Depressão Kristin provocou milhares de ocorrências.
Depressão Kristin provocou milhares de ocorrências.Reinaldo Rodrigues

“As pessoas não sabem como reagir a um Aviso Vermelho”

A comunicação sobre eventos meteorológicos extremos, advertem especialistas, tem de ser melhorada. Não basta alertar para o problema; é preciso dizer como responder a ele.
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“Há tendência para as pessoas não valorizarem os avisos da Proteção Civil ou do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Talvez por serem demasiado frequentes, ou porque são um bocado herméticos. Não há uma comunicação empática.” 

A opinião é do cientista Pedro Matos Soares, investigador em climatologia, que crê que “a maioria das pessoas não distingue um aviso vermelho de um amarelo”, no sentido que “não sabe como reagir a um aviso vermelho”. Para serem eficazes, advoga, os avisos “devem ser acompanhados de recomendações, não apenas dizer que há um problema, mas como responder a ele. Quando há  um aviso vermelho as pessoas que têm empresas, por exemplo, deviam ter planos de contingência para reagir — e as empresas das zonas mais afetadas não sabiam como reagir.” 

Tomemos como exemplo o aviso que a maioria dos cidadãos em território nacional recebeu no seu telefone, sob a forma de SMS, na tarde de terça-feira, enviado pela Proteção Civil: “Depressao Kristin: Vento intenso ate 140 km/h nas proximas horas na sua regiao. Fique atento. Siga recomendacoes autoridades.”

Num país com um alto nível de iliteracia, quantas pessoas sabem descodificar a gravidade da mensagem “vento intenso até 140 quilómetros por hora”, para além de pensarem que é muito forte? Ou seja, quantas serão capazes de antecipar o grau de destruição inerente a uma tempestade com tais características, a possibilidade de voarem telhados e coberturas, de árvores ceifadas a meio como se — é essa a descrição que vemos repetida em quem passa nas zonas mais atingidas — uma gigantesca serra elétrica ali tivesse andado? E quantas saberão como acautelar os seus bens ou a sua vida face a esse alerta?

Claro que, como reconhece este climatologista do Instituto Geofísico do Infante Dom Luiz (Universidade de Lisboa), uma tempestade extrema como a Kristin traria sempre consequências graves, até pelas debilidades do edificado, do ordenamento do território e até pela ausência de planeamento no que respeita a infraestruturas críticas — ou seja, nas palavras de Pedro Matos Soares, da “impreparação da sociedade para o clima que temos e para o que vamos ter, devido às alterações climáticas”. Não é com certeza, prossegue, “em um ou dois dias que, se temos um telhado mal construído, podemos fortalecê-lo”, mas “quando temos um aviso destes um ou dois dias antes as pessoas deviam saber como atuar, e avaliar a sua vulnerabilidade. Por exemplo, se têm a casa em leito de cheia, há grande probabilidade de ser inundada; se têm um anexo construído com materiais frágeis, o mais provável é que voe tudo.” 

Assim, para além de ser essencial aquilo de que se fala sempre que há uma catástrofe — planeamento, ordenamento do território, melhor construção, aprendizagem das populações sobre o risco —, é preciso que os organismos responsáveis pela segurança comuniquem melhor.

Nesse aspeto, concede o investigador em proteção civil Duarte Caldeira, aquilo que a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, disse, em conversa com o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, sobre “a necessidade de aprendizagem coletiva a nível central, local e societal” faz sentido. Só que, acrescenta, “noutro contexto”: “Tudo isto implica aprendizagem, mas isso não pode, ser dito agora, como autodesculpabilização, porque aos governantes é exigido muito mais — a função do Estado é garantir a segurança dos cidadãos.”

Da aprendizagem que tem de existir, afirma o atual presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil, tem de fazer parte “a noção de que uma das principais vulnerabilidades que ao longo de muitos anos se tem identificado no sistema de proteção civil é precisamente no domínio da informação e comunicação públicas. Uma informação ou comunicação eficaz tem de atender à tipologia de risco em presença: não se faz um aviso a uma população marcadamente urbana quando o que se pretende comunicar é o risco florestal, e vice-versa. A informação tem de ser direcionada relativamente à caracterização do território e população a que é dirigida.

Daí que, segundo o mesmo especialista, “estas mensagens massivas e iguais para toda a gente, se não forem bem apoiadas por desenvolvimentos localizados — ou seja incluindo uma estratégia de comunicação na qual não seja descurada a consolidação da mensagem ao público-alvo a que se destina localmente — são ineficazes. É melhor haver esta mensagem que não haver nenhuma, claro; mas tem de se ter em consideração a especificidade do perfil sociológico a que se destinam. Têm de ser adaptadas localmente.”

Como? “Se calhar devemos pensar em coisas como ter um carro na rua que vai pelas ruas e terras fora, como uma aparelhagem de som, avisar as pessoas. A fazer o mesmo efeito que tinham os sinos das igrejas, alertar as pessoas para o perigo. Porque esse é o terreno próprio para o fazer, o local — os municípios têm a capacidade de chegar às pessoas de outra forma.”

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