Acampada Porto diz que diálogo entre Governo e oposição é "vitória parcial". Lisboa promete continuar "luta"
O anúncio do primeiro-ministro, Luís Montenegro, de que vai reunir-se com líderes de PS e Chega, na quinta-feira, para ouvir propostas sobre habitação foi visto esta terça-feira, 3 de novembro, por um porta-voz do movimento da Acampada do Porto como uma "vitória parcial".
"É uma vitória parcial. O Partido Socialista e o Chega não têm propostas que nós consideremos que vão suficientemente ao encontro das nossas reivindicações, mas ainda assim pode ser que alguma coisa de positivo saia dali e nós sabemos e compreendemos que é esse o funcionamento dos representantes eleitos. Nós não somos representantes eleitos, nós somos uma mobilização popular que ainda assim se organiza para apresentar propostas sérias. Quando chegar a nossa vez de ser ouvidos, teremos coisas a dizer", declarou Sérgio Bastos aos jornalistas.
Bastos respondia quando questionado sobre este anúncio de diálogo, após ler uma comunicação sobre o que disse Luís Montenegro, pelas 20:00, e considerou que na Acampada são todos "pessoas esperançosas e pacíficas" que esperam "resultados positivos de todas as audiências e diálogos".
"Sabemos as limitações de orientação política que este Governo tem. Não estamos à espera de que conversas venham a produzir grandes resultados. Do Governo, queremos exigir conquistas materiais, resultados. E isso virá, certamente, imagino eu, pela via do diálogo, nos trâmites que a assembleia popular legitimar, e que o senhor primeiro-ministro entenda exigir", acrescentou.
Por dizer, adiantou ainda, ficou, por parte de Luís Montenegro, que de fora das políticas para a habitação do atual Governo fica uma "maioria social" que se vê representada pela Acampada.
"Luís Montenegro diz que o Governo auscultou a população, que expôs o seu programa e que não acordou agora. Arrisco-me a dizer que auscultou os fundos imobiliários, expôs um programa incompleto e enganador e que, infelizmente, continua a dormir para a realidade do acesso à habitação. (…) Falou em ter aprovado sete vezes mais apoios do que em anos recentes, mas sem teto ou moderação nas rendas, é o mesmo que dizer que aprovou sete vezes mais subsídios aos senhorios", criticou.
Sérgio Bastos comentou ainda a "preocupação com sossego, ordem, salubridade, preservação do espaço público" que o governante manifestou, por a Acampada a partilhar.
"Está ótimo para vir ajudar o nosso grupo de trabalho de limpezas ou para sugerir à polícia que não nos espanque", ironizou.
Considerando que as pessoas não se alimentam de 'ratings', disse que o movimento propõe "juros baixos e medidas fiscalmente responsáveis", porque "comem pão e vivem em casas".
"É muito difícil aceitar um primeiro-ministro que não sabe que pão e casa estão muito caros para quem trabalha", atirou.
De resto, a assembleia popular, com cerca de 150 pessoas, deliberou hoje permanecer em resistência na Praça D. João I, onde têm protestado pelo direito à habitação desde 10 de outubro, mesmo tendo sido sujeitos a três cargas policiais, e manter montadas as tendas, mais de uma dezena, que já estão lá desde o dia anterior, tendo a polícia consentido a pernoita na madrugada passada.
Foi ainda votada, em modo de "sondagem", a possível formação de um Comité de Representação, para eventuais reuniões, como com o Presidente da República ou o autarca do Porto, Pedro Duarte, mas sem decisão final.
Já o movimento da Acampada de Lisboa disse esta terça-feira que o anúncio de Luís Montenegro de que vai ouvir propostas dos partidos sobre habitação não responde às suas reivindicações, adiantando que vão continuar a lutar.
"Hoje, não ouvimos da voz do primeiro-ministro nenhuma razão para a desmobilização. Portanto, vamos continuar nesta luta e vamos continuar nesta luta aqui, nesta praça, que estamos a ocupar há mais de duas semanas, que é já um espaço construído de luta, de solidariedade, de apoio entre todas as pessoas", disse Teresa Mamede, uma porta-voz do movimento.
A ativista falava na Praça D. Pedro IV, após o anúncio de Luís Montenegro de que vai ouvir os principais partidos no parlamento sobre as suas propostas relacionadas com a habitação.
O movimento, que tem promovido concentrações no Rossio, realiza hoje mais uma instalação de tendas, a exigir, entre outras medidas, a revogação da nova lei do arrendamento e da facilitação dos despejos.

