Fundação LAPS abre casa-abrigo para ser "porto seguro" de mulheres vítimas de violência doméstica
A Casa Flor LAPS, um abrigo para mulheres e crianças vítimas de violência doméstica, foi lançada esta sexta-feira, 02 de outubro, em Cascais, para dar resposta às necessidades urgentes de vítimas. Muitas das vezes, estas mulheres não tem para onde ir nem para onde levar os seus filhos.
Esta vivenda, com nove suítes, pretende acolher estas vítimas e os seus filhos nos primeiros momentos, quando muitas se veem sem um lugar seguro para onde voltar. Porém, ao DN, Joana Lemos, antiga piloto de automóveis e vice-presidente da Fundação LAPS, pretende também acompanhar as mulheres que recebe ao longo do processo.
“São mulheres que, quando chegam ao ponto de fazer uma denúncia, vêm destruídas completamente, sem força anímica e com muito medo. E o medo bloqueia-nos a todos”, relata Joana Lemos.
“O que nós queremos é não só dar-lhes um pôr seguro, que será esta casa com todas as condições técnicas e humanas para ser seguro, mas acima de tudo acompanhá-las no dia-a-dia para que elas possam reerguer”, sublinhou, notando que a fundação ajudou a fixar parcerias com médicos, psicólogos e outras instituições que ajudarão nesse acompanhamento.
A Fundação LAPS, fundada pelo herdeiro do império Fiat, Lapo Elkann, assumiu a remodelação da casa que estava na posse da Câmara Municipal de Cascais, tendo contado com a decoração da apresentadora Filipa Garnel. Esta casa é a segunda do seu género, já havendo uma em funcionamento no Funchal, na Ilha da Madeira.
No evento de inauguração, Elkann contou que a casa pretende ser “um ninho de amor” e que dê também capacidades para as pessoas acolhidas possam se reerguer, e possam levar as suas crianças.
Na casa, que se divide em dois espaços e tem um quintal central, todas as salas de estar e de jantar são comunais, algo que foi uma escolha propositada, conta Joana Lemos. “O que eu vi nas poucas casas que eu visitei é que eram todas muito individualistas, muito só quartos e não têm um sítio onde coabitar”, sublinhou.
“É importante que elas falem entre elas e que percebam que não estão sozinhas nisto, que não são as únicas a passar por isto, e eu acredito muito na união faz a força”, acrescentou, sublinhando que a partilha comum ajuda estas vítimas a “terem força para vencerem essa angústia”.
Vários dos quartos desta casa têm duas camas ou até mesmo já um berço, para que as crianças sejam também bem acolhidas. À entrada, uma salinha com prateleiras com puzzles, jogos educativos, cartas e livros rodeiam uma mesa pronta para juntar os mais pequenos.
“As crianças são o futuro. São o futuro de uma família, são o futuro de uma mãe”, acrescentou, sublinhando que a sua mulher “furacão” acabou por lhe chamar à atenção de que “o tempo de reação” em casos de apoio às vítimas “é lento” porque “o sistema político burocrático não permite ter rapidez no tempo de intervenção”.
Para a resposta ser mais rápida, esta casa vai ser gerida pelo Espaço V, uma instituição que trabalha em Cascais e que atende diretamente vítimas de violência doméstica no concelho. Para a LAPS, a prioridade é “desburocratizar o grito da mulher”.
“Assim que grita, nós temos que responder”, insistiu Joana Lemos. “Nós sabemos que, na prática, as mulheres têm o ímpeto de dar um grito, de querer se livrar dessas coisas, e que depois a burocracia as trava e as obriga a voltar para casa”, acrescentou.
Orçamento participativo ajudou à criação da casa
Foi reconhecendo a urgência do aumento da violência doméstica que, Carolina Reis, então aluna do ensino secundário, propôs no Orçamento Participativo de 2022 do município de Cascais a criação de um abrigo semelhante ao que tinha visto na série da Netflix, “A Criada”, em que a protagonista deixa a sua casa para ir para um abrigo.
“A ideia surgiu porque tenho noção que a violência doméstica é um dos crimes mais praticados no nosso país e também é bastante denunciado no nosso concelho de Cascais e, portanto, era urgente e importante um projeto como este”, lembrou Carolina ao DN, sublinhando que tinha apenas 17 anos na altura em que viu a série.
“Achei que seria interessante e não sabia se havia algo semelhante no nosso concelho. Tendo em conta que eu tinha de fazer uma proposta para a comunidade, achei que seria algo benéfico e que podia mudar a vida de muitas vítimas”, acrescentou, sendo hoje licenciada em Enfermagem.
O presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, saudou a iniciativa da jovem e da Fundação LAPS. "É um espaço que todos nós gostaríamos que não fosse necessário existir, mas que infelizmente é preciso", disse ao DN,
Mais tarde, quando surgiu a ideia proposta por Joana Lemos de uma casa-abrigo, foi uma questão de "juntar vontades" e atingir assim este objetivo, afirmou ainda o autarca.
"A Câmara Municipal de Cascais cedeu em 2025 esta casa à Fundação LAPS em regime de comodato", acrescentou Nuno Piteira Lopes, que sublinhou o "papel fundamental" na requalificação feita a uma casa que já existia e para lhe dar "esta dignidade".

