Luís Neves avança com queixa-crime. "Mais uma tentativa de condicionamento", reage Ricardo Carrilho
O ministro da Administração Interna, Luís Neves, vai avançar com uma queixa-crime contra o ex-secretário-geral do MAI, Ricardo Carrilho, por declarações com conteúdo “calunioso e difamatório” e ainda por “grotescas falsidades”.
"Considerando que grande parte destas declarações contém grotescas falsidades, conteúdo calunioso e difamatório, bem como violação de deveres funcionais, que se mantêm, não obstante o ex-secretário-geral ter cessado funções, mais se informa que serão igualmente acionadas as competentes participações criminais", disse o gabinete do ministro ao Expresso.
Contactado pelo Diário de Notícias, Ricardo Carrilho disse apenas que considera a queixa-crime "como mais uma tentativa de condicionamento no apuramento da verdade", escusando-se a mais comentários sobre o assunto que marcou a última semana, na qual se aassistiu a uma troca de acusações entre o Ministério da Administração Interna e o ex-secretário-geral, depois de este ter sido exonerado do cargo na passada segunda-feira.
A justificação oficial do MAI para a saída de Carrilho foi uma "reorganização" da Secretaria-Geral, mas a decisão surgiu no mesmo dia em que o Expresso tinha noticiado um "conflito aberto" entre Neves e Carrilho, incluindo as missivas, requerimentos e mensagens trocadas entre o então secretário-geral e o ministro sobre a gestão do SIRESP.
Ex-secretário deu várias entrevistas ao longo da semana
Apesar de o gabinete de Luís Neves não especificar quais foram as declarações caluniosas na base desta decisão, Ricardo Carrilho, ao longo desta semana, deu entrevistas a diversos órgãos de comunicação social sobre esta situação, incluindo ao Diário de Notícias.
Nesta entrevista ao DN, Carrilho considerou que o seu processo foi "particularmente kafkiano" e que o seu afastamento serviria "para que a Secretaria-Geral se torne ineficiente".
"Não consigo considerar de outra maneira. Se a justificação é introduzir uma nova dinâmica numa organização que apresenta resultados de excelência, a pergunta é inevitável: o que se pretende?", disse então.
À SIC Notícias, o ex-secretário-geral disse que a sua demissão tinha sido "ilegal" e acusou o Ministério de preferir decidir em reuniões em vez de comunicações escritas sobre o SIRESP, assim como de procedimentos que considera ilegais. "Eu tive problemas, foi com ilegalidades e com informalismos", disse à televisão na terça-feira.
Ao Expresso, Carrilho falou que estava a denunciar "esquemas de favorecimento e clientelismos" dentro do MAI e que o ministro não quis desmantelar.
Os casos de Neves e a Construbarcelos de volta à ribalta
Esta sexta-feira, numa entrevista ao semanário Nascer do Sol, o ex-secretário resgatou outro caso que deixou Luís Neves sob constante escrutínio durante todo este verão: o caso da Construbarcelos, que culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito que esta semana tomou posse.
"O senhor ministro falou-me da Construbarcelos muito antes de o escândalo rebentar. Foi numa reunião a dois, logo na primeira semana após a tomada de posse", disse ao semanário Ricardo Carrilho, explicando que essa empresa tinha sido trazida à conversa devido a projetos de obras em esquadras da PSP e da GNR.
Segundo o ex-secretário-geral, o ministro da Administração Interna queria, alegadamente, colocar a Construbarcelos nesses projetos por ajuste direto. Questionado sobre se era uma situação parecida à que Luís Neves alegadamente fez na PJ, Carrilho disse que sim.
"Disse-lhe que não ia aceitar fazer ajustes diretos uma vez que não havia fundamento legal para o efeito. Penso que foi isso que ditou a minha sentença de morte", sublinhou.

