No quarto individual que fica ao fundo do corredor na Unidade de Cuidados Paliativos (UCP), no Hospital Bernardino Lopes Oliveira, em Alcobaça, o cansaço dos olhos negros de Sandro sobressaía, como a dificuldade na respiração, apesar de esta ser ajudada por oxigénio através de um catéter colocado no nariz. Aos 44 anos, com uma neoplasia no pulmão em estado avançado, e depois de “muitas tempestades na vida”, ainda arranjou forças para dizer ao DN que a depressão Kristin foi “mais uma tempestade, foi mais vento, que levou muita coisa e prejudicou muita gente. Não senti medo, senti conforto”. Se foi assustador? Não nega, mais pelo “barulho”, porque em termos de dor ou de medo, “nada me pode prejudicar mais do que a minha própria doença. E aqui tive sempre cuidados”. Sandro era o único doente que na madrugada de 28 de janeiro se encontrava internado na UCP da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria (ULSRL), que funciona no antigo Hospital de Alcobaça, e que ali continuava quinze dias depois, quando a reportagem do DN ali se deslocou. Não sabia até quando, mas sabia que foi “uma sorte, uma felicidade estar aqui”, confessando: “Na vida não escolhemos nada, simplesmente tudo acontece.”As palavras iam soltando-se lentamente, enquanto esperava que uma enfermeira lhe desse um SOS para alívio da dor. Naquele momento, Sandro tinha acabado de fazer uma call com a família, depois de ter regressado ao quarto na UCP após 15 dias de internamento no piso de baixo, onde funcionava o Serviço de Observação da urgência do hospital. Foi para aquele piso que ele e mais 11 doentes tiveram de ser transferidos logo na manhã de 28 de janeiro, quando a equipa percebeu que o telhado tinha sido atingido pela tempestade e que a água da chuva entrava nalgumas áreas da UCP. Mesmo assim, dizia ao DN, “só o descanso não foi igual como aqui, porque era um espaço aberto e havia mais pessoas a serem tratadas, mas tive sempre os cuidados que precisava”. A passagem da depressão Kristin, não trouxe medo a Sandro, mas o que ela significa, sim. Até pelo futuro dos “meus filhos”, argumentou. “É preciso fazer alguma coisa, preparar as populações para estas situações, porque podem acontecer mais vezes”, remata. Ao DN assumiu saber que o quarto que ocupava era “a última casa”, mas o que sentia é que ali esteve sempre “como se estivesse lá fora a apanhar sol. Esta é a verdade. Se não tivesse havido nenhuma tempestade, estaria exatamente igual”. Sandro elogiou desta forma a equipa da UCP que o acompanhou nos últimos dias de vida. Foi por isso que também aceitou falar ao DN nesta altura da sua vida. E foi o último elogio que lhes dirigiu, porque quatro dias depois, na tarde deste domingo, dia 15, partiu, mas “de forma muito tranquila”, conta Isabel Semeão, enfermeira coordenadora da UCP. As últimas horas, passou-as com a família e só o poder ver a mulher e a mãe, “acalmou a sua ansiedade de partida”. Para a equipa da UCP, é mais uma perda depois da tempestade. Nos quinze dias seguintes, contabilizaram seis partidas (óbitos), agora foi mais uma, mas o lema para todos é sempre o mesmo: “Manter a esperança e o conforto”. E foi isso mesmo que, na madrugada de 28 de janeiro, preocupou as três mulheres que seguem à frente da equipa dos paliativos em Leiria. Pela manhã, bem cedo, todas perceberam rapidamente que a tempestade não tinha sido só mais uma tempestade, “havia algo muito sério a acontecer”, desabafam. E mesmo com estradas cortadas, sem comunicações e sem saber ao certo o que iam encontrar na unidade, meteram-se a caminho para chegar à UCP e “passar à ação” para “cuidar dos doentes que ali estavam” e saber dos que estavam em casa. . O dia em que se confirmou que uma “equipa de paliativos é fundamental nas crises”Isabel Semeão, enfermeira coordenadora e uma das fundadoras da Unidade de Cuidados de Paliativos, saiu de casa em Leiria às 07h00, como sempre, do dia 28 de janeiro, para se dirigir a Alcobaça. Pouco depois percebeu que a viagem não seria igual a tantas outras como as que fez nos dias anteriores e nos últimos anos - pelo menos desde 2021, quando o serviço de internamento abriu com 12 camas no antigo Hospital Bernardino Lopes Oliveira. “Assim que saí de casa, como faço todas as manhãs, percebi que, além de não haver luz, não havia comunicações. Não conseguia falar com ninguém. Como moro em Leiria fui direta ao hospital (Santo André) para ver se era possível comunicar de lá com a unidade em Alcobaça, mas não era. Meti-me no carro para fazer a viagem e percebo que metade das faixas da A8 estavam cheias de árvores caídas e sem sinalização. Pensei que se calhar não era possível chegar, em muitos sítios fui a 50 quilómetros/hora e tive que travar de repente, porque tinha vegetação à minha frente. Foi uma loucura, o que me fez pensar que iria ser muito, mas muito difícil se tivéssemos que transferir doentes”, conta a enfermeira coordenadora.Do outro lado do distrito, a médica diretora da UCP, Sofia Durão, fazia o caminho das Caldas da Rainha com destino a Leiria, para ter reuniões multidisciplinares, como é habitual à quarta-feira. “É o nosso dia mais complicado. Temos reunião com várias equipas no Hospital de Leiria”, explicam. Mas assim que entrou no carro para iniciar caminho e tentar ligar para a equipa, como faz todos os dias, percebeu que não era possível. “Nada dava sinal e no rádio ia a ouvir notícias sobre o mau tempo”. O cenário de árvores caídas e telhados levados assim que se começou a aproximar de Leiria fizeram-na perceber “que alguma coisa séria se passava e decidi ir para Alcobaça em vez de ir para Leiria onde teria reuniões para ver o que se passava”. E quando conseguiu chegar à UCP, depois de ter tido de desviar de estradas cortadas, percebeu que “a noite tinha sido muito difícil. Quem estava a trabalhar ficou sem luz e sem comunicações. A estrutura base da cobertura do lado da unidade foi atingida e teve impacto nalguns quartos de doentes e zonas de trabalho dos profissionais, como na sala de preparação da medicação. Havia água a entrar em muitos sítios, inclusive junto a circuitos elétricos, e essa foi a nossa maior preocupação. Tivemos de tomar uma decisão rápida, de mobilização dos doentes para outro local”, explica Sofia Durão.Mas como diz a enfermeira coordenadora, Isabel Semeão, “uma unidade de paliativos é fundamental em momentos de crise” e com “a enorme ajuda do enfermeiro responsável pelo serviço de urgência, Luís Salgueiro, que tem grande experiência de gestão de crises, e que colocou de imediato o espaço que tinha à disposição de todo o hospital, para receber os doentes que estavam nas zonas afetadas, conseguimos retirar da unidade os 12 doentes e colocá-los num lugar seguro, embora fosse um open space”, recorda.Adriana Azevedo, responsável pelo serviço social na UCP, destaca ainda que o ter 12 doentes na unidade significava que ter “lotação máxima”. “Eram doentes que estavam todos acamados e dependentes Tínhamos de tratar de todos, falar com os familiares, avisar doentes que vinham à consulta para controlo de sintomas que não era possível observá-los, e não era possível porque não havia comunicações. Isto requereu grande mobilização da equipa que estava e até de todo o hospital”, afirma.A entreajuda funcionou: “Tivemos uma enfermeira que mora no mesmo lugar de uma doente nossa com quem estávamos preocupadas, que se disponibilizou a ir vê-la quando fosse para casa e a dar conta da sua situação no dia seguinte e a levar a medicação que fosse precisa”, contam-nos. Como ressalvam ao DN, este é só mais um exemplo de entre muitos que ocorreram, mas que faz a enfermeira Isabel Semeão dizer: “Quem trabalha em paliativos é uma comunidade, assim que houve comunicações recebemos mensagens de muitas outras equipas do país a perguntar se precisávamos de ajuda. Não foi, porque fomos conseguindo encontrar soluções” para tudo, até para quem estava em situação de ter alta e regressar a casa, recordando que nos 15 dias seguintes cinco doentes regressaram a casa.. Quando um óbito não pode ser comunicado pela falta de comunicaçõesNo entanto, há sempre situações difíceis e essas guardam-nas para sempre. “Para mim, a situação mais difícil que tivemos logo a seguir à tempestade foi a impossibilidade de comunicar um óbito à família no próprio dia, mas assim que foi possível passar nas estradas fomos a casa dos familiares para dar a notícia, porque não podia ser por telefone”, confessa Adriana Azevedo, acrescentando: “Quem trabalha em paliativos tem de se preparar para as perdas, mas a morte de um doente tem sempre impacto, muito mais numa situação com esta.” Os restantes doentes continuaram a ser tratados e a fazer o seu percurso, continuar internado, regressar a casa ou até concretizar um desejo expresso há muito: o poder votar antecipadamente para a segunda volta das eleições presidenciais, a 8 de fevereiro, sem sair da UCP. A equipa recorda Elsa Sismeiro, de 58 anos, doente oncológica ali internada durante a tempestade, “mulher reconhecida pelo que fez na região em várias áreas”, que conseguiu realizar um desejo seu, apesar do caos de estragos que ainda existia nas ruas e nas vidas das pessoas. “Votou aqui dentro, e faleceu três dias depois”, contam-nos. E, mais uma vez, relembram, “uma equipa de paliativos faz o que tem a fazer pelos seus doentes”.Quase três semanas depois da tempestade, a UCP volta à sua atividade normal, mas para se aguentar a equipa não esquece que teve de mexer em muita coisa, “como articular profissionais e escalas. Havia quem vivesse em Leiria e não conseguia chegar facilmente a Alcobaça e quem vivesse noutros sítios que podia ir para a UCP e tivemos de mexer em tudo para conseguirmos funcionar”. Mas fora de portas tiveram de ir à procura de doentes para saber como estavam e até apoiar e consolar familiares. Foram dias em que, diz a enfermeira coordenadora, foi um entra e sai dos serviços. “A imagem que tenho de mim própria era de pombo-correio entre os hospitais de Leiria e de Alcobaça e a servir de interlocutor com a equipa, já que não havia outra forma de comunicar”, explica. À medida que as horas iam passando e os dias também, e já com os doentes transferidos e em segurança, “fomos percebendo o que tínhamos de gerir. E se conseguimos fazer tudo o que havia a fazer, foi também porque tivemos uma administração que montou um gabinete de crise que deu acesso aos profissionais, permitindo-nos dizer de viva voz o que precisávamos e de obter o que era necessário para tratar os doentes, mesmo os que estavam em casa”.Os cuidados paliativos na Unidade Local de Saúde de Leiria são prestados à população há oito anos, quando ainda só falar de paliativos “assustava”. Hoje, já não é assim, o caminho que fizeram serviu para consolidar a confiança na população e entre portas - só em 2025, acompanharam 2000 doentes. No entanto, consideram que “a tempestade veio mostrar ser preciso olhar para esta área, até a nível nacional, como uma prioridade”, porque, reforça novamente Isabel Semeão, em qualquer lado “as equipas de paliativistas são fundamentais em momentos de crise. Estão sempre para o que for preciso”. Por isso, dizem ao DN, que o que se passou a seguir à tempestade jamais será esquecido, mas fica o consolo de doentes como Sandro que dizem que no meio da destruição “sentiu conforto”, em vez de medo..Quando os cuidados paliativos dão “a esperança que falta" e até “mais anos de vida”