A presença de alunos imigrantes na escolaridade obrigatória em Portugal continua a aumentar. Segundo dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação disponibilizados ao DN, são 157.000 alunos matriculados no ano letivo passado. O número representa uma subida de 12% em comparação com o 2023/2024, quando estavam matriculados 140.000 alunos de nacionalidade estrangeira.A tendência não é nova e acompanha a subida no número de imigrantes em Portugal a cada ano, apesar de a Agência para Integração, Migrações e Asilo (AIMA) ainda não ter divulgado o relatório anual com os dados atualizados. Ainda segundo o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, a “evolução foi particularmente rápida nos últimos anos: em dois anos letivos, o número de alunos estrangeiros duplicou, de 70 mil para 140 mil”.Atualmente, quase um em cada seis alunos em Portugal já é estrangeiro. Dois deles são os filhos de Maurício Tavares, vindos do Brasil há cinco meses. Com 12 e 13 anos de idade, estão na escola Eugénio Castro, em Coimbra. “Eles gostam muito, se adaptaram rápido”, conta. “A escola tem um programa de integração para alunos estrangeiros, o que ajuda muito na adaptação”, complementa o gestor de obras. A educação pública foi justamente um dos fatores que levou em conta na escolha de Portugal para viver com a família.Apesar de a nacionalidade brasileira continuar a ser a maior nas escolas entre os estrangeiros, a cada ano aumenta também a diversidade de origens dos novos alunos e alunas. Ainda de acordo com os mesmos dados do ministério, sem contar os países de língua oficial portuguesa, “as nacionalidades com maior aumento em número e percentagem do total são as da Índia, Venezuela, Paquistão, Bangladesh, Colômbia, Argentina e Rússia”. Em média, as escolas têm alunos de 19 nacionalidades, quase o dobro do que tinham em 2018/2019, quando eram 11 nacionalidades). Em 2023/2024, houve 41% das escolas com 20 ou mais nacionalidades. Atualmente, há registo de escolas com alunos até 46 nacionalidades.Na visão de Mariana Carvalho, da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), as escolas acolhem bem os alunos, mas falta uma previsão de quantos alunos vão entrar. Isso porque as matrículas não ocorrem somente no período regular, uma vez que alguns países iniciam o ano letivo em fevereiro, não em setembro. “Muitas vezes no início do ano existe uma previsão do número de alunos, mas à medida que novos alunos chegam durante o ano, fica difícil fazer a previsão das necessidades a nível de sala de aula e até mediadores culturais”, explica ao DN. Este foi um dos argumentos utilizado pelo Governo de Luís Montenegro para limitar o reagrupamento familiar, proposta entretanto chumbada pelo Tribunal Constitucional e que será votada de novo possivelmente em setembro..Entraves burocráticosAinda segundo Mariana Carvalho, o trabalho das escolas vai além do ensinar, por causa das dificuldades burocráticas enfrentadas pelas mães e pais. “Portugal acolhe sempre muito bem todas as pessoas, nomeadamente os alunos. Aquilo de que nós nos vamos apercebendo é que depois acaba por cair na escola todas as situações em que há determinadas dificuldades, como a documentação”, sublinha. “Muitas vezes há situações que até não estão resolvidas do ponto de vista processual, documental, jurídico, mas que a escola acaba por acolher. Podemos dizer que estes assuntos caem na escola porque, muitas vezes, acabam por ainda não ter documentos, enfrentam muita burocracia”, explica. Segundo Carvalho, “as escolas fazem o que podem” neste sentido..“Preocupa que o preconceito agora seja também contra as crianças”, diz líder da comunidade Sikh .Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (Andaep), destaca a mesma situação. “As escolas ficam também com este papel de ajudar os pais”, assinala. “Felizmente, temos neste momento nas escolas públicas portuguesas profissionais que podem ajudar nesse sentido. Nós temos assistentes sociais, educadores sociais, psicólogos, que podem ajudar, de facto, a desbravar algum caminho burocrático, que em Portugal é imenso”, analisa o presidente da Andaep..Já de acordo com a presidente da Confap, os entraves burocráticos, especialmente a demora na documentação por parte da AIMA, causam outros problemas de acolhimento. “Nas escolas, por serem públicas, é possível resolver, mas nos casos dos ATL, por exemplo, por serem entidades privadas, é mais difícil, isto prejudica os pais que precisam de trabalhar para além do horário escolar”, contextualiza.Ao mesmo tempo, ambos os entrevistados reforçam que há um esforço para envolver mais os pais e mães na vida escolar. “Podem e devem participar, é isso que nós gostaríamos de mudar. Nós queríamos que esses pais também se sintam envolvidos, porque nós não olhamos para a nacionalidade e só ouvindo e tornando-nos próximos, é que conseguimos também perceber e dar uma ajuda de facto”, ressalta Mariana Carvalho.“Queremos também a integração dos pais. As escolas têm atividades que promovem junto desses alunos e dos pais desses alunos, porque aqui a escola também, na minha opinião, tem a obrigação de, para além de integrar os jovens, dar-nos a conhecer, a nós a aos nossos hábitos e, ao fim do dia, praticarem a nossa língua”, salienta Filinto Lima..O representante dos diretores ainda destaca como medida importante a criação dos mediadores culturais, que começaram atividades no início deste ano. O Governo confirma que o serviço vai continuar, mas ainda não foi dada indicação formal para que os contratos possam ser renovados ou novos concursos abertos.Desinformação e preconceitoSegundo a representante dos pais, não chegam reclamações sobre o aumento do número de crianças estrangeiras nas escolas. Mas, existe a desinformação, nomeadamente de que os alunos de fora “passam à frente dos portugueses” por vagas nas escolas. “Nós sabemos que o número de vagas tem sido escasso perante a procura dos alunos e há muita desinformação acerca dos alunos estrangeiros, que temos sempre de clarificar. Não é verdade que alunos estrangeiros passam à frente dos alunos portugueses. Isto não existe, a nacionalidade não é um critério de passar à frente, não é um critério”, vinca Mariana Carvalho.Filinto Lima afirma que não vê preconceito dentro das escolas, entre as crianças. Já situação diferente é entre adultos e fora do ambiente escolar. “Eu sinto esse preconceito em alguns adultos. Não sinto esse preconceito dentro das escolas. Mas sinto esse preconceito, sobretudo, por exemplo, num debate político. Acho que os jovens lidam bem com a diferença”, analisa.Ao mesmo tempo, destaca que há um esforço das escolas neste sentido. “O caminho é o de aceitar a pessoa que é diferente. E nós, nas escolas, também ensinamos como integrar da melhor forma e como lidar com o preconceito que na sociedade, hoje em dia, é cada vez mais recorrente, sobretudo na esfera política”, explica.Em entrevista ao DN no passado, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, afirmou que falhar na integração dos alunos que vêm de outro país é também falhar com a política migratória de Portugal. “Se nós falharmos na integração e no sucesso escolar destes alunos, nós vamos falhar a nossa política de imigração”, disse na altura. Ao mesmo tempo, destacou as vantagens desta procura do país por parte de pessoas vindas de diversas localidades do globo. “É também a escola ser mais diversa e mais plural e mais cosmopolita. Porque também é uma riqueza enorme que temos nas nossas escolas. Agora temos estas comunidades tão diversas. O país está a mudar, e é ótimo. Ou seja, porque há muita gente que quer vir para Portugal e quer viver cá. E, por isso, temos de, como país que tem um problema demográfico sério, temos de conseguir aproveitar esta oportunidade”, destacou na entrevista.. amanda.lima@dn.pt.Ministério Público abre inquérito a André Ventura e Rita Matias. Líder do Chega convicto de que será arquivado.Governo dá autonomia às escolas para alargar proibição de smartphones a alunos do 3.º ciclo