É praticamente impossível não dar por ele. Quem se dirige para o centro do Montijo através da chamada Circular Externa, uma das principais vias de acesso à cidade, tem de abrandar no final da via para fazer uma pequena rotunda e encarar, mesmo de frente, um enorme outdoor que, por estes dias, continua a exibir, com o rosto sorridente de Marques Mendes, um dos slogans que o candidato usou na campanha para as presidenciais: “O valor da experiência.” No concelho do Montijo, o “valor” da candidatura apoiada pelo PSD convenceu apenas 1735 eleitores, 6,44% dos 27.399 que exerceram o seu direito de voto a 18 de janeiro (percentagem que é inferior à conseguida por Marques Mendes a nível nacional na primeira volta – 11,30%). Apesar de já terem passado quase dois meses e meio desde a votação, Marques Mendes lá continua, sorridente, a perpetuar na memória dos milhares de automobilistas que por ali passam diariamente o desastre eleitoral que sofreu em janeiro. Desastre esse que também atingiu o principal partido que o apoiava, o PSD, com a singularidade de a gestão daqueles espaços publicitários caber aos sociais-democratas que, assim, estão de forma consciente a manter uma derrota em exibição...Mas Marques Mendes não está sozinho. Pelo Montijo também continuam espalhados outdoors com a imagem de António José Seguro, embora neste caso, tendo em conta que o ex-secretário geral do PS venceu as eleições presidenciais, a sua permanência em cartaz, quando já tomou posse em Belém, seja menos descabida ao primeiro olhar.Como o DN noticiou, estas situações repetem-se em mais cidades do país e já levaram, inclusive, a que a associação Vizinhos de Lisboa pedisse ao presidente da câmara, Carlos Moedas, para pressionar as diferentes candidaturas, exigindo-lhes que retirem os cartazes eleitorais que ainda se encontram na via pública – os quais, no entender da associação, contribuem para “a degradação da imagem urbana e para a poluição visual do espaço público lisboeta”. A principal explicação para os cartazes continuarem à vista é financeira. Estando aqueles espaços atribuídos a PSD e PS, os dois partidos preferem esperar até terem novas matérias de propaganda e, só nessa altura, substituírem os cartazes numa só operação, em vez de custearem, primeiro, a sua remoção imediata e, mais tarde, a colagem dos novos materiais.Tendo em conta que a Comissão Nacional de Eleições é clara ao dizer que “a lei não prevê qualquer prazo para que as candidaturas removam a propaganda eleitoral desatualizada”; que não há novas eleições num horizonte próximo; e que, olhando para aquilo que marca a atualidade nacional, não é de crer que Luís Montenegro queira fazer um cartaz a sugerir aos portugueses “Apertem o cinto!” ou que José Luís Carneiro aposte num nada mobilizador “Oposição mas com calminha!”; o mais certo é que Marques Mendes e Seguro continuem por mais algum tempo de decorar as ruas deste país. Algo que só torna ainda mais evidente que a propaganda assente em cartazes faz cada vez menos sentido, seja devido à falta de originalidade, seja pela canalização de fundos para meios que promovem imagens estáticas e sorridentes que nada dizem aos eleitores. Principalmente aos mais jovens, aqueles que a democracia precisa de cativar para se manter robusta..Caras e mais caras. A política dos cartazes é uma seca.A presidência em outdoor: quando a imagem fala e a mensagem falha