Estive recentemente em missão da Comissão dos Assuntos Externos do Parlamento Europeu, na Coreia do Sul e no Japão, entre 30 de março e 3 de abril, num momento em que o Indo-Pacífico se confirma como um dos centros de gravidade da segurança internacional. O objectivo desta missão foi o de aprofundar a cooperação estratégica da União Europeia com dois parceiros fundamentais numa ordem internacional que é cada vez mais pressionada pela guerra da Rússia contra a Ucrânia, pela instabilidade no Médio Oriente e pela crescente assertividade dos regimes autoritários.O que vi e ouvi no terreno reforçou uma convicção: já não é possível olhar para a Península Coreana como um tema longínquo, confinado à geografia asiática. O que ali se passa tem consequências directas para a estabilidade internacional e para a segurança dos nossos aliados democráticos. E tem também, de forma muito clara, consequências para a Europa, por duas razões centrais: porque a Coreia do Norte se tornou um actor militar mais agressivo e mais imprevisível; e porque a sua colaboração com a Rússia no contexto da guerra na Ucrânia – passou a ligar diretamente a segurança euro-atlântica à segurança do Indo-Pacífico.Entretanto, Seul procura ensaiar uma nova abordagem à Coreia do Norte. O Governo sul-coreano formalizou este ano uma política de “coexistência pacífica” assente em três princípios: respeito pelo sistema do Norte, rejeição da reunificação por absorção e renúncia a actos hostis.A intenção é compreensível. Nenhuma democracia séria pode desistir do diálogo, sobretudo quando enfrenta um regime nuclearizado, opaco e tecnicamente ainda em guerra consigo. Mas compreensível não significa isenta de riscos. A coexistência pode ser um objetivo legítimo; não pode transformar-se numa forma de auto-engano perante um regime que continua a definir a Coreia do Sul como o seu “inimigo mais hostil”. Os factos, infelizmente, falam por si. No preciso momento em que Seul procurava desanuviar o clima de tensão e interpretar alguns sinais provenientes de Pyongyang como uma possível abertura à distensão, a Coreia do Norte respondeu com novos lançamentos de mísseis balísticos.Há, porém, uma segunda razão para olharmos para esta questão com a máxima atenção: a guerra da Ucrânia. A Coreia do Norte não é apenas um factor de instabilidade regional. Tornou-se também um facilitador directo da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, continua a fornecer armamento à Rússia e reforça a sua presença humana no conflito. Isto tem duas consequências gravíssimas. A primeira é europeia: cada munição, cada sistema e cada soldado fornecido por Pyongyang ajuda Moscovo a prolongar a guerra contra a Ucrânia.A segunda é asiática: esse apoio poderá estar a ser compensado com assistência técnica russa a programas estratégicos norte-coreanos, nomeadamente em matéria de satélites e guiamento de mísseis. Ou seja, a guerra na Ucrânia pode estar a tornar a Coreia do Norte militarmente mais capaz, mais sofisticada e mais perigosa para Seul, para Tóquio e para a estabilidade regional.A agressão russa à Ucrânia, o apoio norte-coreano a essa agressão e a crescente tensão na Península Coreana não são crises separadas. São expressões diferentes do mesmo problema: a convergência entre regimes revisionistas que testam, em simultâneo, a determinação das democracias. Para Seul, não está em causa apenas a retórica belicista do Norte, está em causa a possibilidade de esse regime regressar da guerra da Ucrânia mais treinado, mais equipado e mais perigoso. Para o Japão, o mesmo raciocínio aplica-se. Para a União Europeia, a lição é igualmente evidente: não há compartimentos estanques entre segurança europeia e segurança indo-pacífica. Escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico