Mais de 26 mil doentes críticos não tiveram socorro adequado em 2005. "Temos de fazer um ajuste muito rápido", diz presidente do INEM
"Esta era a realidade que nós encontrámos" e que se pretende mudar, afirmou o presidente do INEM, sobre o relatório de atividade da emergência médica que revela que mais de 26 mil doentes críticos não tiveram o socorro adequado em 2005.
Em entrevista à RTP, esta quinta-feira (20 de agosto), Luís Mendes Cabral garantiu que "é esta é a realidade que queremos alterar". "Foram indicados caminhos para corrigir essas discrepâncias e estamos a implementar essas medidas", disse, adiantando que serão feitas alterações até ao final do ano para melhorar a gestão do instituto.
"Tivemos alguns anos de estagnação em que não houve qualquer investimento nesta área. O país está a mudar, quer do ponto de vista demográfico, quer em número de população quer também na quantidade de idosos que temos, e precisamos de nos ir adaptando constantemente. Isso não foi feito e agora temos de fazê-lo muito rapidamente", considerou o presidente do INEM.
Garantiu que “há alterações que têm de ser introduzidas e que serão introduzidas até ao final deste ano”, dando como exemplo a importância de dotar os meios de socorro de meios de diagnóstico, com vista a melhorar a assistência ao doente. "Muitas destas ocorrências para as quais não há resposta é porque apenas os nossos meios diferenciados e os nossos meios do INEM é que têm capacidade de fazer um eletrocardiograma numa situação de dor torácica, é que têm a capacidade de, por exemplo, numa hipoglicemia administrar o medicamento que vai reverter essa situação e salvar a pessoa", detalhou.
Um cenário que quer ver alterado. "Temos de ser capazes de dar a todos os meios que dão assistência pré-hospitalar essa capacidade para sermos mais eficazes e não estarmos pendurados numa tipologia de resposta", defendeu.
"Aquilo que, infelizmente, temos de fazer é um ajuste muito rápido e não um ajuste progressivo como devia ter sido feito ao longo dos últimos anos", considerou na entrevista à estação pública.
Aquisição de 1400 monitores para entregar a todas as ambulâncias de modo a terem a capacidade de efetuar eletrocardiogramas
Questionado sobre quando é que o ajuste rápido estará concluído, o responsável pelo INEM deu como exemplo a capacidade de efetuar eletrocardiogramas pelos meios de suporte básico de vida para anunciar: "Vamos fazer uma aquisição de 1400 monitores para entregar a todas as ambulâncias".
"Todos os meios do país terão essa capacidade [efetuar eletrocardiogramas], com a transmissão de informação em tempo real para os nossos centros de orientação de doentes urgentes, onde veremos esses eletrocardiogramas e podemos decidir em conformidade", explicou. Assim, “na maior parte das situações", não será preciso enviar uma equipa diferenciada e o doente segue na viatura até ao hospital, acrescentou.
Anunciou também que irão começar em setembro formações nas corporações de bombeiros para que estes possam administrar o medicamento adequado em casos de hipoglicemia.
Pedido de demissão? "Seria estranho" não existir "algum grau de contestação"
Questionado sobre o pedido para que se demita, no âmbito da resolução aprovada na semana passada na Assembleia Geral (AG), convocada pela Comissão de Trabalhadores, Luís Mendes Cabral afirmou: "Seria completamente estranho estarmos num processo de reestruturação e refundação do INEM sem que houvesse algum grau de contestação, porque seria sinal que não estaríamos a fazer nada".
Já em relação aos dois dias de greve marcadas pelos técnicos de emergência pré-hospitalar para os dias 14 e 28 de setembro, o presidente do INEM destacou "o diálogo franco e aberto" que pretende ter na reunião de dia 26 de agosto, com o sindicato e com o Ministério da Saúde.
"Parece-me que [reunião] será importante para esclarecer e perceber o fundamento de algumas afirmações que já viemos a público dizer que são mentira. Ou seja, não há qualquer redução de meios, não há qualquer despedimento dos nossos trabalhadores, antes pelo contrário", assegurou.
Para Luís Mendes Cabral, "seria de uma inconsciência enorme, de uma total incoerência, do ponto de vista do próprio instituto, reduzir meios numa altura em que sabemos que há zonas do país que ainda estão deficitárias de alguns meios". "São afirmações inconsequentes e que não correspondem à realidade”, realçou.
Dados do relatório de atividade emergência médica
De acordo com o relatório de atividade dos Centros de Orientação de Doentes Urgentes e Meios de Emergência Médica do INEM, aprovado pelo conselho diretivo no mês passado, e a que a Lusa teve acesso, 2005 foi o ano em que a taxa de paragem das Ambulâncias de Emergência Médica (AEM) melhorou, mas ainda ficou acima dos 38%. Uma taxa de inoperacionalidade que se deve sobretudo à falta de Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (TEPH).
O mapa de pessoal previa 1341 TEPH, mas apenas 1003 lugares estavam ocupados no final do ano passado, correspondendo a um défice de 338 profissionais, aproximadamente 25% do quadro previsto.
A falta de TEPH, reconhecida pelo INEM, está bem patente no peso das horas extraordinárias reportadas: 364.939, o que representa cerca de 26% do total de horas de trabalho (1.410.408).
Quanto às Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER), um dos meios mais diferenciado, com a presença de médico, os dados mostram uma tendência recente de quebra na operacionalidade, com 97,39%, menos do que em 2024 (98,02%) e 2023 (98,19%). Em 2% dos casos a falha na disponibilidade destes meios é justificada com a falta de tripulação.
Apesar do elevado valor de operacionalidade, também o funcionamento dos helicópteros (outro dos meios acionados para casos mais críticos) mostrou uma tendência decrescente na disponibilidade.
Assim, a taxa de inoperacionalidade subiu de 4,19% em 2023, para 5,54% em 2024 e 6,11% no ano passado.
Globalmente, os CODU receberam no ano passado 1.656.891 chamadas de emergência, uma média de 4.539 chamadas/dia, um aumento de 11,2% face a 2024, o que se traduz, em média, mais 468 chamadas atendidas por dia.
Com Lusa

