP", lê-se no comunicado.

Paulo Núncio defende ainda que o uso de terapias hormonais para a mudança de sexo em menores de idade "é uma das maiores violências praticadas atualmente em Portugal", rotulando-a de "um verdadeiro atentado aos direitos das crianças". E refere "alertas de especialistas independentes sobre os riscos gravíssimos" dessas terapias e as suas "consequências devastadoras e irreversíveis em menores", tendo levado o governo trabalhista do Reino Unido e "o Brasil de Lula da Silva" a proibirem a sua administração.

Contactado pelo DN, o grupo parlamentar social-democrata, liderado por Hugo Soares, cujos deputados aprovaram os projetos de lei do PSD, do CDS-PP e do Chega - nesse caso com declarações de voto -, preferiu não reagir ao apelo lançado pelo alto-comissário das Nações Unidas.

BE pede ao PSD que retire projeto

Logo a seguir foi a vez do deputado do BE Fabian Figueiredo reagir ao apelar diretamente ao PSD para que retire a sua iniciativa.

“O PSD deve pôr a mão na consciência, abandonar a agenda do Chega que tem copiado e legislar com base na ciência em vez de ir atrás das guerras culturais da extrema-direita”, afirmou o deputado em declarações à Lusa, depois de conhecida a posição do alto-comissário das Nações Unidas.

Fabian Figueiredo apelou ao PSD para que “abandone este recuo legislativo".
Fabian Figueiredo apelou ao PSD para que “abandone este recuo legislativo". Foyo: Leonardo Negrão

Figueiredo considerou que o PSD, enquanto partido do Governo, deve decidir se pretende “arrastar Portugal para o vexame internacional” e colocar o país entre aqueles que, segundo o bloquista, recuam em matéria de direitos humanos.

O deputado apelou ainda ao PSD para que “abandone este recuo legislativo que quer produzir e se ponha ao lado daqueles que, dentro das Nações Unidas, defendem os direitos humanos”.

Os projetos de lei apresentados por PSD, Chega e CDS sobre identidade de género foram aprovados na generalidade em março.
Identidade de género. Afinal, havia três pareceres da CIG contra diplomas da direita
Os projetos de lei apresentados por PSD, Chega e CDS sobre identidade de género foram aprovados na generalidade em março.
Ministra admite análise à lei de identidade de género e envia documento ao parlamento
Diário de Notícias
www.dn.pt