São quilómetros e quilómetros de estrada varrida pela tempestade, onde se amontoam árvores, ramos, destroços, telhas, vidros e cabos elétricos. O rasto de destruição é visível desde as auto-estradas que ladeiam as zonas mais afetadas - Coimbra, Pombal, Leiria, Marinha Grande - mas torna-se mais impressionante à medida que ziguezagueamos entre as aldeias de cada concelho.A força dos ventos que chegaram aos 208 km/hora precisou de pouco mais de uma hora para transformar a paisagem num cenário que parece mais de guerra do que de inverno.Em Pousos, ali entre Marrazes e a Caranguejeira, em Leiria, há agora silêncio. Na penumbra do pavilhão desportivo, onde a luz cinzenta não chega para substituir a falta de energia elétrica, mais de uma centena de pessoas espera, de mãos postas entre as pernas e cabeça baixa, por um pedaço de tecido que permita um dia mais calmo, depois de dois dias de desespero. “Praticamente todas as casas foram destelhadas, em alguma dimensão”, contará ao DN, mais tarde, Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de Leiria (CML). Agora, a pergunta repete-se à porta do pavilhão: “É aqui que estão a dar lonas?”.É sexta-feira, 30 de janeiro. Passaram 48 horas desde que o país acordou com a região centro alagada, desflorestada e com milhares de pessoas com as casas afetadas pela tempestade Kristin. A chuva e o vento não dão tréguas, o que tem dificultado os trabalhos de auxílio e de reconstrução. Lonas e mangas de plástico reforçado vão chegando de empresas, sejam novas ou usadas, e tudo serve para dar um pouco de alento a quem está a entrar no terceiro dia sem comunicações, sem energia elétrica e sem água. “Em Marrazes está tudo destruído. Tenho duas claraboias partidas, portanto, o que me vão dar de lona não chega, mas depois posso tentar vir buscar mais”. Cláudia Marques já tem a sua senha na mão - teve sorte, porque ainda antes do meio-dia esgotaram. Já cerca de 1000 pessoas receberam ajuda com proteções, a esta altura.O sistema está montado para facilitar a logística: primeiro, tiram uma senha, à entrada do campo multiusos. Depois, esperam sentados nas cadeiras da plateia e, quando ouvem a voz megafónica de Carla Cardoso a chamar pelo seu número, aproximam-se da mesa de plástico branco que até agora servia refeições no bar. Faz-se o registo, e volta-se à espera. Quando a voz da funcionária da câmara - “também estive no processo de vacinação por causa da minha voz!”, conta divertida ao DN - se faz ouvir de novo, o número respetivo desce a uma sala no rés-do-chão e recolhe os 50 metros quadrados de lona que a CML está a dispensar.“Sabemos que não é muito, mas é para tentarmos ser justos num primeiro momento”, explica um dos funcionários da CML ao DN. Em pé, Elizabeth aguarda em silêncio que a chamem. Está dois passos atrás de Carla, porque não fala português, e pediu à funcionária que lhe indicasse quando chamassem a sua senha (A8) - “ Vocês são jornalistas? Podem aproveitar para dizer que, para quem não fala a língua, tem sido muito complexo e muito assustador?”. Está de rosto sério, cabelo pintado de roxo sob um boné quentinho. Vive na Marinha Grande desde que trocou o País de Gales por Portugal, e viu a casa ficar sem telhado na noite da tempestade. Sem comunicações, sem falar português e sem fazer ideia do que fazer, conseguiu chegar a um hotel com a filha, para passar a noite e ter acesso a informação - e ao Google Translator. Quando lhe disseram que conseguia ter lonas para proteger o telhado, pôs-se a caminho de Pousos. “Tenho a sala alagada, vamos tentar resolver da melhor forma”, dizia ao DN mesmo antes de ser chamada. .Do pouco se faz muita esperançaNo rés-do-chão, o cenário é agitado. Vários voluntários e funcionários da CML descarregam e cortam os pesados rolos de lona que acabaram de chegar num camião de transporte. É aqui que encontramos Inês, que espera pelos seus 50m2 de proteção com o filho Tomás, de três anos, sentado ao colo. Não para si, mas para os sogros. Ou a cunhada. “A nossa casa está bem - voaram umas telhas do telhado do prédio, mas não é grave -, a da minha sogra está destruída”, diz, com os olhos marejados de lágrimas. “E não temos informação nenhuma, porque não temos rádio a pilhas e não há comunicações. Eu tive sorte de saber que aqui estavam a disponibilizar lonas”, conta. “Vivo na Marinha Grande e trabalho aqui. Vim avisar o meu patrão - não há telefones a funcionar - de que não vinha trabalhar. Temos de salvar as casas pelas quais lutámos tanto. Quando entrei na empresa, uma colega minha disse-me que ouviu na rádio que estavam a dar lonas no estádio e no pavilhão, e viemos aqui. Foi sorte”, diz.“É uma destruição muito grande”, continua Inês. “Houve uma altura em que pensei que íamos morrer”, diz, enquanto respira fundo e deixa as lágrimas correrem livres. Acredita que as autoridades estão a fazer o que podem - “vimos Proteção Civil e Bombeiros, mas não chega para tudo… e há quem esteja pior que nós. Não vamos pedir ajuda, nem comida. Conosco foi só o telhado. Há pessoas que não têm paredes”, suspira enquanto esboça um sorriso. A falta de energia elétrica é o maior dos problemas. “O banho do Tomás, e a nossa higiene, resolvi com a água da chuva. Não é o ideal, mas não posso deixar de o lavar convenientemente”, resume. .Patrícia Marcelino passa, apressada, com um rolo de lona nas mãos e capuz na cabeça. Enfrenta o aguaceiro que acaba de cair com a determinação de quem tem não tempo a perder. A presidente da Junta de Freguesia de Colmeias e Memórias, no cargo desde as últimas autárquicas, está resignada. “Estamos no limite do concelho, portanto já sei que a luz vai demorar muito mais tempo a ser reposta”. Leva a lona para ajudar a comunidade que não se consegue deslocar e nas instalações da Junta deu abrigo a cinco pessoas que ficaram desalojadas. “Fazemos o que podemos”, diz enquanto entra no carro para voltar para junto das suas gentes.Inês recebe, entretanto, os seus 50 m2 de lona e de mãos dadas com o marido e o filho, segue viagem de regresso à Marinha Grande. “Já dá para tentar diminuir os estragos de hoje”, diz com um sorriso cansado, enquanto Tomás acena, divertido..Poucos por todosNuma das estradas que liga Pousos ao resto do concelho, Jorge Filipe e David Caseiro enfrentam com determinação uma árvore de grande porte que cortou a via. Já estão nos trabalhos finais - razão pela qual o carro da reportagem do DN conseguiu passar. “Já viram isto? Parece que dois homens viraram tudo ao contrário”, atira, brincando, com um sorriso sem dentes, Jorge. “Há 30 anos também houve um vendaval destes”, diz ao DN de motosserra na mão e olhos postos no barracão da antiga Materlis, a gigante de madeiras que faliu em 2018. Está completamente destruído, com pedaços de metal a abanar ao vento como se fossem folhas de papel. Paredes, portões e parte do telhado foram arrancados. Jorge e David estão a fazer o mesmo que muitos outros moradores do concelho que entre quarta e sexta-feira não tinham visto qualquer equipa da Proteção Civil, dos Bombeiros ou da Junta de Freguesia a passar por ali.“Alguém tem de limpar os caminhos, tirar as árvores…”, dizem sem parar de trabalhar no tronco caído. Enquanto nos conduzem para um outro pavilhão para mostrar a dimensão dos estragos, Jorge conta que os seus mais de 70 anos não lhe tiram a energia, e vai enumerando os estragos que já viu ou lhe reportaram e que adivinham tempos difíceis para as empresas e particulares da região. “O Estado é capaz de ajudar alguma coisa, mas deve ser só aos ricos”, conclui.Uns quilómetros antes, cruzáramos o caminho de Maria Inês e Amândio Fernandes. Aos 76 anos, camisola rosa-claro e olhos azuis brilhantes, Maria Inês segurava com convicção e preocupação umas escadas de metal. Amândio, 80 anos, tentava sair da varanda para onde tinha subido com o intuito de prender a caleira que, com a tempestade, se soltara, e ameaçava fazer cair as telhas na frente da casa. “Pedimos ajuda àqueles homens, da empresa ali da frente, mas ninguém nos ajudou”, diz Maria Inês com os olhos marejados e as mãos juntas. Depois de Amândio estar em segurança no andar de baixo, a crítica à inação: “Estiveram aqui seis homens da Junta de Freguesia, pedi-lhes para me aparafusarem a caleira - era só um parafuso de cada lado, provisórios - e nem se mexeram. Diziam que não podiam, porque não tinha autorização… ninguém nos ajudou”. Prometendo que esperariam pelo filho, quase a chegar vindo de Lisboa, para tentar arranjar o que faltava, suspiraram de cansaço. “Sabemos que estas coisas acontecem, mas não estávamos à espera. Já saímos de Angola com dois filhos no colo, emigrámos para França, viemos para aqui e olhe… agora não esperávamos por isto”. Para além da caleira, tinham uma casa-de-banho inundada porque saltaram telhas, mas nada que “um cobertor grosso” e “uma vasilha” não resolvessem até chegar ajuda. “Deus vos pague”, despediram-se, de mãos dadas, entrando na casa que esperaram que fosse apenas o seu lugar de descanso na velhice, e não fonte de mais sustos..O mesmo lamento, de ausência de ajuda, tinha sido feito logo à primeira hora da manhã por Alfredo Brites. O proprietário da Briticasa, uma empresa de construção, viu o material ser todo roubado de uma obra mesmo no centro de Leiria na noite de quarta para quinta-feira. “De ferramentas a parafusos, roubaram tudo”, conta a família Brites ao Diário de Notícias. Na obra, é visível ainda a grua e material pesado, cuja dimensão ou peso terão sido impedimento ao furto.À porta de casa, Alfredo vai dando orientações a quem aparece. “Estamos sozinhos. Estamos a ajudar os vizinhos, o meu tio...”, explica entre dois dedos de conversas com os funcionários da sua empresa ou conhecidos que vão aparecendo. Na sua habitação não houve estragos. “Graças a Deus”.“Não se viu Proteção Civil nem polícias em Leiria, na quarta-feira [o dia após a tempestade]. A Câmara Municipal de Leiria não devia ter subempreiteiros de prevenção?”, pergunta ao DN, ladeado pela mulher e a filha. “São os locais que estão a fazer todo o trabalho de reconstrução. A CML ainda não disse nada aos locais, mas disse que a preocupação é se a Feira de Maio vai existir”, atira em tom ácido.“Vai haver empresas em muitas dificuldades. Muitas mesmo. Até porque como é que nós arranjamos as coisas se as empresas de construção, grande parte delas, são daqui?”, pergunta Alfredo..Empresas a saque e descoordenação oficialOs roubos nas empresas e estabelecimentos comerciais tem sido outra das principais preocupações, a par dos danos materiais nas habitações. Nas zonas industriais, a destruição é visível. Há empresas que ficaram sem telhado, sem paredes, sem janelas. Há edifícios que estão tão vazios como se tivessem sido abandonados há anos, mas que 48 horas antes da passagem do DN eram importantes contribuidores para a economia da região.Sem portas, janelas, telhados, para além de o conteúdo dos edifícios estar exposto à força dos elementos - na Agromanso, que perdeu o telhado, a comida para os animais já não se salva da exposição à chuva - outras houve que ficaram totalmente destruídas, como o caso da Gosimat ou da Tubofuros. Na Leiritécnica, o cenário é idêntico, com parte do telhado desaparecido e o isolamento a navegar pelos riachos criados pela chuva. A Roca - um dos maiores empregadores da região - perdeu também grande parte do telhado, o que representará um impacto significativo na economia da zona. Em 2023, as exportações de bens do distrito de Leiria ultrapassaram os três mil milhões de euros, com as empresas industriais a representar cerca de um terço do volume de negócios.Os roubos estão a acontecer e a ser reportados nos vários concelhos atingidos pela tempestade, e levou até alguns empresários a pedir a ajuda do Exército para reforçar a segurança. “Até a estação de bombagem de água vimos ser roubada”, adianta ao DN Gonçalo Lopes, presidente da CML, quando questionado sobre o assunto. “É lamentável que alguém se aproveite de uma tragédia para furtar coisas nesta altura”, admite, cansado, enquanto se recosta na cadeira. As olheiras fundas, a barba por fazer e as latas de coca-cola deixam adivinhar as poucas horas de descanso nos últimos dias. O presidente da CML, que foi eleito nas últimas autárquicas com uma expressiva votação de 53% dos votos, também não via com maus olhos uma maior - e mais célere - intervenção do Exército que, na sexta-feira à tarde, ainda não estava no terreno a prestar ajuda. “Acho que nestes momentos difíceis há-que ter uma reposta mais imediata. Temos noção de que também há condicionamentos em alguns ramos das Forças Armadas, mas também acho que as pessoas não têm noção do que aconteceu”.Garante que foi reforçada a presença da polícia para garantir mais segurança, mas não tem ilusões. “Não chega para tudo”. Está sentado no quartel dos Bombeiros Sapadores de Leiria, que tem sido também o seu quartel-general desde que a tempestade destruiu o concelho que lidera. Lá fora, vão-se arrumando como Legos os carros das várias corporações que enviaram ajuda, um pouco por todo o país. “São centenas de bombeiros que têm chegado para ajudar”, congratula-se, antes de se levantar para mais uma reunião na sala apelidada, agora, de Posto de Comando. Não poupou críticas à lentidão da reposta governamental e ao decreto do estado de calamidade. (Leia a entrevista.)Quem acabou de chegar também ao quartel dos Bombeiros de Leiria foi Mauro Santos, presidente da Junta de Freguesia de Alcântara, em Lisboa. “Viemos trazer geradores e alguns bens que estivemos e estamos a recolher”, explica ao DN. “Ainda estivemos à espera da Proteção Civil, mas hoje de manhã quando falei com o Comando Nacional, não havia nada preparado”. Vieram, então, sem estar qualquer ação coordenada nacionalmente? “Viemos por nós. Não íamos continuar à espera. Liguei para cá, falei com o vereador, e arrancámos”, resume. .Energia elétrica é ausência e perigoNo centro de Leiria, a energia elétrica foi relativamente reposta, estando a cidade a ser alimentada por um posto móvel da E-Redes. É o que tem permitido também o regresso de algum tipo de comunicações - sem energia elétrica, nada de haver rede de telefone ou internet. As exceções são os locais que têm gerador ou alguns pontos que, por sorte, ainda conseguem qualquer tipo de sinal.Ao final de sexta-feira, o centro da cidade já estava contactável, mas bastava sair uns metros dessa zona para se entrar novamente num vazio de comunicações. Nas estradas nacionais, o cenário dá a resposta: dezenas de postes de alta tensão foram partidos ao meio, os cabos foram arrancados ou significativamente danificados. Sob chuva constante, a visão de cabos elétricos de alta tensão espalhados pelos vários acessos é outro cenário que assusta quem passa pela região. Árvores caídas em cima dos poucos cabos que se mantêm no ar não ajudam à sensação de que a tragédia continua à espreita.Nas aldeias em redor do concelho, a queixa é sempre a mesma: “Não vimos ninguém da E-redes por aqui desde que tudo aconteceu. Não sabemos quando vamos ter luz. Não acredito que seja nas próximas duas semanas”, conta ao DN Sara Brites. A jovem universitária, que serviu também de guia à reportagem do DN pelas zonas mais afetadas, dava ainda conta dos lugares onde os carros tinham de ser ainda mais cautelosos porque os cabos, para além de caídos, não estavam desligados e se prendiam nos espelhos retrovisores. .“Toda a limpeza que já estão a ver, foi feita por pessoas da aldeia. Esta zona de Cardosos, que foi atacada pelos incêndios do verão, levou agora com a chuva, continua” enquanto aponta para a linha onde o fogo tinha chegado há uns meses. “O que o fogo não levou no ano passado, o vento levou agora”, lamenta.Na estrada que liga Leiria à Marinha Grande, não há uma árvore em pé. Nos telhados, pontos coloridos dão conta da presença de quem tenta mitigar mais estragos, e nas estradas amontoa-se lixo, ramos, fios.Enquanto contornamos, da forma possível, os fios elétricos que se escondem sob ramos de árvores ainda no meio da estrada, vamos dando conta das filas de, pelo menos, meio quilómetro que anunciam a presença de uma bomba de combustível ainda aberta. Em algumas está a racionar-se o consumo, porque entre geradores e depósitos de carros para encher, é preciso garantir que um pouco de combustível chega a todos os que o procuram. A dificuldade de abastecimento das bombas, a falta de energia e até de meios de pagamento - sem luz e comunicações, o único meio de pagamento é dinheiro vivo - é apenas mais uma, entre tantas que as populações já enfrentam..Internet (ou a falta dela) e confortoA alimentação é uma delas. Depois de dois dias sem supermercados, algumas superfícies foram abrindo portas. O Continente do centro de Leiria, do grupo Sonae, foi dos poucos que se manteve aberto, graças à presença de geradores, e foi também graças a ele que muitos habitantes da região conseguiram não só comprar alguns bens essenciais, como comunicar com familiares e amigos. SPAR, LIDL e outros mais pequenos foram abrindo as portas nos dias seguintes, à medida da reposição da energia com recurso a fontes mais ou menos alternativas.Nestes espaços, os habitantes do centro procuram bens essenciais não perecíveis - os carrinhos enchem-se de água, enlatados, pão-de-forma, detergentes e produtos de higiene - mas também aproveitam para comer uma refeição quente, no espaço de refeições disponibilizado. Quando não estão ao telefone a dar novas a quem tentou contactar, preocupado, estão em silêncio. Comem, descansam o corpo no quente e seco espaço, e seguem caminho, de sacos cheios e olhar cansado.“Fui às compras a Alcobaça, logo na quarta-feira. Arrisquei”, contou Inês Teixeira ao DN, enquanto esperava pelas lonas. “Neste momento tenho em casa bens alimentares essenciais para 15 pessoas, que devem dar até domingo. Estamos quatro casas dentro de uma para partilharmos a comida, que para além dessa é também a que tenho numa arca, para ver se não se estraga. De outra arca que tinha, já dei tudo por perdido. Não vamos conseguir consumir tudo”, lamenta. O facto de muitas casas terem fogões elétricos está a dificultar até a tarefa de aproveitar os alimentos que, com a falta de energia, estão a descongelar de arcas e congeladores.“É um prejuízo até nesse sentido”, salienta Inês. .Nos pontos de apoio, no Pavilhão Desportivo de Pousos e também na porta 10 do Estádio de Leiria, os alimentos e outros bens essenciais vão-se agora amontoan- do, à medida que o país responde aos apelos dos autarcas da região: é preciso ajudar quem perdeu tudo, quase tudo e até quem não consegue ter acesso a bens, por questões de mobilidade ou outras. Equipas das Juntas de freguesia estão a tentar dar um maior apoio de proximidade, depois de cada reunião diária com o Presidente da Câmara de Leiria. “A falta de telecomunicações torna muito mais morosos os processos, e até a própria noção das prioridades, porque temos de esperar para estar todos juntos para ouvir o que cada um tem a dizer”, admite o presidente da CML.“Temos plena noção de que nesta tragédia as pessoas têm de ser as primeiras a fazer as suas tarefas. Uma das nossas principais corporações de bombeiros também foi atingida pela queda do telhado, o que significa que mesmo estas entidades estão limitadas na sua ação”, sublinha o autarca.Garante que o briefing diário com os presidentes de Junta de Freguesia tem conseguido colmatar as necessidades mais urgentes, mas reconhece que não vai ser possível chegar a todo o lado, para já. Até porque a total falta de comunicações durante as primeiras 48 horas acabou por condicionar muito o processo. E a chuva que não para e o vento que não abranda.“Estamos numa região onde muitas pessoas estão ligadas ao setor da construção e das madeiras e isso só nos dá orgulho e a certeza de que têm também capacidade para ajudar a reparar o nosso concelho”, diz com determinação cansada.“Mas estou preocupado com o cansaço das pessoas. Há muitos dias que as pessoas estão a passar dificuldades, e sinto que estão a ficar impacientes e frustradas”, lamenta. “Não tenho nenhuma estimativa sobre quando vamos ter energia elétrica, porque caíram muitos postes de muita alta tensão, e as reparações vão demorar. A cidade está a ser abastecida por um posto móvel da E-Redes, mas os estragos são muito grandes, e o sistema terá de ser reposto com a ajuda de geradores… não sei”, dizia na sexta-feira, ao fim da tarde, ao DN.Apesar de a cidade estar a ser alimentada com alguma energia elétrica, não havia sinais de trânsito a funcionar, grande parte dos estabelecimentos comerciais continuam fechados e a energia chega para pouco mais do que o estritamente essencial.“A água tem vindo a ser reposta com geradores próprios, mas tivemos uma rutura do funcionamento em alta” do consumo e, “ao contrário do que esperávamos, não vai ser possível ter a água reposta até ao final do dia de hoje (30 de janeiro)”.O DN confirmou que, durante o fim-de-semana, o cenário pouco mudou. Às vezes corre um fio de água em algumas torneiras, as freguesias continuam sem luz e as comunicações tardam em voltar. E o tempo piora..“Ou recuperamos sozinhos, ou com estímulo”“Uma cidade, um concelho inteiro, retrocederam décadas por causa de um evento”, resume Gonçalo Lopes. “Leiria era um dos concelhos com melhor qualidade de vida em Portugal. Dezenas de pavilhões associativos que foram construídos, com o apoio da população depois do 25 de Abril, ficaram destruídos. De repente, todo o património histórico desaparece numa noite. Igrejas que perderam telhados, torres sineiras…Recuperar o associativismo vai ser muito difícil” e ele é elemento essencial para a reconstrução de uma comunidade, considera.No mesmo sentido, os danos causados às empresas vão provocar um significativo atraso a nível económico, avisa. “A nossa região é uma das mais industrializadas do país. Por isso, quando me perguntam neste momento qual o valor estimado do prejuízo, é porque não têm noção do que aconteceu”, atira em jeito de crítica ao Executivo de Luís Montenegro.“Estamos a falar de empresas mas também de Igrejas centenárias, de árvores de porte… como é que se reconstrói património histórico?”, pergunta. “Quando fui eleito, no ano passado, tinha um plano que era o de manter a estratégia de grande desenvolvimento que o concelho já tinha. Agora, o plano é um regresso ao básico, a nível de prioridades”, lamenta. “Mas também acho que somos dos poucos concelhos com capacidade para nos reerguermos. Já passámos pelo incêndio do Pinhal de Leiria, pelo furacão Leslie, pela Covid… este é mais um desafio”, diz, com um olhar determinado. “E ou recuperamos sozinhos ou com estímulo”, atira em jeito de desafio ao Governo.“Na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, já vai estar montado um terminal rodoviário provisório perto do Estádio, para garantir que não perdemos os 300 autocarros que todos os dias passam por aqui”, adianta em jeito de exemplo. “E não esperámos por nenhum apoio para o fazer. Mas era melhor tê-lo”, acicata.Gonçalo Lopes termina o cigarro e despede-se. Há uma série de assuntos a tratar antes do encontro com o Presidente da República e com a Ministra da Administração Interna (MAI), que na sexta-feira fizeram a primeira visita a um dos conselhos mais afetados pela tempestade Kristin. A ambos deu conhecimento do seu descontentamento com a lentidão de resposta por parte dos organismos centrais, e fez saber que não conta esperar por Lisboa para começar a reconstruir. Tem estado em contacto com empresas da região que têm posto à disposição da autarquia, na medida das suas possibilidades, recursos materiais e humanos - o DN sabe que há até organizações com atividade internacional que estão a enviar para Leiria os seus recursos estrangeiros - para ajudar numa missão que devia ser de muito mais pessoas do que apenas daquelas que sofreram uma das maiores intempéries que o país já viveu.“Concorda comigo quando digo que isto pressupõe uma aprendizagem coletiva, a nível local, central e societal?”, atirou-lhe a MAI, Maria Lúcia Amaral. “O que sei é que há uma grande saturação que começa a ser muito difícil de gerir, e é preciso transparência”, retorque Gonçalo Lopes.Quando a luz se pôs sob o castelo de Leiria, agora às escuras, os responsáveis nacionais quiseram continuar a visita aos lugares afetados. Mas a falta de energia elétrica e o recolhimento de uma população exausta impediu-os de ver o que mais importa nestes dias: o desalento de quem se sente abandonado, exausto, e sem perspetivas de ver a luz - literal e figurada - que lhes pode alimentar a esperança.“Ninguém nos veio ajudar”, lembravam Maria Inês e Amândio.