A dois dias do arranque oficial de campanha presidencial, o DN tenta perspetivar o que podem ser os discursos e pontos a favor e negativos dos principais candidatos a Belém. Para isso, consultou André Azevedo Alves e Marina Costa Lobo, que concordam em duas ideias fundamentais: a Justiça, com várias investigações e considerações dos próprios candidatos, domina e terá peso eleitoral; e Marques Mendes, apesar do favoritismo para a segunda volta, tem sofrido pela proximidade ao Governo. “A Justiça continuará a ser dominante e, sem ser a minha área de especialidade, há divulgações de investigações, timings, coincidência em períodos eleitorais de notícias seletivas, e isso alimenta o cansaço do eleitorado que tem uma perceção, não necessariamente de ilegalidades, mas de interesses”, começa o professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Azevedo Alves vê, nesta fase, que “a maior surpresa seria André Ventura não estar na segunda volta”, considerando que “o cenário de sonho” do líder do Chega seria enfrentar Marques Mendes. Mesmo que a sua “taxa de rejeição seja alta e quase impossibilite uma eleição”, ter o social-democrata permitiria a que Ventura “dissesse que todo o regime se unia em torno de um candidato, o que poderia ser um salto para uma pré-campanha e ser, depois, primeiro-ministro”, advoga, defendendo que falar de “negociatas” só beneficia Ventura. “Temos visto nos candidatos o reforço da mensagem política de André Ventura, que tem solidificado o seu eleitorado”, conclui.Marina Costa Lobo vê a Justiça com preponderância incomum em Presidenciais. “Tem havido uma judicialização da política. Tem a ver com o antes e o depois do caso Sócrates. A natureza dos candidatos, em eleições anteriores, não foi tão relevante para isso. Cenários de reeleição são sempre diferentes”, detalha, corroborando que André Ventura ganha lastro com este facto: “O que vimos no passado é que estas intervenções no Ministério Público são recorrentes e têm sido desenvolvidas a par do crescimento do Chega. Quem está envolvido no Estado é alvo de investigações. O Chega não está no governo, escapa e beneficia mais com as notícias de possível corrupção”, lê a investigadora coordenadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ainda que não estabeleça favoritos a Belém: “Como as sondagens indicam, os debates não fizeram emergir um só candidato. Tudo pode fazer a diferença, nomeadamente investigações e notícias de Justiça. As sondagens indicam diferenças de 1%, qualquer alteração de voto pode implicar cair da segunda volta.”Os dois politólogos analisam Marques Mendes, favorito à segunda volta ao lado de André Ventura segundo Azevedo Alves, e identificam que o social-democrata pode ficar prejudicado por alguma desconfiança dos portugueses quanto ao governo. “Vão entrar pessoas de peso no PSD na campanha, mas há a noção de que há algum eleitorado do PSD que votará Cotrim de Figueiredo. Poderá haver uma dramatização do voto útil por parte de Marques Mendes - e também de Ventura -, dizendo que corre o risco de a direita não estar na segunda volta. Ainda assim, vai insistir na experiência e institucionalidade, mas as notícias relativas ao governo podem prejudicá-lo. É o seu calcanhar de Aquiles. Precisa de individualizar-se do governo”, considera Marina Costa Lobo. “É difícil para Marques Mendes distanciar-se. Percebeu-se que era o candidato de Luís Montenegro. Está longe de reunir consenso no PSD, Passos Coelho não o apoia, tal como muitos passistas. Rui Rio também não. É um candidato deste primeiro-ministro. Logo, nesse domínio, adotará críticas nas matérias que sejam impopulares. Em tudo o resto estará em silêncio e alinhado com Montenegro”, perspetiva André Azevedo Alves, adiantando que para o ex-líder dos sociais-democratas “o problema é não conseguir ser credível no eleitorado base do PSD, que chegava para passar à segunda volta.”Gouveia e Melo, unanimemente, perdeu com os debates. “Nem foi no debate com Marques Mendes, onde foi hostil e marcou pontos. A erosão já vinha de outros tempos. Não tem a mesma experiência política dos adversários e tentou ser um político típico, essa estratégia não funcionou e duvido que se possa mudar até dia 18”, considera o professor da Católica. Azevedo Alves insiste que “desbaratou o capital”, que “passou de favorito a potencial candidato fora da segunda volta” e que as “presenças de Alberto João Jardim, Rui Rio e Isaltino Morais prejudicaram”, porque complicaram a afirmação de se dizer “fora do regime.” Crê que, em termos de discurso, “tendo feito essa opção de acusação tem de ir com ela até ao último dia de campanha. Se deixar cair o tom e as acusações perde de certeza”, concretiza. “Gouveia e Melo já vinha a desacelerar. Surgem estas notícias [ajustes diretos na Marinha], de investigações, que mancham, que reduzem a perceção de que há um total alheamento do sistema. Fizemos um inquérito em setembro de 2025 e vê-se que Gouveia e Melo pescava nos eleitores que votavam quer no PS ou no PSD. Acredito que o PS e PSD perceberam que a intenção muito elevada era à conta deste eleitorado. A recuperação de Seguro e Marques Mendes é feita à custa do almirante”, lembra a investigadora da Universidade de Lisboa. Costa Lobo concorda que o uso da expressão “lobista” em direção a Marques Mendes colocou o próprio almirante “no foco” das acusações. “Há sempre consequências”, explica.Seguro corrige discurso, mas vê antipatia à esquerda“Os debates não desfavoreceram António José Seguro. Pelo contrário. Isso pode ajudar em apoios e num voto útil à esquerda. Mas corrigiu o tiro. Não podia apresentar-se como centrista e isso tornou-se notório com o avançar da campanha”, analisa Marina Costa Lobo, não vendo desistências possíveis da esquerda. “Não estão a dar intenções disso. É um candidato difícil para a esquerda, é da ala mais moderada do PS, isso para a esquerda significa estar muito longe, mas é preciso que os candidatos sejam comparados entre si e não com um ideal abstrato. A esquerda fez candidaturas com interesses partidários”, critica. “Podiam ser as Presidenciais, em muitos anos, com a hipótese de a esquerda eleger para Belém. Porque quem for à segunda volta com Ventura vence. Percebo as candidaturas de Bloco, Livre e PCP, mas só se torna racional ir até ao fim se preferirem que Seguro não seja Presidente”, atira Azevedo Alves, que considera que, vencendo, “Seguro tem muito mérito” e que “numa segunda volta terá menos rejeição do que haveria com Ana Gomes ou Sampaio da Nóvoa”. Ainda assim, salienta que é preciso “superar a hostilidade dentro do próprio partido e agregar a esquerda.”Cotrim de figueiredo na discussãoMarina Costa Lobo considera que entrarão personalidades da campanha e que a Iniciativa Liberal não as tem. Logo, entende que a corrida a Belém é a quatro. André Azevedo Alves coloca Cotrim de Figueiredo na discussão. “É um candidato que vale mais do que o partido. Cotrim tem o voto da IL e entra no eleitorado da AD, mas também do Chega. Está consciente da fidelidade pessoal do eleitorado a André Ventura, portanto terá de procurar ganhar com o argumento da falta de credibilidade [de Marques Mendes]. É no espaço da AD que pode ganhar”, vinca ao DN, apontando que “não deu seguimento ao levantar a questão profissional de Marques Mendes” no debate entre ambos. “Tinha de manter o tom e foi o debate que lhe correu menos bem”, finaliza.Carneiro e PS debaixo de fogo. “Se Marques Mendes passar à segunda volta deve-o ao PSD, se Seguro passar deve-o apenas a si”, começa por dizer André Azevedo Alves, com críticas ao PS e às palavras de José Luís Carneiro que, ao DN, no balanço de seis meses como secretário-geral, apelou ao voto até de sociais-democratas. “A atual liderança do PS tem um cenário complicado. Esse fracionamento vê-se até quando apela ao centro-direita. Há camaradas de partido que dizem que votam em Seguro porque é o melhor que está nesta eleição. Isso leva a uma desmobilização, é contraproducente. Até no panfleto, a referência a Presidenciais é pequena e sem foto de Seguro. Mostra o nível de empenho”, considera. “Carneiro e Seguro não estão separados ideologicamente. Era evidente que Carneiro deveria ter apoiado Seguro logo que passou a secretário-geral. O PS apoiou tardiamente. Se passar à segunda volta é porque o eleitorado de esquerda concentrou o voto”, corrobora Marina Costa Lobo.Esquerda discute o mesmo eleitoradoAndré Azevedo diz que Catarina Martins “provou ter mais jeito para os debates” do que os restantes candidatos apoiados por PCP e Livre, elogiando-lhe os atos “cénicos”. Vinca que a ex-coordenadora “é o principal ativo do Bloco de Esquerda”, como tal as “intenções de voto coexistem” apesar de estar o Livre mais representado no Parlamento. “Se tiver 5% pode dar um balão de oxigénio ao partido, até financeiramente. O partido joga pela sobrevivência”, comenta.Aglomerando “a falta de visão estratégica da esquerda” na eleição presidencial, Marina Costa Lobo disse não esperar “grandes alterações de discurso” destes candidatos ao longo da campanha. Considerando como “improváveis as desistências da esquerda em prol de Seguro”, André Azevedo Alves diz mesmo que a saída do PCP “é a menos provável pelo espaço político que ocupa.” Recorde-se que o partido recusou qualquer coligação autárquica para outubro de 2025.Jorge Pinto deixou entender, pouco depois de se anunciar candidato, que poderia haver uma desistência em prol de Seguro se o candidato do PS se apresentasse como de esquerda e se outros também abdicassem. Depois, desfez a ideia. “O racional no Livre pode ser mais forte. Até há uma oportunidade para marcar diferenças e dizerem que não são sectários, que percebemos o que está em jogo. A desistência de Jorge Pinto seria bastante racional”, advoga André Azevedo Alves. .Da fragmentação à legitimidade: os desafios do próximo Presidente.Debates. Seguro agrega à esquerda mais do que Marques Mendes à direita. Jorge Pinto foi a surpresa.Presidenciais. Marques Mendes chamou "desesperado" a um almirante ao ataque acusando o rival de "lóbis".Primeira volta das presidenciais deve ter vencedor menos votado de sempre, mas acima do milhão