As críticas aos que fazem “reformismo de boca” marcaram o discurso com que Luís Montenegro encerrou as Jornadas Parlamentares do PSD, defendendo que o “reformismo de ação não é para todos”. Numa intervenção com referências implícitas às críticas de Passos Coelho, que mais uma vez ficou por nomear, disse que “temos os nossos amigos à perna” e “até alguns familiares”, mas fez sobretudo mira à “muita reivindicação de mudança e pouca coragem para mudar” que diagnosticou aos partidos da oposição e aos parceiros sociais. Foi o que o primeiro-ministro pediu no que toca à legislação laboral, ao discursar no hotel de Caminha onde o grupo parlamentar do PSD se reuniu durante dois dias. Para o também líder social-democrata, só com essa reforma será possível um Portugal mais competitivo, com uma economia mais produtiva e que permita “chegar às pessoas”, pela valorização dos salários e redução dos impostos sobre o rendimento do trabalho. “Não vale a pena os agentes políticos virem incutir experiências que a História já demonstrou não servirem”, disse Montenegro, inquirindo se alguém quer continuar a ter Portugal a aparecer num estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como 37.º entre 39 países no que toca a rigidez laboral.Atribuindo as dificuldades de atrair investimento estrangeiro e de ter empresas “a ganhar a batalha da produtividade” à rigidez laboral que identifica em Portugal, o primeiro-ministro e líder do PSD perguntou se “não vale a pena darmos um bocadinho de nós” para assegurar o aumento da competitividade.Por isso, anunciou que o Governo vai voltar a reunir-se no início da próxima semana com os parceiros sociais sobre a lei laboral, sem querer “eternizar discussão”, mas apostado em “esgotar todas as possibilidades de aproximação”. Ao fim da tarde, a ministra do Trabalho convocou a UGT e as quatro confederações empresariais para reunião na próxima segunda-feira. Além do tabuleiro da concertação, também no xadrez parlamentar Montenegro optou pelo otimismo, um dia depois de André Ventura e José Luís Carneiro terem deixado claras indicações de que a alteração ao Código do Trabalho pretendida pelo Governo será rejeitada na Assembleia da República. Referindo-se à “competição para ver quem consegue ser mais ouvido” pelo Governo e pelos grupos parlamentares que o suportam, que disse ser “enorme entre o segundo e terceiro maiores partidos em representação parlamentar”, defendeu que, se assim não fosse, Chega e PS “descartariam a possibilidade” de dialogar. “Temos conseguido fazer acordos ou com uns ou com outros”, disse, pela “capacidade de entendimento político, com maturidade, sentido de serviço ao país e de responsabilidade”.Montenegro também se referiu ao “reformismo humanista e personalista” das iniciativas do PSD em temas como a regulação do acesso de jovens às redes sociais e aos seus efeitos na formação das novas gerações. Para o primeiro-ministro, é preciso “estarmos à altura de construirmos um futuro melhor para aqueles que estarão no nosso lugar nesse futuro”.Também abordado por Luís Montenegro foi o impacto da crise internacional provocada pelos ataques ao Irão no preço dos combustíveis, comprometendo-se com uma fiscalização capaz de evitar especulação, “para que as nossas famílias e as nossas empresas não vejam a sua atividade afetada de forma tão intensa”. E a reflexão sobre o PTRR, descrito “como um projeto de transformação, de reformismo e de preparação do país para sermos mais competitivos”..Jornadas tiveram Portas e ‘influencer’ .O último dia das Jornadas Parlamentares do PSD arrancou com três ministros (Manuel Castro Almeida, Miguel Pinto Luz e Maria da Graça Carvalho) a debater o PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, moderados pela deputada Ana Rita Cabilhas, enquanto a noite anterior tivera um jantar em que o comentador televisivo e antigo vice-primeiro-ministro Paulo Portas falou dos desafios do “mundo perigoso”.Também na terça-feira houve uma mesa-redonda sobre “As Crianças e os Ambientes Digitais”, com a deputada Eva Brás Pinto a moderar as intervenções do inspetor-chefe da Polícia Judiciária Hugo Silva, do neurologista pediátrico Tiago Proença dos Santos, da presidente da Associação Mirabilis Mariana Norton e da atriz e influencer Liliana Santos.