Bairro da Torre, a caverna do século XXI. Sem luz e sem água.

Neste bairro do concelho de Loures, vive-se sem água e sem luz. Desde o incêndio cerca de 35 habitantes (sobre)vivem em condições ainda mais precárias, mas não querem abandonar a sua morada, porque continuam a sonhar com um bairro novo para todos.

Uma família está num lugar sem luz. Só consegue ver sombras de objetos projetadas na parede que têm à frente. "Eu estou na escuridão. Eu estou na caverna", diz Maria Fortes. Sem saber de referências filosóficas, não é na Caverna de Platão, o filósofo da Grécia Antiga, que Maria está a pensar. Está a falar da sua própria caverna, bem terrena, que é a sua casa no Bairro da Torre, em Camarate, concelho de Loures - junto ao terreno do aeroporto Humberto Delgado.

É uma barraca, num dos últimos bairros de barracas que existem à porta de Lisboa. São meia dúzia de metros, sem janelas, onde a luz do dia também apenas provoca sombras. Não tem eletricidade. Não tem água. Tem um colchão para dormir. Maria tem roupas oferecidas e um telemóvel, que usa para ver a comida que está a preparar com a luz que o ecrã emite. De resto, o telefone está praticamente sempre desligado para poupar bateria, uma vez que, em casa, não tem onde o carregar.

Maria trabalhou até há pouco tempo como jardineira no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Agora está desempregada. As condições em que vive são as mesmas há 22 anos, altura em que se mudou para o bairro da Torre. À porta de casa tem um depósito de lixo. Colchões estragados, roupa rasgada, restos de comida e dois cães com os esqueletos salientes, que procuram a próxima refeição.

Mas não está sozinha. Partilha este terreno ocupado ilegalmente desde a década de 1970 com 200 a 250 pessoas. Ciganos e negros dividem-se em dois bairros dentro do bairro.

Maria veio de São Tomé e juntou-se à metade do bairro que tinha origem africana como ela - vizinhos de lá, vizinhos cá, ajudavam a encarar melhor as agruras de uma vida de imigrante. Maria vive com o primeiro dos seus sete filhos. Foi precisamente o seu filho mais velho, que, quando chegava do trabalho, por volta da uma da manhã do domingo 22 de julho viu o incêndio no bairro da Torre.

O incêndio que queimou o pouco que havia

A casa de Maria não foi uma das cerca de quatro barracas - casas construídas clandestinamente, já de cimento e tijolos mas toscas - que foram consumidas pelas chamas. Desde que ali vive lembra-se de ter assistido a seis ou sete fogos, mas este foi o pior. Maria diz que se chegou a sentir-se mal porque se enervou com a demora dos bombeiros.

"Houve um senhor que foi lá e os bombeiros disseram que não sabiam onde era o bairro da Torre", conta. Segundo o Comande dos Bombeiros de Camarate, Luís Martins, a reação do quartel, situado a cerca de 200 metros do bairro, foi quase imediata e os 33 homens e 12 carros saíram das suas instalações quatro minutos depois da uma da manhã para combaterem as chamas.

O incêndio ficou extinto por volta das 2:15h da manhã. Mas foi o suficiente para ficarem desalojadas cerca de 35 pessoas, 13 famílias. Que viviam todas em quatro casas. Na origem do fogo esteve muito provavelmente um curto circuito relacionado com as baixadas de eletricidade que os moradores fazem, desde 2016. Até há dois anos, o bairro tinha luz, mas a falta de pagamento das contas levou a EDP a cortar a energia. "Isto aconteceu na semana em que se inaugurou o MAAT [Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia], da EDP, em Belém", diz o padre José Manuel Salvador, missionário comboniano que dá apoio ao bairro.

"Nós não temos condições para estar a pagar 5€ por dia para termos luz. É muito para abastecer um gerador"

A luz foi cortada em outubro e em dezembro a câmara municipal de Loures instalou dois geradores de energia para iluminar o bairro. No entanto, dois meses depois os moradores pediram à câmara para retirar estes geradores, porque não conseguiam ajudar a pagar os custos do gasóleo. "Nós não temos condições para estar a pagar 5€ por dia para termos luz. É muito para abastecer um gerador", diz Flávia Carvalho, que vivia numa das casas que o fogo queimou.

Entretanto, em Junho de 2017 foi aprovado por todos os partidos no Parlamento um projeto de resolução que recomendava ao Governo a adoção de medidas que garantissem "a prestação do serviço público de eletricidade aos habitantes dos bairros e núcleos de habitações precárias". Mas no bairro da Torre a maioria das casas continua às escuras. Quem ali vive não tem rendimentos para pagar uma conta de eletricidade. O pouco dinheiro que ganham serve essencialmente para pagar transportes e comprar comida - tarefa diária, uma vez que os moradores não têm frigoríficos onde guardar alimentos.

Nem todas as pessoas que moram no bairro da torre trabalham. A maioria faz uns biscates, outros trabalham em casas de famílias a fazer limpezas e há pelo menos uma pessoa que trabalha numa loja, no Centro Comercial do Campo Pequeno. No final do mês, quando recebem o ordenado, partilham com aqueles que não têm rendimentos. Aqui ninguém passa fome. Sustentam-se uns aos outros, garantem. Vivem como uma só família. O que é de um é de todos.

Os moradores do bairro vieram de São Tomé, através de Junta Médica - um programa de apoio à saúde do governo português com o de São Tomé e o da Guiné Bissau. "Aqui criaram laços de amizade. E como uns trabalham outros não, apoiam-se. Não passam fome.", diz José Manuel Salvador. O padre chegou a Camarate há dois anos, vindo de uma missão em Bogotá, a capital colombiana.

"A primeira vez que aqui vim, pensei que isto eram casas de campo onde as pessoas tinham as suas hortas com umas barraquinhas"

Quando chegou, estranhou a forma como se (sobre)vive no bairro da Torre. "A primeira vez que aqui vim, pensei que isto eram casas de campo onde as pessoas tinham as suas hortas com umas barraquinhas", conta. Agora, José conhece bem todos os habitantes, e passa todos os dias pela capela do bairro. A capela é uma divisão do tamanho de um quarto de solteiro, preenchida por sacos de roupa e brinquedos de criança doados, três ou quatro colchões no chão - que agora servem de cama aos desalojados do incêndio -, e uma cruz improvisada em madeira com os nomes de quem morreu ali.

Depois do incêndio, o missionário ficou ainda mais preocupado com a situação dos habitantes do bairro da Torre. Não tem mãos a medir para tentar solucionar o caso dos desalojados, e tem receio de que a resolução passe por tentar mover a população dali para fora. "Se forem para fora [do bairro da Torre] sabem que mesmo que tenham uma casa, não vão ter dinheiro para pagar a luz, a água ou os transportes", diz. E há ainda a questão da integração social. "As pessoas têm as crianças na escola daqui e, se tiverem de ir para um ambiente completamente diferente, preocupa-me que sofram". Porquê? "Racismo", responde o padre. "Aqui estavam um pouco mais protegidos porque a maioria é africana".

Viegas Abreu perdeu no incêndio a casa onde vivia com a sua mulher há 18 anos. Agora dormem os dois num colchão no chão da associação de moradores com os outros vizinhos, mas não querem sair dali. "Fizeram-nos uma proposta, mas quase ninguém aceitou. Queriam que eu fosse lá para a Amadora. Mas eles também têm problemas naquele bairro 1.º de Maio. Se eles não têm casa para aquele pessoal, têm para nós?".

Para onde vai quem já nada tem

Apesar de as condições neste bairro serem muito precárias, a entreajuda e o hábito fazem com que quem lá more prefira viver assim do que ser realojado em casas mais dignas, mas também mais distantes, separando famílias. "Se tivéssemos dinheiro o melhor era construirmos uma casa para todos", diz Flávia Carvalho. O padre Salvador acrescenta: "Ainda temos um sonho: construir um bairro para eles estarem juntos".

"Ainda temos um sonho: construir um bairro para eles estarem juntos"

As autoridades têm outras ideias. O presidente da câmara de Loures, Bernardino Soares, diz que compreende "o espírito de união e a identidade da comunidade", mas não tem "nem a curto, nem a médio prazo forma de os manter a todos juntos". "Perpetuar este caso é que não é uma solução. É uma vergonha para o país este bairro existir", diz.

Bernardino Soares garante que a autarquia está a fazer de tudo para acomodar os moradores do bairro da Torre. Os técnicos da câmara em colaboração com o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana estão a elaborar uma lista com frações disponíveis no seu património para realojamento imediato. Na próxima semana está previsto entregarem quatro casas na Margem Sul.

Também o Ministério do Ambiente, num esclarecimento enviado para as redações no dia 24 de julho, se mostrava ainda disponível para "conceder apoio adicional, caso seja necessário, às famílias afetadas pelo incêndio por via do Porta de Entrada - Programa de Apoio ao Alojamento Urgente" e implementar "uma solução habitacional global para o Bairro da Torre, por via do 1.º Direito - Programa de Apoio ao Acesso à Habitação." Mas é pouco provável que estas famílias tenham meios para concorrer a estes programas de arrendamento.

A câmara municipal diz que não tem meios para resolver este flagelo humano sozinha. No ano passado a câmara realojou 23 famílias, mas não tem como responder a todas as situações. Para pôr fim a esta "situação dramática" precisa de ajuda da administração central, que aliás é a proprietária do terreno, refere o presidente.

As famílias que foram afetadas pelo incêndio estão distribuídas entre as outras casas do bairro que não sofreram com o incidente, a capela e a associação de moradores - uma sala, um quarto, uma cozinha e uma casa de banho mínima num espaço exterior. Para já, todas as energias estão voltadas para os desalojados, mas Maria Fortes, que não ficou sem o seu colchão no incêndio, também precisa de sair da caverna.

Esta semana, tal como Veigas Abreu, também recebeu uma proposta da câmara para ir para uma casa. Disseram-lhe que era um T2 na Amadora. A casa onde agora vive é uma barraca, sem luz, sem água. Mas não aceitou. Tem sete filhos e juntá-los a todos é a sua grande preocupação desde a morte do marido. Para mudar, quer que seja com todos. E para já fica no sítio onde vive há 22 anos - no bairro da Torre.

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