Começou a semana a fazer críticas ao governo, dizendo que se a tempestade tivesse passado pelas casas de governantes a resposta seria outra. Dias depois a ministra da Administração Interna pediu a demissão, acha que a resposta vai ser outra ou não?As ajudas para esta primeira fase dependem muito da proximidade, do conhecimento de quem está no terreno. Vivemos uma guerra de trincheiras e para se vencer esta guerra temos de estar no terreno, porque só quem está no terreno percebe o que aconteceu e o que estamos a passar. Por isso, é natural que o Governo e os mais diversos ministros, estando em Lisboa, não estejam a viver os problemas no terreno em Leiria. E consigam sequer encontrar as soluções mais eficazes. As soluções têm sido garantidas pela população e pelos autarcas. É por isso que, apesar de tudo, estamos a ter até muita capacidade de resposta. No caso concreto da demissão da ministra, acho que é um assunto para os partidos e para ser debatido a nível nacional e não quero comentar muito mais.O poder político e institucional instalado em Lisboa está longe do país real, ainda não percebeu o aconteceu a Leiria?O que nos aconteceu foi um ataque de guerra. Acordámos de manhã e tinha havido um ataque que destruiu habitações, estradas e indústria, um ataque muito bem planeado, porque atingiu postes de eletricidade e uma zona muito específica do país, e com graves consequências no fornecimento de água e de comunicações. E quem acorda num ambiente destes, a primeira coisa que tem de fazer é avisar quem não está no terreno, mas manda no país, dizendo: ‘Há uma região no seu país que sofreu um ataque durante a madrugada e, portanto, têm de vir para cá com ‘TUDO’ para salvar o que é possível’. Foi isso que tentei dizer desde o primeiro minuto ao primeiro-ministro e ao Presidente da República, tentei dizer que em Leiria estávamos a viver uma guerra e que precisávamos de ‘tropas’, de toda a ajuda, mas a resposta nos primeiros tempos foi muito difícil de obter.Difícil de obter por questões burocráticas ou por não terem noção da dimensão?Pode ter havido vários motivos, até dificuldade na comunicação, mas não conseguiram perceber o que estava a acontecer, houve dificuldade em compreender a dimensão dos estragos. É claro que um fenómeno destes exige muita resiliência, ninguém estava preparado. Mas para quem estava no terreno o processo de aprendizagem começou logo naquele dia, é uma aprendizagem de aulas práticas, não de teoria. E, nós, autarcas no primeiro dia começámos a aprender a encontrar soluções no terreno, juntamente com a proteção civil e com a população. Só para lhe dar uma ideia, estamos no 14.º dia após a tempestade e a câmara já gastou 12 milhões de euros em limpeza de estradas, em geradores a gasolina, em alimentação, em despesas com realojamento, na reconstrução de casas. Tínhamos de começar por aqui até para salvar vidas. E era este sinal que devíamos ter tido logo no início.Mas a que chama virem para cá “com tudo”?Olhe, o terem reconhecido que era necessário ter declarado estado de calamidade e que era preciso acionar ajuda internacional. Mas uma ajuda útil, não para trazer telhas, como foi referido pelo responsável da Autoridade Nacional, mas para trazer geradores e equipas que levantassem postes de eletricidade e concertassem os cabos. Essas equipas, segundo sabemos, estão a chegar agora, vindas da Irlanda, Espanha e França. Mas antes destas chegarem, já a Câmara de Leiria tinha pedido a uma empresa de cá para o fazer, e esta veio voluntariamente e sem cobrar nada ao município. E começou por trazer eletricidade à cidade e rede nalgumas zonas. Nestes fenómenos é preciso resiliência, mas era preciso perceber qual era o problema para se acionar meios nacionais e internacionais com outra rapidez.. A e-Redes também não percebeu o que estava a acontecer? A resposta seria diferente se fosse uma empresa com capital português?Essa é uma das questões que deve ser pensada. Esta crise veio mostrar que uma rede elétrica ligada à nossa soberania e à nossa sobrevivência é fundamental. Uma rede elétrica não pode estar entregue exclusivamente a capitais estrangeiros. E digo mais. Tem de existir uma entidade reguladora que esteja ao lado do consumidor e que seja eficaz. E esta empresa não esteve ao lado do consumidor. Eu baixei a guarda nas críticas, porque esta semana morreu uma pessoa, mas esta empresa vai ter de ser avaliada no futuro, não pela autarquia, mas por quem de direito.Pelo Estado português?O Estado português tem de olhar para este tipo de empresa, não só para a e-Redes, mas para outras também. As entidades reguladoras têm de ser mais exigentes na defesa do consumidor em situações de calamidade como esta. Vai ser preciso perceber o desinvestimento que esta empresa fez desde o momento em que teve outro grupo de acionistas, perceber o número de técnicos que tinha e que tem agora e o recurso que faz ao outsourcing. É óbvio que somos um país do outsourcing, mas é preciso pararmos de fazer de conta.Passaram 15 dias desde o ataque de que fala, quando olha à sua volta o que o surpreende mais?Que temos tido uma grande ajuda dos portugueses e de outros autarcas. Tem havido um mecanismo solidário, informal e de apelo ao coração que tem funcionado de maneira excecional. Nunca pensei haver tantas pessoas, portugueses, estrangeiros, imigrantes, a ajudarem-nos. E isto é algo que me tem surpreendido bastante e de que vou ficar grato para o resto da minha vida.E que lições já retiraram nestes dias?Que há uma dificuldade muito grande em acionar meios dentro do país no âmbito da proteção civil. Temos de ser mais ágeis e com mais vocação para combater este tipo de catástrofes. Estamos habilitados a combater incêndios, não isto. A outra lição é que, como já disse, se uma infraestrutura de distribuição de energia pelo país for atacada pode pôr em causa a vida das pessoas, sobretudo se as falhas se mantiverem durante muitos dias. Isto foi uma catástrofe natural, mas imagine que estamos em guerra e que somos alvos de um atentado terrorista, era tão fácil gerar o pânico. Portanto, temos de imaginar o futuro e temos de preparar ações de prevenção para que estas infraestruturas não sejam destruídas e nem postas em causa, porque não estamos preparados para conseguir reagir a tempo.Quando olha à sua volta, que balanço faz?Temos muita coisa por fazer. Em termos de ação, definimos as fase 1, 2 e 3. A fase 1 é a que estamos a viver, é a fase humanitária, em que tentamos salvar ao máximo o património e a qualidade de vida das pessoas. Por isso, a primeira missão nos dias seguintes à tempestade foi limpar Leiria e desobstruir as vias nas localidades. Foi um trabalho que ultrapassou as nossas capacidades enquanto autarquia e que contou com a contratação de empresas e com a ajuda de muitos voluntários. Posso dizer que foi muito o povo que conseguiu desobstruir as vias nas suas localidades, que levaram os seus tratores, as suas moto-serras e que puseram mãos à obra. Depois, a vertente humanitária com a angariação de alimentos para as pessoas mais carenciadas, a doação de lonas e mangas plásticas para tapar telhados e outros pertences e o realojamento de pessoas - há muitas que foram viver para casa de familiares, mas para outras tivemos de comprar habitação modular para instalar.E a fase 2 e a fase 3?Estamos a entrar na fase 2, ativámos uma área de trabalho, um gabinete instalado no Mercado de Santana, para auxiliar as pessoas a submeterem as suas candidaturas aos apoios financeiros, seja de cinco mil euros ou dez mil, para começarem a reconstruir as suas casas e fazer as suas obras. Este gabinete em 24 horas fez 200 atendimentos. Depois, e associado à entrada destas candidaturas, temos de criar uma outra área, que é a de analisar as candidaturas, juntamente com a CCDR, para as poder validar e avançar com os apoios. À medida que vamos encontrando problemas, encontramos soluções para recuperar o mais rápido possível. Mas este tipo de atuação só percebe quem está no terreno.. Mas o que falta fazer?Muita coisa. Até porque aquilo que vivemos foi um ataque que atingiu cidadãos e todos os outros setores, porque se a indústria e as empresas da região não tivessem sido atacadas e pudessem ajudar-nos a recuperação seria diferente. As cidades de Leiria, Marinha Grande e Pombal foram profundamente atacadas. Tivemos de restabelecer a vida destas pessoas e agora estamos na fase de acudir às freguesias. Mas é preciso compreender uma coisa: estamos a pedir ao nosso ‘exército’, às nossas tropas, às nossas pessoas, que ajudem a restabelecer a vida dos outros, mas eles também foram afetados e estão preocupados com a sua vida pessoal. Por isso, a ajuda fora desta bolha era muito importante.Essa ajuda surgiu?Surgiu. De outras autarquias, de bombeiros que vieram de outros pontos, de pessoas que vieram do norte e do sul do país e que foi uma ajuda decisiva para recuperarmos nos primeiros dias. Agora, temos de criar condições para que as pessoas possam fazer as obras nas suas casas e nas suas fábricas para se retomar a economia da região, para se manter as respostas de trabalho, senão isto pode provocar uma crise nacional. E aí sim, chegariam à conclusão que, então, a resposta deveria ter sido mais rápida.O efeito no setor industrial e empresarial da região pode levar a uma crise nacional?As consequências do atraso na resposta podem ter efeitos económicos em todo o país. De Leiria à Marinha Grande e Pombal há muitas pequenas e médias empresas, pessoas que construíram as suas fábricas, que começaram com barracões, criaram emprego, compraram máquinas e depois construíram pavilhões e hoje faturam 20 ou 30 milhões. Mas também temos multinacionais, como a ROCA ou como as empresas de vidro na Marinha Grande, que faturam centenas de milhões, e estes estão habituados a superar todas as crises. Mas, na cadeia de fornecimento, é igual para todos, se uma empresa, por exemplo de moldes, e temos algumas que fornecem as principais marcas de automóveis da Europa, se atrasa nas entregas, a região perde o cliente, que recorre a outros concorrentes. E isso vai ter custos a nível nacional.Fala de lay-off, desemprego?Olhe, hoje tivemos um encontro com empresários. A organização recebeu cerca de 600 inscrições, não conseguiram colocar toda a gente no auditório. Fala-se que o setor terá prejuízos da ordem dos 600 milhões de euros. Isto significa muito.Há pouco dizia estarem a acudir as freguesias, algumas estão a três quilómetros do centro de Leiria e ainda não têm luz nem rede de comunicações, que ajuda precisa mesmo do Governo?No imediato, do restabelecimento da energia, este é o principal problema. A e-Redes assumiu que seria até ao final de fevereiro, mas está a ser muito difícil.As escolas já estão a funcionar?O que nos preocupa mais no reerguer Leiria eram as infraestruturas fundamentais, daí abrir as escolas ser uma prioridade. E ao fim de 15 dias estão a funcionar todas, mas ainda com equipamentos estragados. Mas se estão é porque nós, autarquia, alugámos 20 contentores em tempo recorde para as colocar a funcionar. Mas também sabemos que vamos ter de dar às escolas as condições que tinham antes da tempestade, porque agora só deu tempo de tratar da cobertura. Mas, mais uma vez, o investimento público é muito importante na recuperação destas infraestruturas, porque a guerra não acabou. O primeiro ataque foi pelo ar e pelo vento, agora vem aí o ataque pelos rios, que vai levar muito a estrada a cair. Portanto, há o receio de mais danos. O país continua em alerta. A guerra ainda não acabou.Quando é que o autarca Gonçalo Lopes ficará descansado?Deste quartel dos bombeiros só sairei quando toda a gente tiver eletricidade. E já percebi que vou ser presidente de duas câmaras, a câmara A (a que já existia e que tem 150 milhões de euros por ano) e a câmara B (a de reerguer Leiria, aquela em que já gastámos 12 milhões sem ter receita nenhuma). Já avisei a minha equipa, que vou ter de aliviar um bocadinho a câmara A para trabalhar na câmara B. As minha energias e o meu mandato estarão praticamente dedicados a esta missão e só ficarei descanso depois disso.Depois da tempestade, Leiria vai voltar a viver da mesma forma?Acho que este evento nos vai tornar mais fortes e unidos. Vai ser algo positivo. E acho que o resto do país vai perceber que em Leiria existe mesmo uma força especial para fazer milagres. Não é por estar perto de Fátima, mas é mesmo porque tem gente capaz de fazer coisas diferentes. A partir daqui o nosso discurso tem de ser de esperança, de faróis, e não de desgraça. Foi isso que já pedi às escolas para transmitirem às nossas crianças.