O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu esta sexta-feira (30 de janeiro), em visita ao centro de Leiria, que o Estado tardou a compreender a verdadeira escala da destruição causada pela tempestade Kristin.Marcelo chegou a Leiria 15 minutos após a Ministra da Administração Interna (MAI), Maria Lúcia Amaral, que fez a primeira visita à região mais atingida pela intempérie precisamente nesta sexta-feira. A chegada do Presidente da República estava prevista para as 18h00, mas foi preciso esperar até às 19h30 para que Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, pudesse finalmente apertar a mão ao Chefe de Estado.Em declarações aos jornalistas, ao lado da MAI - que se manteve praticamente em silêncio durante todo o encontro com autarcas e jornalistas -, Marcelo sublinhou que o momento exige uma definição rigorosa de prioridades temporais para socorrer as populações que permanecem sem serviços básicos."Há uma coisa que é urgentíssima, é ver a eletricidade. É urgentíssimo ver as comunicações. É urgentíssimo ver a água", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, confrontado com o cenário de isolamento em concelhos como Figueiró dos Vinhos. Para o Presidente, é essencial que a colaboração entre os autarcas e o poder central resulte num levantamento imediato daquilo que tem de ser recuperado primeiro, de forma a garantir condições mínimas de sobrevivência. Questionado sobre a demora na chegada de meios ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu falhas na perceção inicial do evento. "Podia ter sido mais rápida [a resposta]? Podia ter sido mais rápida. Para sermos sinceros, não houve a noção exata da dimensão", admitiu, justificando que o que parecia estar concentrado numa "meia dúzia" de municípios revelou abranger uma área "cinco vezes superior".O Presidente recordou ainda as tragédias de 2011 e 2017 para sublinhar que, embora a Proteção Civil tenha melhorado, a desatualização de infraestruturas históricas e recentes — como o Terminal Ronaldo de Anjos ou telhados de escolas — impediu que estas resistissem à força da tempestade.Marcelo foi falando aos jornalistas enquanto atravessava o Jardim Luís de Camões, um dos mais icónicos da cidade de Leiria, e que perdeu todas as suas árvores de porte devido à tempestade. O presidente caminhou, calmamente, quando já não havia luz, para no final do percurso adiantar que "pelo que podia ver da breve visita ao centro da cidade", era impressionante não só o que a força dos elementos tinha destruído mas "o trabalho de limpeza que já tinha sido feito" pela população e autarquia..Mobilização de fundos do PRR e apoio militarPerante a urgência da reconstrução, o Chefe de Estado defendeu o recurso imediato a fundos europeus, ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e ao reforço de verbas de emergência. Marcelo Rebelo de Sousa destacou também o papel das Forças Armadas, que estão agora a arrancar com operações de alojamento e alimentação em colaboração com a Proteção Civil."O poder local é aquele que está mais próximo e tem melhores condições para agir. É preciso dar meios ao poder local e encontrar respostas", defendeu, reiterando que o esforço será "muito mais longo do que se pensava".À medida que o presidente e a ministra se aproximavam do Terminal Rodoviário de Leiria, completamente destruído pela tempestade Krestin, vários jovens foram-se juntando ao grupo de jornalistas e seguranças que ladeavam ambos os responsáveis. Desta vez, porém, não houve momento para selfies.Dentro do terminal rodoviário, Marcelo foi convidado a avaliar a dimensão dos estragos, numa altura em que a ausência de energia elétrica no edifício não facilitou a vida à mais alta figura do Estado, que contou, no entanto, com a ajuda da iluminação dos repórteres de imagem.Ao seu lado, Maria Lúcia Amaral manteve o silêncio, interrompido apenas para alguns comentários mais privados com o Presidente.Com a ameaça de novo agravamento do estado do tempo no próximo domingo e o risco iminente de inundações nas bacias hidrográficas devido ao caudal vindo de Espanha, o Presidente apelou à vigilância máxima. "O processo não terminou. Se amanhã se verificar que há uma confirmação de agravamento, a Proteção Civil tem de tentar pôr a salvo o maior número de pessoas", alertou.Foi à saída do terminal rodoviário, quando já alguns populares tinham dado pela presença de Marcelo Rebelo de Sousa, numa das suas últimas aparições enquanto Presidente da República, que os ânimos se exaltaram um pouco mais, confirmando a preocupação do presidente da Câmara de Leiria, já partilhada com Marcelo logo após a sua chegada: a população começa a acusar cansaço e ansiedade, não apenas pelo que passou mas pelas soluções que parecem tardar.Um dos habitantes de Leiria ergueu a voz para perguntar ao Presidente da República por que razão a sua visita só aconteceu três dias após a hecatombe, acusando Marcelo e Maria Lúcia Amaral de terem "esquecido Leiria. Porque é que só vieram cá agora, com jornalistas?", lamentou.O presidente e a ministra saíram do local, sem responder e, acompanhados das suas equipas e de elementos da Câmara Municipal de Leiria, seguiram viagem para tentar, já noite cerrada, ter conhecimento dos estragos já noutros pontos do concelho.Em Leiria, a luz do Castelo da cidade, que chegou a estar iluminado ao fim da tarde, apagou-se pouco depois, lembrando, talvez, que a energia elétrica ainda é um bem muito valioso e raro. E enquanto o centro da capital de distrito consegue já viver sob alguma normalidade - ao fim do dia já havia comunicações móveis, eletricidade e alguma água -, nas freguesias em redor, os próximos dias deverão continuar a ser de angústia. Para além da ausência de comunicações, água e tréguas no mau tempo, que podem agravar os estragos ainda não resolvidos, falta também energia elétrica. Ou uma luz para devolver um pouco de esperança.