FMI. Choque de desemprego será o maior de que há registo em Portugal

País a caminho de défice de 7% ou mais em 2020, valor só equiparável ao de 2014, ano da falência do BES. No Natal ainda haverá recessão, teme o FMI. Desemprego ficará próximo dos 14%

É um cenário algo tenebroso aquele que o Fundo Monetário Internacional (FMI) ontem, terça-feira, apresentou a partir de Washington, no arranque dos encontros da primavera (pela primeira vez em modo virtual).

O mundo vai viver a pior recessão em quase cem anos, desde a Grande Depressão dos anos 20 do século passado. Portugal é, como quase todos os países, arrastado e deve registar uma das piores recessões de sempre (o FMI projeta uma quebra de 8% na economia nacional em 2020) e a taxa de desemprego pode atingir 13,9% da população ativa, mais do dobro face a 2019.

Será um verdadeiro choque de desemprego, o maior de que há registo, tendo por base as séries longas consultadas pelo DN/Dinheiro Vivo, que remontam a 1960.

A taxa de desemprego nacional recua assim ao nível de há seis anos, ao tempo da grave crise económica e das contas públicas. Em 2014, o desemprego também estava em 13,9%.

Gaspar diz hoje que Centeno caminha para défice de 7,1%

O FMI também avançou com as primeiras projeções para as contas públicas. No caso de Portugal, depois do excedente histórico de 2019, as administrações públicas vão mergulhar num défice que deve ultrapassar um valor equivalente a 7% do produto interno bruto (PIB), apenas equiparável ao de 2014, o ano da falência e do resgate do BES.

Os números do défice foram avançados nesta terça-feira pelo FMI, mas, nesta quarta-feira, Vítor Gaspar, o diretor para as questões de finanças públicas do Fundo, antigo ministro das Finanças do PSD, vai apresentar estas e outras projeções e transmitir as suas recomendações sobre como podem os governos ajudar os países a saírem deste novo buraco económico e social.

No entanto, as novas projeções do FMI parecem já pecar por defeito. Há especialistas de renome que veem o défice português a passar os 10% neste ano e a dívida a tocar os 146% do PIB, num ambiente altamente depressivo em que a economia portuguesa colapsa 15%. É o caso recente do grupo bancário Unicredit.

Recessão de 20% neste trimestre, insinua Centeno

Numa entrevista à TVI, o ministro das Finanças, Mário Centeno, também aceitou avançar com alguns números sombrios. Disse que neste segundo trimestre a quebra do PIB pode ser quatro a cinco vezes maior do que o pior valor alguma vez registado. Estava, portanto, a dizer, ainda que de forma indireta, que a economia está a caminho de uma contração na ordem dos 20% no período de abril a junho face a igual período de 2019.

No outlook que ontem divulgou, o FMI diz mais. A economia portuguesa deve continuar ligada ao ventilador e os portugueses devem preparar-se para um Natal diferente, para pior, porque a recessão deve mesmo arrastar-se até ao final do ano. A instituição dirigida por Kristalina Georgieva diz que no último trimestre de 2020 Portugal deve acusar uma contração económica de 10% ou mais.

Portanto, retoma só no ano que vem e mesmo assim... Segundo o FMI, o crescimento pode chegar a 5%, o que também quer dizer que não vai dar, nem por sombras, para reverter toda a destruição esperada para o ano corrente.

Em termos comparativos internacionais, Portugal volta a aparecer mal na fotografia em alguns dos indicadores cruciais.

De aluno exemplar e elogiado, o país passa a ter a quinta recessão mais pesada da zona euro neste ano (partilha este lugar com Espanha e Eslovénia); o peso do desemprego será o terceiro maior num ranking liderado por Grécia e Espanha.

Por cá, o défice projetado é claramente elevado, faz o país recuar aos tempos da austeridade da troika e do programa de ajustamento, mas agora Portugal até aparece a meio da tabela da zona euro, com os referidos 7,1%.

Espanha deve ter o saldo mais negativo, um défice de 9,5%. Os dois únicos países que cumprem a regra-mãe de 3% do Pacto de Estabilidade são o Luxemburgo (défice de 2,8%) e o Chipre (1,8%).

Lá fora também está mau

Fora de Portugal, as coisas estão iguais ou até piores, e o FMI fez questão de o dizer muitas vezes e bem alto.

A zona euro sofre uma contração de 7,5% neste ano, um pouco menos do que Portugal. A Alemanha, o motor da união, deve recuar 7% e França, o segundo maior mercado europeu da União Europeia, segue-lhe as pisadas, com menos 7,2%.

Itália, o maior foco da pandemia na Europa, registará uma depressão superior a 9%, Espanha recua 8%, Grécia terá a pior situação da moeda única, com a economia a quebrar 10%.

Fora da UE, a economia do Reino Unido decresce 6,5%

Gita Gopinath, a economista-chefe do FMI, constatou que "as medidas de proteção necessárias estão a ter um impacto severo na atividade económica". E que "a economia global deverá contrair-se acentuadamente em cerca de 3% em 2020, o que é muito pior do que durante a crise financeira de 2008-2009".

"Partindo do pressuposto de que a pandemia e as medidas de contenção atingem o pico no segundo trimestre na maioria dos países e depois recuam no segundo semestre deste ano, projetamos a tal quebra de 3%" que compara com uma quebra muito ligeira do PIB global de 0,1% em 2009.

"Isto faz deste Grande Lockdown [a crise do novo coronavírus] a pior recessão desde a Grande Depressão [nos anos 20 do século passado] e muito pior do que a crise financeira global", lamentou a economista principal do FMI.

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