No seu clássico dedicado às atribulações do pequeno ecrã, Pierre Bourdieu desmonta a procura de respeito, “por vezes chamado deontologia”, explorada por algumas formas de jornalismo. Lembra ele que prevalece a tendência de “citar uma fonte jornalística, sobretudo quando é de um órgão menor que se trata, apenas para aliviar responsabilidades” (in Sobre a Televisão, tradução de Miguel Serras Pereira, Celta Editora, 1997)..Convenhamos que os tempos mudaram. Ou talvez não. No dia 21 de setembro, num comício na cidade de Wilmington, Carolina do Norte, Donald Trump voltou a caracterizar Kamala Harris como alguém que “nem sequer sabe dar uma entrevista”, lembrando os erros por ela cometidos num programa-comício (“Unite for America”) organizado por Oprah Winfrey, dois dias antes, em Farmington Hills, Michigan. Não citou diretamente os percalços discursivos de Kamala, mostrou-os num ecrã gigante colocado por cima do seu palanque, dizendo: “Temos um pequeno vídeo - gastámos imenso dinheiro nestes ecrãs e queremos usá-los, vamos ver!” (reportagem disponível no canal Forbes Breaking News, no YouTube)..Através de uma montagem grosseira, estupidamente manipuladora, o vídeo sublinhava o modo como a atual vice-presidente dos EUA repetira uma palavra (“story”) para valorizar a experiência individual de cada eleitor. No final do vídeo, Trump rematou: “Não é isto que vocês querem!”.Trump voltou a fazer jogo sujo, explorando imagens descontextualizadas, sobrepondo uma caricatura grosseira às singularidades da situação retratada. Ainda assim, evitemos julgar que estamos do lado de uma razão inquestionável: a mesma forma pueril de abordar imagens dos comícios de Trump, tratando-o como um boneco caricatural, tem sido também frequente em algumas contas do YouTube (a meu ver, com resultados políticos francamente discutíveis)..O que está em jogo excede a volubilidade moral de Trump. Aquilo que o ecrã mostrou nem sequer foi produzido pela sua própria máquina política: trata-se de um extrato da edição de 20 de setembro do programa Friday Follies, da Fox News, com Laura Ingraham e Raymond Arroyo muito divertidos a gozar com Kamala Harris, tendo como base uma montagem obscena e tendenciosa de 25 segundos (não-consecutivos) retirados de um evento que durou uma hora e 33 minutos (também disponível no YouTube)..Laura Ingraham e Raymond Arroyo riem-se de Kamala Harris (20 set., Fox News)..O que nos obriga a não menosprezar outro dado conciso: seria cómodo e equívoco reduzir tudo isto ao facto indesmentível de a programação da Fox News ser, globalmente, anti-Kamala e pró-Trump. Ora, importa não descartar a hipótese de uma entidade jornalística, seja ela qual for, querer (e poder) separar as águas face a um acontecimento tão marcante como é a eleição do presidente da mais poderosa nação do mundo - na quinta-feira, o jornal The New York Times fez isso mesmo, exemplarmente, inventariando as razões que fazem da reeleição de Trump uma possibilidade inquietante para a América e para o mundo..Face ao episódio registado em Wilmington, o que está em jogo envolve o lugar, de uma só vez informativo e simbólico, que as linguagens televisivas ocupam (ou podem ocupar) no mercado mediático em que somos obrigados a viver. O que Trump faz é arregimentar algumas dessas linguagens para as apresentar como reflexo “natural” do mundo à nossa volta e, por fim, do nosso destino coletivo..Semelhante “naturalização” continua a contribuir para o esvaziamento intelectual da própria política, empurrando cada espectador para o papel incauto de uma marioneta que se limita a aguardar a próxima anedota que alguém, no pequeno ecrã, terá para nos oferecer. Observe-se, agora, em Portugal, o masoquismo dos dois únicos partidos com alguma proximidade ideológica (PSD e PS), desmultiplicando-se em duetos televisivos de “análise” que vão metodicamente destruindo a sua credibilidade (“o que você diz do meu partido não tem nada a ver com aquilo que o meu partido realmente disse…”). Ao mesmo tempo, há quem, em pose virginal, aguarde os inevitáveis efeitos dessa pulsão suicida.