O projeto Leiria Unida tem andado a distribuir kits de bens essenciais por aldeias do concelho. De porta em porta, voluntários levam comida, mas também um pouco de atenção, que não são apenas os telhados que precisam de ser reparados. A sexta-feira foi o primeiro dia em que o Leiria Unida, chegou a Monte Redondo, depois de uma semana pela União de Freguesias das Colmeias e Memória.A iniciativa é promovida pela associação Asteriscos, em conjunto com os clubes Lobos de Leiria e ADCCMI. O telefone de Filipa Sapinho, que está a coordenar o trabalho no terreno, parece não ter descanso, enquanto se vão preparando kits de bens essenciais que serão distribuídos durante a tarde por equipas de voluntários, cada uma com uma lista de casas por onde deverão passar, sinalizadas pela Junta de Freguesia.Ricardo Henriques, que está a fazer voluntariado no projeto desde o primeiro dia, explica à agência Lusa que os kits, apesar de importantes, são “uma espécie de quebra-gelo”. “Depois de quebrarmos o gelo, é que a pessoa se abre e percebemos o que é que realmente precisa. A maior parte só precisa de ser ouvida, de um bocado de carinho, de um abraço, de uma atenção, porque os filhos estão fora e a Junta, seja qual for, não consegue chegar a todo o lado”, conta.Neste trabalho, não há pressa no contacto com cada família que encontram pelo caminho. Indo para lá da lista de casos sinalizados, procuram perceber em cada porta a que batem se há danos na casa, necessidades de medicação, se há luz e água ou se precisam de apoio psicológico (além dos kits, o projeto instala um camião na freguesia, com consultas gratuitas de psicologia e fisioterapia).Para Ricardo Henriques, o que mais lhe custa ver, por estes dias, “é pessoas ao abandono”. Nas Colmeias, houve muitas casas onde a iniciativa apareceu pela primeira vez para perguntar se era preciso algo, recorda. “As pessoas estão psicologicamente devastadas”, constata Raul Testa, presidente da Asteriscos, que decidiu avançar com o projeto depois de ouvir relatos de “situações inenarráveis” de quem ia para as zonas mais afastadas do centro urbano de Leiria.Carência“Percebemos que a situação era mesmo de muita carência”, disse Raul Testa. Juntou apoios de empresas, clubes e instituições, e foi para o terreno, em articulação com a ação social da Câmara de Leiria e juntas, num projeto que já envolveu cerca de 100 voluntários de todo o país.Nas Colmeias, encontraram situações de “pobreza profunda, que agora estão muito pior” e sem qualquer tipo de apoio. Preocupado com o que poderá acontecer a essas pessoas no futuro, o projeto vai compilando dados de cada caso encontrado, que serão depois entregues às instituições locais, para poder haver uma resposta continuada no futuro.“Ainda há pessoas que vivem com chuva a cair-lhes dentro de casa”, nota Joana Gago, professora de Leiria que já está no projeto há quase uma semana. “Para mim, custou-me ver que há 22 dias que ninguém tinha ido à porta de algumas pessoas e que ainda não tinham ouvido um ‘Está tudo bem?’, ‘Precisa de alguma coisa?’”, sublinha.No primeiro dia em Monte Redondo, o grupo foi batendo a cada porta sem pressa e à procura de ajudar no que fosse preciso. No caso de Vitor Pinto, de 79 anos, a casa não tinha sido afetada, mas andava ainda a braços com a falta de luz – que “vai e vem”. Por estes dias, socorria-se do “Nosso Senhor”, um pequeno crucifixo iluminado a pilhas, que tinha ligado na noite de 28 de janeiro e que desde então assim se mantém, para o ajudar a andar por casa quando a noite chega.Agora, ficou com uma lanterna deixada pela equipa. “Obrigadíssimo”, diz Vitor, quando se despedia dos voluntários. Martinha Oliveira, de 19 anos, faz parte de uma das equipas que anda por Monte Redondo e decidiu participar no projeto por se sentir “inútil em casa”, na freguesia das Cortes, mais poupada à passagem da depressão pelo concelho de Leiria. Para o futuro, a estudante de educação social teme os impactos na saúde mental das pessoas: “As pessoas precisam de alguém com quem falar e desabafar”.Também Alexandra Carvalho já andou por várias freguesias do concelho de Leiria, onde mora, para "dar um bocadinho de força e coragem a quem mais precisa", num período "muito difícil a todos os níveis". “Nós vemos que não é preciso só reparar tetos. Às vezes, uma palavra faz toda a diferença – o estar, o aparecer –“, diz a professora de 52 anos..Uma equipa de paliativos faz a diferença nas tempestades. “Não senti medo, senti conforto”, diz um dos doentes em Alcobaça .Gonçalo Lopes: “Tentei dizer ao primeiro-ministro e ao Presidente que Leiria vivia uma guerra e que precisávamos de ‘tropas’"