Covid-19. Diretores alertam que há professores a faltar às aulas por receio

O medo de contágio, num ambiente que os diretores consideram ser propício à disseminação, está a motivar professores a faltar às aulas. Dirigentes escolares apelam à calma e pedem resposta célere do governo.

A poucas horas de se conhecer a decisão do governo sobre a possibilidade de encerrar as escolas, como plano de contenção do novo coronavírus, os diretores escolares alertam para uma quantidade crescente de professores que está a faltar às aulas por receio do contágio. Caso o primeiro-ministro anuncie, esta noite, que os estabelecimentos de ensino continuarão abertos e os encerramentos serão estudados caso a caso, "este fenómeno pode piorar", diz Manuel António Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE).

"Há alguns professores que estão a meter atestado médico, para não irem dar aulas. É por receio, porque têm famílias e o local onde trabalham é um ambiente propício para a propagação do vírus", relata. Um cenário comum a várias escolas espalhadas pelo país, desde o início desta semana, e "onde não há sequer suspeitas de que alguém tenha contraído o vírus". "Os médicos têm autoridade para passar atestados médicos e são responsáveis por o fazer. É fácil encontrar uma doença qualquer", esclarece o presidente da ANDE.

"Parece uma roleta russa: estamos sempre a jogar na sorte e ninguém quer estar a jogar a sua sorte"

A situação é conhecida também pelo dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), que a justifica com "o ambiente de sobressalto e angústia" que se vive nas escolas. "Os professores sabem que estamos a fazer tudo o que pede a Direção-Geral de Saúde (DGS), mas mesmo assim não confiam. Está tudo em sobressalto e claro que eles não escapam a esta ansiedade", conta Filinto Lima.

Principalmente porque "são profissionais que estão em contacto com centenas de alunos todos os dias", lembra. Na região onde Manuel António Pereira leciona, Tâmega e Sousa, "há muita mão-de-obra que trabalha fora a semana inteira e que ninguém tem contado como veículo transmissor", mas estes são precisamente "os encarregados de educação dos [meus] alunos". O conhecimento deste contexto tem sido um fator determinante no receio que foi cultivado junto da classe docente. "Parece uma roleta russa: estamos sempre a jogar na sorte e ninguém quer estar a jogar a sua sorte", diz.

Os diretores apelam à calma e pedem uma resposta célere ao governo. O DN questionou o Ministério da Educação sobre se tem conhecimento destes casos, mas o gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues adiou a resposta para depois das medidas do governo.

Pais não querem filhos na escola

"Nunca vivemos nada assim antes". Foi emocionada que a primeira-ministra da Dinamarca anunciou, esta quarta-feira, o encerramento das escolas públicas do país. No mesmo dia, a incerteza acelerava em território português: o Conselho Nacional de Saúde Pública, de cujo parecer dependeria a decisão do governo, comunicou a recomendação de não fechar escolas nem outros estabelecimentos públicos sem "a autorização expressa das autoridades de saúde". Pelo menos mais de 41 mil professores pedem o encerramento, a DGS concorda numa análise caso a caso, mas o governo decidirá apenas esta noite, depois de reunir-se com todos os partidos com assento parlamentar.

Certo é que a comunidade escolar já estremece com o debate que se levantou. "Sinto que em algumas circunstâncias o país está a atuar: ontem soubemos que os jogos de futebol não vão ter assistentes, o europeu [de futebol] também está em risco. E passamos de uma epidemia para uma pandemia. Mas isso não trouxe nenhuma novidade para as escolas. Não deveria haver já aqui outro tipo de atuação? E estamos a falar dos efeitos colaterais, psicológicos, que a declaração de uma pandemia traz", questiona Filinto Lima.

Uma das soluções, exposta pela ANDE esta semana ao Ministério da Educação, passaria pela antecipação da interrupção letiva da Páscoa, de forma a arrancar já esta sexta-feira e terminar na primeira semana de abril, retomando as aulas nesta mesma altura. Manuel António Pereira diz que a tutela não se mostrou "avessa" a esta proposta, mas a decisão cabe ao Conselho de Ministros. "Eu percebo as dificuldades desta decisão, como mexe com a economia e com as famílias. Mas o que achamos melhor era antecipar a interrupção letiva da Páscoa e obrigar as pessoas a fazer quarentena em casa. É preciso agir antes cedo do que tarde. Estou muito próximo de pessoas que estão em Itália e que sistematicamente me vão dizendo o que se passa lá e a considerar que se o governo português não tomar as medidas que o italiano já tomou tarde, vai depois ter de as tomar. Em primeiro lugar, a saúde das pessoas", alerta.

"As aulas são todas passadas a falar disto e qualquer tema vai dar à discussão sobre o novo coronavírus"

Entretanto, não são só os professores que têm respondido à incerteza com o afastamento da comunidade escolar: os diretores contam que há encarregados de educação a optar por deixar os filhos em casa. "Ontem, mal saiu o parecer do Conselho Nacional de Saúde Pública tive dois pais [de alunos seus], que considero serem bastante responsáveis, a dizer-me: 'atenção que a partir de amanhã o meu filho não vai para a escola à minha responsabilidade'. A expectativa era que o parecer fosse diferente", disse o presidente da ANDAEP ao DN. Também o presidente da ANDE assume ter conhecimento desta decisão por parte de vários pais.

Em parte, porque, "genericamente, as aulas são todas passadas a falar disto e qualquer tema vai dar à discussão sobre o novo coronavírus". "Qualquer espirro, qualquer tosse é motivo de alarme", acrescenta Filinto Lima.

E as faltas? Ficam justificadas? Cada aluno tem direito a três faltas justificadas. A partir daqui, será necessária uma justificação médica ou uma outra legalmente prevista na lei. O presidente da ANDAEP lembra que o assunto ainda é recente, começou esta semana, mas o que verifica é que "há professores que estão a ter o bom senso de justificar as faltas, compreendendo o receio dos encarregados de educação" em determinadas situações.

Depois do encontro com os partidos, esta tarde, o primeiro-ministro irá retomar a reunião do Conselho de Ministros, pelas 20:00, para só depois anunciarem a decisão final. Lembrou que "qualquer decisão não é ausente de consequência" e, por isso, depende de muita ponderação.

Mais 19 casos

O número de infetados pelo novo coronavírus em Portugal aumentou esta quinta-feira para 78, a maioria dos casos (44) localizados na zona norte do país. Na quarta-feira, pela primeira vez foram anunciados casos nas faixas etárias dos 0 aos 9 anos e acima de 80 anos. Cinco da totalidade dos casos foram importados de Espanha, dez de Itália três da Suíça e um outro poderá ter sido importado da Alemanha ou Áustria, segundo dados da Direção-Geral de Saúde (DGS).

Para evitar que a epidemia se espalhe a DGS reforça os conselhos relativos à prevenção: evitar contacto próximo com pessoas que demonstrem sinais de infeção respiratória aguda, lavar frequentemente as mãos, evitar contacto com animais, tapar o nariz e a boca quando espirra ou tosse e lavar as mãos de seguida pelo menos durante 20 segundos. Para a comunidade escolar podem ser encontradas mais informações aqui.

Em caso de apresentar sintomas coincidentes com os do vírus (febre, tosse, dificuldade respiratória), a autoridade de saúde pede que não se desloque às urgências, mas para ligar para a Linha SNS 24 (808 24 24 24). De acordo com o último boletim informativo, tosse é o sintoma mais frequente (65%) entre os casos confirmados, seguida de febre (46%), dores musculares (40%), cefaleia (37%), fraqueza generalizada (24%) e, por último, dificuldades respiratórias (10%).

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