António Costa, as vacas magras e a esquerda

A Lusa perguntou ao primeiro-ministro se contaria com os partidos de esquerda na resposta à crise. António Costa respondeu que ficaria muito desiludido se só pudesse "contar com o PCP e com o BE em momentos de vacas gordas". Há duas interpretações possíveis para esta resposta: a primeira é que se trata de um apelo desajeitado a entendimentos à esquerda, para evitar o aumento da conflitualidade social; a outra é que o líder do PS está a posicionar-se para uma alteração de rumo a breve trecho. Sobre isto tenho muito mais dúvidas do que certezas.

É já uma certeza que estamos perante uma das maiores crises económicas do último século, que se traduz numa queda abrupta da actividade económica e do emprego. Também é certo que a recessão terá um impacto substancial nas contas públicas. Quanto a impactos económicos, não podemos ter muitas mais certezas do que isto.

Algumas previsões tentam dar números à dimensão esperada da crise. O FMI previa há dias que esta será a pior recessão mundial desde a Grande Depressão dos anos 30 do século XX. Para Portugal, o Fundo prevê que o PIB caia 8% e que o desemprego atinja 13,9% da população activa em 2020, mais do dobro do que em 2019. A confirmar-se, será o maior aumento anual do desemprego de que há registo. O mesmo se passa com o rácio da dívida pública, que segundo o FMI passará de 117,7% do PIB em 2019 para 135% em 2020.

Mas estas previsões não são únicas, nem pretendem ser certeiras. Como explicou o responsável pela publicação do FMI, as margens de incerteza são enormes. O modelo utilizado assume que a pandemia deixará de causar estragos a partir da segunda metade deste ano e que a actividade económica começará então a voltar ao normal. Mas este é apenas um dos cenários possíveis.

Para além das dúvidas sobre a evolução do vírus, não sabemos que lastro deixará o confinamento na economia mundial. A queda dos preços do petróleo e de outras matérias-primas agravou a situação financeira de alguns países produtores. A pandemia e a recessão económica aumentam a fragilidade política e social das nações mais pobres. A perturbação das cadeias de valor globais está a levar à alteração das redes de fornecimento. O aumento do crédito mal parado volta a pôr os bancos sob pressão - e as finanças dos Estados em risco. A queda das bolsas e as dificuldades financeiras traduzem-se na mudança de donos de muitas empresas, algumas delas com importância estratégica para os países de origem. Tudo isto tende a agravar as tensões que têm marcado as relações económicas internacionais desde o início do século.

No contexto europeu, as dúvidas sobre o lastro da crise não são menores. Coincidência ou não, alguns dos países mais afectados pela pandemia (em particular, Espanha e Itália) são também os que apresentavam contas externas mais deficitárias. Um dos sectores mais afectados pela crise - o turismo - constitui um dos pilares das economias do sul da Europa, cujas dificuldades financeiras e competitivas eram já grandes antes do vírus. A resposta encontrada pelas instituições europeias para apoiar os esforços nacionais assenta no endividamento dos Estados, quando os países mais vulneráveis são precisamente aqueles onde a dívida pública é já mais elevada. Como resultado, os países do sul da Europa estão a fazer muito menos do que deveriam para proteger as suas economias, aumentando a profundidade da crise e seu o lastro. A intervenção do BCE evitou para já a repetição da escalada dos juros registada em 2010-2012, mas as agências de rating já começaram a dar sinais de inquietude. Para isso contribui o facto de as lideranças europeias nada dizerem sobre o modo como pretendem gerir o aumento das dívidas públicas nos anos vindouros.

Neste contexto, pedir aos partidos que assumam compromissos claros sobre a resposta à crise nos próximos meses não é fácil. Mas o problema não é só dos partidos à esquerda.

António Costa sabe que não pode contar com PCP e BE para delapidar ainda mais os direitos laborais, como já começaram a sugerir os sectores mais conservadores, apesar de se manterem em vigor as reformas do tempo da troika. O PS não pode contar com os partidos à sua esquerda para baixar salários e pensões, fomentando a divisão entre aqueles que vivem do seu trabalho em vez de usar o sistema fiscal para fazer justiça. Ainda menos quando as grandes reformas fiscais reclamadas neste lado do espectro político estão por fazer, incluindo a tributação das grandes fortunas. António Costa sabe que nunca entrará em ruptura com as lideranças europeias, mesmo que isso se traduza numa crise económica e social prolongada em Portugal. Há bons argumentos para o fazer, mas não pode esperar o apoio de quem sempre recusou as regras europeias devido ao retrocesso social que impõem.

Por tudo isto, não sei se António Costa é optimista ao ponto de achar que ainda é possível conjugar as suas próprias linhas vermelhas com as dos partidos com quem cooperou até há um ano. Ou se apenas se prepara para os culpabilizar pelo agravamento das condições económicas e sociais. Por várias razões, gostaria que a primeira hipótese fosse a correcta. Mas tenho, de facto, muitas mais dúvidas do que certezas.


Economista e Professor no ISCTE

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