Tancos: frenesim no Parlamento por causa da audição do chefe do Estado-Maior do Exército

O presidente da Comissão de Defesa convocou para esta quinta-feira às 11.30 uma reunião urgente dos coordenadores dos partidos para agendar as audições com Rovisco Duarte, Helena Fazenda e Graça Mira Gomes. CDS acusa PS de querer adiar tudo para setembro

O CDS e o PS estão num declarado braço-de-ferro por causa das audições pedidas com urgência ao chefe do Estado-Maior-General do Exército (CEME) pelos centristas, e às secretarias-gerais do Sistema de Informações da República (SIRP) e do Sistema de Segurança Interna (SSI) pelos socialistas. Em causa está o facto de, segundo o Ministério Público (MP), haver material perigoso roubado em Tancos que ainda não foi recuperado, o que vem contrariar declarações anteriores de Rovisco Duarte.

Depois de uma troca de acusações entre os coordenadores para esta área do PS, Ascenso Simões, e do CDS, João Rebelo, a que o Expresso deu ontem destaque, já na tarde desta quarta-feira o presidente da Comissão de Defesa Nacional (CDN), o social-democrata Marco António Costa, veio convocar uma reunião urgente de todos os representantes partidários para que agendassem as audições.

O CDS não recua em relação à "urgência" em ouvir o general, estando desde o dia 17 a aguardar o agendamento. Questionado pelo DN, o presidente da bancada parlamentar centrista, Nuno Magalhães, diz acreditar que a audição "será ainda realizada antes do dia 31", data em que terminam os trabalhos na Assembleia. "Caso contrário", assinala, "só reforça a ideia de que o PS tem algo a esconder sobre esta matéria e, nesse caso, não podemos excluir nada, incluindo uma comissão de inquérito".

Nesse mesmo dia, o PS também requereu audições urgentes com Helena Fazenda e Graça Mira Gomes, tendo em conta que, segundo um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, citado pelo Expresso, o MP alegava que este material ainda em falta - granadas e explosivos - punha em perigo a "segurança nacional".

A iniciativa de Marco António Costa, que não respondeu às perguntas do DN, surgiu em reação a um requerimento do PS, subscrito por Ascenso Simões, que deu entrada na CDN logo após a hora de almoço desta quarta-feira, a solicitar uma "reunião urgente e presencial da Mesa com os coordenadores dos grupos parlamentares, com o objetivo de se promover uma discussão ponderada sobre a urgência dos agendamentos indicados". O deputado salienta porém que essas audições "só podem acontecer, como facilmente se entende, todas no mesmo dia e em hora a combinar com as personalidades indicadas". Contactado pelo DN, também não quis prestar declarações.

Para o CDS "isto não é mais do que um expediente para ganhar tempo e protelar tudo para setembro". A audição de Rovisco Duarte tem um objetivo muito claro, que é o de esclarecer a discrepância das informações. Os centristas também pediram que fosse entregue na CDN a lista do material recuperado que, segundo o MP, foi elaborada pela Polícia Judiciária Militar. Comparando esta com a lista do primeiro inventário do material furtado, será possível verificar o que falta.

Ao que o DN apurou através de vários contactos que fez junto de setores policiais, militares e de informações, se o PS insistir em que as audições sejam no mesmo dia, será praticamente impossível que se realizem até ao dia 31, uma vez que nem todos os responsáveis têm disponibilidade de agenda. No caso de Rovisco Duarte, segundo confirmou fonte oficial do seu gabinete, "irá ao Parlamento quando o convidarem/convocarem".

A mentira involuntária

Numa conferência de imprensa a 31 de outubro passado, após a PJM ter anunciado que tinha recuperado a maior parte do material furtado dos paióis no dia 28 de junho, o general Rovisco Duarte revelou que apenas faltavam as munições de 9 mm. Entre esse material alegadamente devolvido pelos suspeitos havia também uma caixa de explosivo plástico que não tinha sido inventariada pela PJM no dia do roubo. O Exército acabou por assumir que os inventários sobre este material armazenado tinham deficiências de rigor.

Questionado sobre se, quando prestou estas declarações, o CEME sabia que havia mais material em falta ou se desconhecia, o seu gabinete não quis comentar. No entanto, vários contactos que o DN desenvolveu junto de fontes ao mais alto nível das Forças Armadas e próximas da investigação judicial asseguram que Rovisco Duarte não foi informado pela PJM. "O Sr. General não sabia mais do que aquilo que revelou nessa altura", sublinha uma dessas fontes. Esta será uma das questões a esclarecer na audição parlamentar.

Contactada pelo DN, para clarificar se tinha comunicado ou não ao CEME todo o material ainda em falta, a PJM não respondeu.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Alemanha

Lar de Dresden combate demência ao estilo Adeus, Lenin!

Uma moto, numa sala de cinema, num lar de idosos, ajudou a projetar memórias esquecidas. O AlexA, na cidade de Dresden, no leste da Alemanha, tem duas salas dedicadas às recordações da RDA. Dos móveis aos produtos de supermercado, tudo recuperado de uma Alemanha que deixou de existir com a queda do Muro de Berlim. Uma viagem no tempo para ajudar os pacientes com demências.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.