Estados de confusão e AVC. Coronavírus não causa só pneumonias

Tosse, febre e nos casos mais graves falta de ar. Estes são os principais sintomas que praticamente desde o início sabemos estar associados à pandemia causada pelo novo coronavírus Sars-cov-2, surgido na China. Mas afinal há muitos mais.

Cinco meses depois do início da pandemia, começa a emergir um quadro de sintomas bastante mais vasto e complexo associado à covid-19, que inclui desde problemas cardíacos, renais e do fígado até hemorragias e coágulos no cérebro, que também afetam os mais jovens, como relatou agora uma equipa de médicos de Nova Iorque. Afinal é grande ainda o desconhecimento sobre o vírus e a doença que provoca.

À medida que a covid-19 alastra no mundo e o número de doentes continua a aumentar - há agora mais de três milhões de infetados, dos quais 208 mil já faleceram - os médicos têm-se confrontado com outras consequências graves da infeção, que podem abranger diferentes órgãos vitais, como o coração, os rins, o fígado e o sistema nervoso central e o cérebro, para além do mais conhecido efeito da doença que é a pneumonia.

"Parecia que este vírus só causava pneumonia, mas afinal há muitos órgãos que são atingidos, e ainda estamos longe de conhecer a extensão total da sua agressão ao organismo humano", resume José Silva Cardoso, cardiologista no Hospital de São João, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigador no CINTESIS- Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, na mesma universidade.

Dois relatórios publicados nas últimas semanas por médicos de hospitais da China e de Estrasburgo indicam que um número significativo dos doentes mais graves de covid-19, alguns deles jovens, apresentam sintomas de confusão, convulsões e problemas sanguíneos ao nível da coagulação que podem desencadear acidentes vasculares cerebrais (AVC), ou problemas noutros órgãos, e levar à morte.

Um dos estudos, que foi publicado há duas semanas no Journal of the American Medical Association por médicos chineses, e que envolveu 214 doentes, mostra que mais de um terço (36,4%) desenvolveu estes sintomas, incluindo perda de olfato e em alguns casos AVC.

O outro, de uma equipa de médicos do Hospital e da Universidade de Estrasburgo, que saiu no The New England Journal of Medicine, também há duas semanas, e que envolveu 58 doentes de covid-19, revela que mais de metade apresentavam estados de confusão, com resultados de exames de imagiologia cerebral que mostravam sinais de inflamação.

Os estranhos AVC em pessoas jovens

Já na semana passada, o diretor de neurologia do Hospital Monte Sinai, de Nova Iorque, Thomas Oxley, alertou para um pequeno número de casos de AVC graves entre os pacientes jovens de covid-19 no seu hospital.

Trata-se de cinco casos em doentes com menos de 50 anos que ocorreram nas últimas duas semanas, o que multiplica por sete a ocorrência deste tipo de casos no seu serviço.

"Por comparação, nos últimos 12 meses tratámos no nosso serviço uma média de 0,73 doentes com menos de 50 anos e AVC graves, a cada duas semanas", relata a equipa, citada no jornal digital ABC Science.

Reconhecendo embora que cinco doentes constituem "uma amostra pequena", a equipa de Oxley defende no artigo que publicará a 29 de abril no New England Journal of Medicine, que "a associação entre AVC de grande dimensão e a covid-19 em doentes jovens exige uma investigação mais aprofundada".

"Os nossos colegas [de outros hospitais de Nova Iorque] também relatam um aumento deste tipo de casos e por isso ainda não sabemos exatamente qual é verdadeira dimensão deste problema", afirmou ainda o neurologista americano ao ABC Science.

José Silva Cardoso, que está a acompanhar os dados apresentados pela equipa de Thomas Oxley, acentua a ideia do "enorme desconhecimento" que persiste sobre a doença provocada pelo Sars-cov-2.

"Estamos ainda numa fase muito precoce e olhando a literatura científica, o que sobressai é exatamente isso", diz, sublinhando que ainda não se conhece a "extensão total da agressão deste vírus ao organismo humano".

Sobre os mecanismos que poderão estar na origem destes casos de AVC em pessoas com menos de 50 anos, o cardiologista e investigador do CINTESIS admite que poderão ser "de várias naturezas".

Um AVC ocorre geralmente quando a membrana que encapsula placas de gordura existentes no interior das artérias ou vasos sanguíneos se rompe. "O efeito é explosivo, causando um coágulo, que se for para o cérebro provoca um AVC", explica José Silva Cardoso. Mas onde entra aí a covid-19?

"Além dos efeitos diretos que provoca no organismo, o vírus causa uma tempestade inflamatória, e essas substâncias inflamatórias podem romper as estruturas que contêm as placas de gordura, provocando assim o AVC", admite José Silva Cardoso, notando no entanto, que isso só por si não explica um AVC em pessoas mais jovens.

Na prática, isto explicaria sobretudo casos em pessoas mais idosas, mas o facto é que também não se conhecem, pelo menos para já, informações sobre aqueles cinco doentes, nomeadamente sobre se teriam, ou não, as tais placas de gordura nos vasos sanguíneos.

Por isso José Silva Cardoso admite outras possibilidades."Pode haver aqui outros mecanismos envolvidos", sublinha.

"É igualmente possível que o vírus ataque diretamente o endotélio, o revestimento interior dos vasos sanguíneos, que se for destruído pode originar um coágulo sanguíneo, e outra possibilidade é que a ação do vírus torne o sangue mais coagulável", sugere o cardiologista.

Saber exatamente o que está em causa vai, com certeza exigir mais investigação para se tirar a limpo que mecanismo, ou mecanismos, estão envolvidos no processo. Mas há outra coisa que todos estes casos mostram também: em caso de sintomas compatíveis com AVC, com fala arrastada, dor no peito, ou membros que ficam paralisados, o melhor é pedir ajuda médica.

"Vivemos tempos de contenção em que é preciso ficar em casa, mas em casos destes é urgente a intervenção médica", conclui José Silva Cardoso.

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