A expressão até pode ser “ir a Roma e não ver o papa”, mas quem, como eu, foi por estes dias à capital de Itália pode voltar com a sensação de ter perdido alguma coisa por não ter visto a outra “estrela” mediática do momento, que foi notícia por todo o mundo - daquelas que esta era de redes sociais faz e desfaz com a mesma velocidade: o anjo com o rosto da primeira-ministra Giorgia Meloni. Para os mais distraídos, a história pode resumir-se assim. Bruno Valentinetti, um restaurador amador de 83 anos, foi encarregue de dar nova vida a um fresco da Basílica de São Lourenço em Lucina, que pintara em 2000. O caso ganhou notoriedade quando o jornal La Repubblica publicou um artigo, a 31 de janeiro, no qual destacava que um dos anjos do fresco tinha agora as feições de Meloni. “Antes do restauro, era um querubim genérico. Hoje, tem o rosto da mulher mais poderosa do país”, lia-se no artigo. Valentinetti começou por negar ter-se inspirado na chefe do governo, de 49 anos, mas acabou por confessar ter sonhado com Meloni que lhe pedira para pintar à sua imagem o anjo - que no fresco segura na mão um mapa de Itália e está ajoelhado diante do último monarca do país, Umberto II, que depois de deposto se exilou em Cascais..Itália investiga pintura de anjo em igreja supostamente restaurado para se assemelhar a Meloni.A Diocese de Roma e o Ministério da Cultura abriram investigações sobre o caso. Técnicos foram enviados para inspecionar a figura. Meloni brincou que “Não, definitivamente eu não pareço um anjo”, numa publicação no Instagram em que juntou uma foto da figura alada. Tudo para, na quarta-feira, Bruno Valentinetti ter tido de apagar o rosto do anjo, por ordem da Diocese de Roma e do pároco da basílica situada não longe da escadaria da Piazza di Spagna.Sim, fui a Roma e não vi o “anjo Meloni”. Também não vi o papa, na verdade, tendo tido de me contentar com uma mão-cheia de cardeais com quem me cruzei na impressionante Praça de São Pedro. Mas vi a escadaria da Piazza di Spagna. E vi os Museus do Vaticano, com o seu sem-fim de tesouros, desde as estátuas de imperadores como Augusto, Cláudio ou Tito, até ao esplendor da Escola de Atenas, o fresco encomendado a Rafael pelo papa Júlio II, sem esquecer a deslumbrante Capela Sistina, onde há poucos meses os cardeais fizeram do americano Robert Francis Prevost o papa Leão XIV, sob o teto pintado por Miguel Ângelo.Vi também o Coliseu, a Fontana di Trevi, a Piazza Navona e o Castel Sant’Angelo. E nos Museus Capitolinos vi a estátua equestre de Marco Aurélio, a Loba capitolina, com Rómulo e Remo, a Medusa de Bernini e muitos mais bustos e estátuas de imperadores, além da imperdível exposição Cartier e o Mito, na qual algumas das criações mais prestigiadas da Maison Cartier entram em diálogo evocativo com as esculturas antigas da coleção do Palazzo Nuovo. Se for a Roma até 15 de março, é mesmo a não perder, a começar pelo magnífico busto de Lívia, a poderosíssima mulher de Augusto, que nos recebe logo à entrada daquela mostra.O papa? O anjo Meloni? O que não pode mesmo deixar de ver se for a Roma é... Roma.Editora-executiva do Diário de Notícias