Estive estes dias em Bruxelas a convite de Giuseppe Guerini, presidente das Cooperatives Europe, que junta organizações de 33 países. É porta-voz e vice-presidente do Comité Económico e Social Europeu (CESE). Tive a oportunidade e o privilégio de intervir num encontro sobre Economia Social, onde alguns dos temas de que temos “falado” neste espaço foram abordados.Começo por uma constatação prévia. A Economia Social está viva, recomenda-se e é um trunfo para a economia dos países europeus mais desenvolvidos, um paradoxo com o que se passa em Portugal, onde o Estado se prepara para levar à prática a intenção de abandonar o Instituto António Sérgio para a Economia Social (CASES) que regula, ou deveria regular, toda a atividade de um setor económico que vale uma percentagem importante do PIB e da empregabilidade, mas cujo valor não se pode medir apenas por critérios tangíveis. Continuarei com o assunto em próximos textos.Na minha intervenção no Parlamento Europeu parti de uma frase recente premonitória de Warren Buffett, quando sublinhou a quase inevitabilidade de, na banca comercial, "os problemas de uns poderem espalhar-se no futuro para os outros”. Sabemos dos desafios que as Fintech trouxeram à banca comercial e conhecemos na pele os esforços draconianos de regulação dos bancos centrais, tutelados pelo BCE, para evitarem que a contaminação sistémica volte a manifestar-se. No entanto, a frase de Buffett, somada a vários sinais, permitiu-nos perceber duas ou três coisas: que a ideia de que só bancos muito grandes podem salvaguardar futuras crises sistémicas, é errada. Aliás, pode acontecer o contrário. É precisamente, por serem grandes, que a queda poderá provocar um tremor global. Em 2008, a ideia inicial do regulador europeu era promover a diversidade bancária, afastando-se assim a ideia do “too big to fail “, mas a influência dos bancos norte-americanos e chineses, criados para outras realidades e dimensões, inverteu o caminho.Aqui importa saber o que é grande? A formiga é grande? O macaco é grande? O leão é grande? O elefante é grande? Diz a sabedoria que desadequado é um elefante numa cristaleira. Mas a formiga sabe como conviver numa cristaleira. A escala foi um principio aplicado nos anos 80. Hoje, com a internet, essa escala tem de ser corrigida pela adequação a um novo tempo, em que a banca digital inverteu a lógica de grandeza. A adequação evita tremores globais.Sabemos que acontecerá uma crise financeira. E sabemos que quando nos “apanhar”, como sempre desprevenidos, será maior do que as anteriores, afinal há mais capital a circular, afinal há uma maior difusão do medo, afinal há muitos medos. Não há também quem desconheça que a banca cooperativa será sempre mais resistente à crise e correrá menos riscos do que a banca comercial. É a sua natureza a funcionar porque o seu modelo de negócio induz pouco risco.E eu pergunto, no caso português, acerca da razão objetiva para que a banca cooperativa não seja vista, como acontece na Alemanha, em Espanha ou na Itália, como complementar, um plano B para o dia em que a terra volte a abanar? A existência de diferentes modelos de banca e de coordenação faz com que o peso do risco individual dos players ofereça, entre si, contrapeso à banca de poupança e de teor acionista. É o conhecido valor da biodiversidade de Morin: a divisão do risco de portefólio de negócio.Somos estruturas centenárias que convivemos com inovações e resistimos a todas as crises. Emprestamos dinheiro de forma adequada, não temos balanços aquecidos ou investimentos em aplicações que depois servem para financiar operações com maior risco. Somos próximos, confiáveis, capitalizados, vivemos em função das nossas comunidades. Temos os balanços que a nossa natureza e legislação permite, geridos por pessoas escolhidas e monitorizadas por todos.Enquanto presidente da independente Caixa Agrícola de Torres Vedras, prefiro ser regulado diretamente pelo Banco de Portugal do que ser tutelado por organismos centrais com balanços fortemente aquecidos, como a banca de teor acionista, e com princípios que não são, na minha opinião, os que definem os modelos cooperativos de capitalização, seriedade e continuidade, bem como sucessão e democracia interna. Aqui a governança oferece instrumentos de fit & proper que um banco desligado da sua gente não tem.No primeiro Dicionário da Língua Portuguesa, editado em 1570, dez anos antes de perdermos por 60 anos a independência para Castela, já existia uma entrada para a palavra “Mutualismo”. A primeira cooperativa nasceu em Beja no século XIII, a primeira Misericórdia no final do século XV, a economia social confunde-se com os alicerces do nosso país. Robert Schuman ajudou a construir o projeto europeu com base na ideia de solidariedade, esta evita a guerra pela proximidade entre todos.Na próxima semana proponho-vos ir um pouco mais longe. Escrever sobre as raízes do pensamento cooperativo, sobre os 111 anos da Caixa Agrícola de Torres Vedras, da próxima crise e da importância decisiva de apostar na proximidade com confiança e responsabilidade.