Mobilidade: entre as promessas e a realidade

Carlos Ferro

Editor-executivo do Diário de Notícias

Publicado a: 

Habitação e mobilidade. Estes são dois dos maiores problemas que os portugueses, principalmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, identificaram no Barómetro das Cidades, uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Na realidade, estas duas escolhas por parte dos inquiridos não surpreendem, pois há anos que ouvimos falar da escassez de habitação, da subida dos preços das casas e do constante aumento de trânsito nas cidades – que acaba por ser potenciado pela deslocação das pessoas para a periferia das grandes cidades e que depois têm de se deslocar para os locais de trabalho.

A verdade é que a questão do tráfego nas cidades, com particular impacte nas grandes urbes como Lisboa e Porto, é muito mais do que uma discussão sobre passes navegantes, andantes ou verdes. É, pelas respostas dadas pelos inquiridos, uma questão de planeamento e políticas públicas. Com um alerta: desde que não implique com os cidadãos.

A radiografia feita é bastante correta e sentida por todas as pessoas que utilizam os transportes públicos: é necessário maior pontualidade, mais oferta e uma interligação a sério entre os vários meios. E uma forma de melhorar a velocidade das ligações das carreiras de autocarro – como a muito prometida faixa BUS na Autoestrada A5, entre Lisboa e Cascais.

Portanto, no que diz respeito à identificação do que poderia melhorar a mobilidade rodoviária estamos de acordo nas soluções que deveriam existir. O problema é passar à prática essas soluções, e aí o comodismo de cada um ganha. Por exemplo, o trânsito nos principais acessos a Lisboa está cada vez mais intenso e as horas de ponta são quase normais durante o dia.

A questão do trânsito é quase, usando uma expressão culinária, uma “pescadinha de rabo na boca”. Ou seja, como há muitos carros a circular os transportes públicos andam mais devagar e assim demoram mais tempo a cumprir os seus percursos ou acabam mesmo por não os cumprir. Como isto acontece, os automobilistas não se sentem confortáveis para utilizar transportes públicos pois estes não são fiáveis.

Os mesmos automobilistas que protestam quanto ao tráfego intenso, mas depois contestam a criação de corredores BUS – retiram espaço aos carros – e o aumento do preço dos parques nas cidades, alegando que não têm forma de fazer as suas deslocações sem ser de veículo próprio por falta de alternativa. Talvez por tudo isto os governos deviam pensar que tipo de políticas públicas devem ser implementadas: só reduções tarifárias que aumentam a procura (nos meios em que ainda é possível acomodar mais passageiros e que não são muitos) ou apostar em criar condições de circulação mais rápida dos autocarros e conseguir ter mais carruagens para os comboios – sabendo que é necessário comprar agora para ter carruagens dentro de meia dúzia de anos.

O certo é que enquanto todos concordarem que o trânsito é um problema, mas ninguém aceitar as medidas necessárias para o resolver, continuaremos a acumular horas na estrada e promessas nos discursos.

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