Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) apresentou aos sindicatos uma proposta de reforma do modelo de recrutamento e colocação de docentes, que prevê a criação de um concurso contínuo ao longo de todo o ano letivo, substituindo os atuais mecanismos concursais. A medida foi discutida numa reunião de trabalho no âmbito da revisão do Estatuto da Carreira Docente.Segundo o ministério, o novo modelo mantém o concurso interno anual, destinado a professores dos quadros, garantindo mobilidade e maior proximidade ao local de residência. Este procedimento passará a estar concluído antes do final do ano letivo, “permitindo maior previsibilidade na organização da vida pessoal e profissional dos docentes”.A principal alteração reside na introdução de um concurso contínuo, de âmbito nacional, aberto durante todo o ano e com fases automáticas. Este mecanismo substituirá os atuais concursos, incluindo a contratação de escola, e pretende assegurar uma resposta mais ágil às necessidades das escolas. Para o MECI, estas alterações irão terminar o “modelo de recrutamento fragmentado, assente em múltiplos concursos, candidaturas e listas, com maior complexidade e demora”, que está em vigor.No âmbito desta reforma, será criada uma base nacional única de docentes, permanentemente atualizada e ordenada pela graduação dos docentes. A plataforma permitirá a entrada contínua de candidatos - incluindo recém-diplomados e profissionais com habilitação própria - bem como a atualização de preferências a qualquer momento.O MECI sublinha que o novo modelo garantirá maior transparência e equidade no processo de colocação, respeitando a graduação dos docentes. Ao mesmo tempo, prevê uma redução significativa dos tempos de colocação e dos períodos em que os alunos ficam sem aulas.A proposta assenta também na modernização dos sistemas de informação do ministério, que permitirão automatizar procedimentos e reduzir a necessidade de validações administrativas por parte das escolas. O objetivo é assegurar uma resposta permanente e ajustada às necessidades do sistema educativo. Além disso, o MECI pretende integrar no Estatuto da Carreira Docente a legislação atualmente dispersa sobre concursos, ingresso na carreira, habilitações e grupos de recrutamento, simplificando o enquadramento legal.O ministério solicitou aos sindicatos o envio de contributos até 10 de abril, estando já agendada uma reunião negocial para o dia 20 do mesmo mês, na qual será apresentada uma primeira proposta de articulado.FENPROF teme fim da mobilidade interna nos concursos docentesA FENPROF manifestou fortes reservas em relação às intenções do MECI para a reforma dos concursos de professores, alertando para dúvidas significativas sobre o futuro da mobilidade interna e acusando o Governo de falta de transparência no processo negocial.Em comunicado, a federação sindical afirma que não foram prestados esclarecimentos às questões que tem vindo a colocar, quer oralmente quer por escrito, sobre as propostas em discussão. Segundo a FENPROF, o encontro - classificado pelo ministério como uma reunião de trabalho - não permitiu aprofundar os aspetos essenciais do chamado “Tema 2”, relativo à habilitação para a docência, recrutamento e admissão. O sindicato acusa o Governo de desrespeitar regras básicas da participação sindical, sublinhando que a ausência de respostas compromete o direito das organizações representativas dos docentes a intervir na definição das condições socioprofissionais da classe. Segundo a organização sindical, o ministério limitou-se a apresentar linhas gerais da sua proposta através de um suporte em powerpoint, sem entregar qualquer documento estruturado.O secretário-geral da FENPROF, José Feliciano Costa, admite que o Governo poderá estar a preparar uma alteração profunda do modelo, que poderá afetar o regime de vínculo, a estabilidade profissional e a mobilidade interna dos docentes. O responsável entende que esta evolução confirma um caminho de desvalorização da carreira docente já antecipado no processo de revisão legislativa em curso.Na apresentação do novo modelo aos sindicatos, o MECI revelou números preocupantes sobre a escassez de professores que, acredita, poderão minimizar-se com a adoção do novo modelo de concurso. Segundo informações transmitidas pelo Governo, cerca de 20% dos docentes têm mais de 60 anos; 60% dos têm mais de 50 anos, havendo uma média de 4 mil aposentações por ano. O ministério diz ainda que “milhares de alunos ficam sem professor atribuído durante períodos prolongados, com impacto nas aprendizagens” e, por outro lado, milhares de candidatos a docentes ficam “sem oportunidade de colocação, com enormes períodos de espera”.