Muitos sintomas, e muito variáveis. A covid-19 não é só nova, também é complexa

Investigadoras da Universidade do Porto fizeram o primeiro grande retrato da sintomatologia e do conjunto de outras doenças que estão associadas à infeção pelo novo coronavírus, e o que encontraram foi uma espécie de caos. São necessários mais estudos, garantem. Este texto foi publicado originalmente no dia 31 de maio e faz parte de um lote de trabalhos relacionados com a covid-19 que o DN está a republicar.

São muitos e variados os sintomas, que chegam às três dezenas, e muitas também as doenças que podem estar associadas à covid-19: nada menos do que 35. É a realidade da nova doença que tomou conta do mundo - os números quase falam só por si - e que um grupo de investigadoras da Universidade do Porto acaba de contabilizar.

Passando em revista mais de meia centena de artigos científicos internacionais sobre a sintomatologia e as comorbilidades (doenças associadas) da covid-19, um grupo de investigadoras da Universidade do Porto deparou-se com algo que chega a surpreender: a infeção pelo novo coronavírus pode causar um total de 30 sintomas diferentes, enquanto as patologias que lhe estão associadas chegam às 35.

Alguns são mais frequentes, como a febre, a tosse ou a fadiga e a falta de ar, do lado dos sintomas, e as doenças cardíacas ou a diabetes quanto a doenças associadas. Mas há outras sintomatologias e comorbilidades menos presentes, ou mais raras, observadas num menor número de doentes e apenas em alguns dos estudos, mas que não deixam de, por vezes, estar lá. Por exemplo a sensação de formigueiro na pele, dor abdominal e gastrite, ou ainda irritabilidade e confusão, náusea e vómitos, enquanto nas doenças associadas foram reportadas em menor número, por exemplo, os casos de infeções bacterianas, a asma ou a insuficiência hepática.

"É um quadro muito amplo e variável, que mostra sobretudo a necessidade de se fazerem mais estudos baseados na recolha sistemática de dados originais sobre os doentes, nomeadamente dos portugueses", explica Matilde Monteiro Soares, professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigadora do CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, da mesma universidade, que coordenou o trabalho, e no qual participaram também as investigadoras Daniela Ferreira-Santos e Priscila Maranhão.

A ideia inicial da equipa era, justamente, "fazer uma sistematização dos sintomas e comorbilidades desta nova doença para, a partir daí, se poderem produzir modelos de apoio à decisão clínica no contexto desta pandemia", adianta Matilde Monteiro Soares.

"Isso permitiria prever quais os doentes em maior risco de infeção grave para fazer a sua monitorização e uma intervenção terapêutica precoce, possibilitando uma gestão mais ágil dos doentes, mas também dos recursos de saúde", sublinha.

A grande variabilidade de sintomas e de doenças encontrada neste estudo - o primeiro a nível internacional a fazer esta revisão mais abrangente e exaustiva, segundo a sua coordenadora - não permitiu, no entanto, avançar ainda para esses modelos de apoio à decisão clínica para a covid-19.

"São necessários agora esses estudos dos doentes para se poder sistematizar toda essa informação", resume a investigadora.

A análise realizada pela equipa de Matilde Monteiro Soares aguarda entretanto publicação, mas já está disponível na medrxiv, uma plataforma internacional de pré-publicação em ciências da saúde, que visa justamente agilizar a circulação de novos dados científicos e servir de ponte para as revistas especializadas em saúde.

Febre, tosse e muito mais

Para chegar a estas conclusões, a equipa do CINTESIS passou em revista um total de 1572 artigos científicos sobre a covid-19 publicados até 23 de março no LitCovid, um repositório online da literatura médico-científica sobre a nova doença.

De todos esses artigos, apenas 56 (3%) tinham por tema a sintomatologia e as doenças associadas à infeção causada pelo novo coronavírus - os restantes "eram na maioria artigos de opinião ou tratavam de outras questões, como diagnóstico, genética ou outras", explica a investigadora.

A maioria dos 56 estudos incluídos na análise (89%) incidia sobre a realidade da pandemia na China, dois diziam respeito aos Estados Unidos, enquanto o Canadá, a Europa, Singapura e Coreia do Sul tinham apenas um estudo cada.

Do total dos 30 sintomas identificados no conjunto dos 56 artigos, variando entre a sua própria ausência até aos casos mais graves de falências orgânicas fatais, a febre revelou-se um dos mais frequentes, mas com grandes disparidades de ocorrência: entre 48% e 68% dos doentes nos Estados Unidos, consoante os estudos, 4% a 99% dos pacientes na Ásia, e 69% dos doentes na Europa.

A fadiga é outro sintoma que entra nesta categoria dos mais frequentes, afetando 17% dos doentes norte-americanos, e entre 4% e 89% das pessoas infetadas na Ásia.

Entre os sintomas respiratórios, a tosse revelou-se por seu turno o mais presente, afetando 48% dos doentes nos Estados Unidos e na Europa. Tosse ou dispneia (dificuldade em respirar) foram reportadas em 90% dos infetados nos Estados Unidos e 82% no Canadá. E a dispneia só por si é referida em quase todos os estudos. Um deles contabilizou este problema em 76% dos doentes nos Estados Unidos, "enquanto no estudo para a Europa foi observada em apenas 7% dos doentes", referem as autoras no artigo.

Já sintomas como dores no peito foram apenas referidos nos artigos sobre doentes da China, variando entre 2% e 56% dos infetados consoante os estudos.

Outros sintomas referidos no quadro da covid-19 com menor frequência são os problemas gastrointestinais, mencionados em 7% dos doentes na Europa, 10% no Canadá e 40% num dos estudos da China.

Entre os menos comuns estão igualmente dor abdominal, gastrite, irritabilidade e confusão ou ainda erupção cutânea.

Em relação às doenças associadas à covid-19, a maioria dos doentes (86%) apresenta pelo menos uma e a mais frequente é a doença renal crónica (48%). Seguem-se os problemas cardíacos (43%), a diabetes (33%), a doença pulmonar obstrutiva (33%), e ainda a apneia do sono (29%).

Outras comorbilidades observadas, embora menos frequentes, presentes em menos de 10% dos casos, são asma, cirrose, doença reumática, hepatite B, insuficiência hepática ou ainda infeção por HIV, entre outras.

Mas como se explica, afinal, esta tão grande variabilidade?

"É um conjunto de fatores", diz Matilde Monteiro Soares.

Desde logo, esta doença é nova - mas não se trata só disso. "O vírus já sofreu, entretanto, mutações, os vários estudos foram realizados em ambientes diferentes, uns com doentes hospitalizados, outros não, e em fases distintas da infeção, e além disso há as próprias características dos doentes, que são diferentes entre si e reagem de forma também distinta aos agentes patogénicos", explica a investigadora.

Outra questão essencial no contexto desta pandemia é a dos doentes assintomáticos. No conjunto dos artigos analisados pelas investigadoras da Universidade do Porto, as estimativas para os casos assintomáticos variam entre 3% e 70%, consoante os estudos, mas este é um território ainda muito incerto.

"Não se sabe qual é a proporção de doentes assintomáticos porque não se consegue rastrear toda a gente, mas é importante fazer estudos sobre isto, também para se perceber por que motivo há pessoas infetadas que não têm sintomas", observa Matilde Monteiro Soares.

De doença respiratória a algo mais complexo

Quando emergiu na China, no final do ano passado, a covid-19 começou por ser descrita como uma doença respiratória, que causava pneumonia. Esse continua a ser um dos seus quadros característicos, mas à medida que a doença foi alastrando no mundo as suas manifestações, e os seus efeitos nos doentes, foram-se revelando mais variados e complexos, como o estudo das investigadoras da Universidade do Porto agora confirmou.

"Decidimos fazer este estudo logo em meados de março, quando começaram a surgir estas questões", conta Matilde Monteiro Soares, sublinhando que "o objetivo foi exatamente fazer a sua sistematização".

A equipa trabalhou apenas os dados publicados até há dois meses. Já foram publicados entretanto mais artigos sobre este tema, mas a nova informação não parece indiciar novidades quanto à variabilidade sintomatológica ou das doenças associadas à covid-19.

"Tenho acompanhado a literatura científica e a variabilidade que encontrámos mantém-se. Por isso é complicado, com base nessa informação, ter certezas acerca de um quadro mais claro, capaz de definir que pessoas poderão estar infetadas, para serem testadas, ou mais em risco de ter comorbilidades", reconhece a investigadora do CINTESIS.

Ou seja, são necessários mais estudos, e mais sistemáticos. "Alguns já estão a decorrer, inclusive aqui no CINTESIS, e por isso espero que nos próximos meses possamos ter mais dados e respostas para estas questões."

Matilde Monteiro Soares, que trabalha há anos em análise e modelação de dados para apoio à decisão em saúde, já tem aliás outros voos em mente. A sua ideia é avaliar, de novo a partir da literatura científica, as abordagens terapêuticas em curso no âmbito da pandemia, para verificar, por exemplo, quais delas têm maiores probabilidades de sucesso e em que circunstâncias. "Estamos a aguardar que sejam publicados artigos sobre ensaios clínicos e outros para podemos avançar", conclui a investigadora.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e apoiada por abbivie.pt

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