"A nação cristã mais antiga do mundo continua a lutar sozinha"

A ministra da Educação de Artsakh, o estado de facto independente do Azerbaijão, mais conhecido como Nagorno-Karabakh, diz que a junção com a Arménia será uma reparação histórica. E culpa a Turquia pela desestabilização no Cáucaso.

Lusine Gharakhanyan, de 42 anos, psicóloga, é desde maio ministra da Educação, Ciência e Cultura da República de Artsakh, o nome arménio para o exclave no Azerbaijão conhecido por Nagorno-Karabakh (termo que nasceu da tradução russa da expressão azerbaijanesa "jardim negro" e da russa "montanhoso") e que país algum reconhece. Com os bombardeamentos e os cortes de energia, as comunicações com o exterior tornaram-se mais complicadas, mas graças à Associação de Amizade Portugal Arménia as dificuldades foram contornadas. Fica a conversa, no dia em que entrou em vigor um cessar-fogo humanitário que Arménia e Azerbaijão depressa acusaram o outro lado de violar.

Comecemos pelo seu Ministério. As aulas foram interrompidas e as crianças e mães refugiaram-se na Arménia. Como se garante a educação aos alunos?
Foi muito difícil para mim redigir o texto da ordem para parar o processo educativo. À medida que os dias passam, torna-se-me muito difícil pensar na questão da organização da educação, porque o inimigo bombardeia todos os dias povoações pacíficas, visando escolas e infantários. Algumas das nossas crianças e professores estão na Arménia. Gostaria de notar com gratidão que o Ministério da Educação, Ciência, Cultura e Desporto da Arménia organizou o processo de frequência de todas as escolas e jardins de infância das crianças que se encontram agora na Arménia. Além disso, as instituições de ensino superior da Arménia abriram as suas portas aos estudantes de Artsakh. Em condições tão duras de bombardeamento, não pode haver qualquer questão de organizar a educação. E não há especialistas em todas as disciplinas nos abrigos. Esta é de facto uma situação grave, em resultado da qual os direitos de cerca de 30 mil pessoas que recebem educação estão a ser violados.

Como é viver neste momento em Stepanakert? Uma reportagem da AFP dá conta que as lojas estão fechadas mas quem precisa de algo serve-se e deixa o dinheiro.
As pessoas aqui são muito honestas. Não foi partido qualquer vidro das lojas fechadas para roubar, ninguém rouba nada. Trazem comida para nós para o abrigo, e quase não há necessidade de entrar nas lojas.

Para quem vive no Ocidente este é um conflito distante e de difícil compreensão. O que levou a este recente capítulo da guerra?
A guerra desencadeada pela terceira vez é apenas um terrorismo em grande escala, durante o qual, além das baixas humanas, são destruídos objetos de património cultural considerados de valor civilizacional.

Qual é o objetivo do governo de Artsakh, juntar-se à Arménia?
Em geral, o objetivo do movimento de Artsakh desde o início tem sido e continua a ser a restauração da justiça histórica. Ou seja, a reunificação de Artsakh com a Arménia, mas os obstáculos que nos foram impostos forçaram-nos a escolher a declaração da nossa independência na situação atual, ou seja, a excluir a possibilidade de viver sob a subordinação do Azerbaijão. Em geral, os diferentes registos históricos, incluindo fontes estrangeiras, contêm material suficiente sobre o facto de Artsakh fazer parte da Arménia. O mundo sabe, e os factos são inegáveis, que Artsakh foi anexado ao Azerbaijão a 5 de julho de 1921, a pedido da Turquia. Não podemos esquecer-nos de assinalar o acordo russo-turco de amizade-irmandade assinado a 16 de março de 1921 em Moscovo, pelo qual Nakhichevan [exclave na Arménia] foi anexada ao Azerbaijão. E a Turquia exige constantemente que se conceda também Artsakh ao Azerbaijão. Na realidade, estes foram passos para a realização dos objetivos estratégicos a longo prazo da Turquia. De facto, a Turquia continua a esforçar-se por alcançar ou realizar os seus planos utilizando as situações políticas mais convenientes.

Diferentes registos históricos, incluindo fontes estrangeiras, contêm material suficiente sobre o facto de Artsakh fazer parte da Arménia

E como é que esse objetivo se compatibiliza com a paz, quando Baku mantém que o Nagorno-Karabakh é território do Azerbaijão?
As reivindicações do Azerbaijão são absolutamente infundadas. E hoje em dia, quanto mais cedo tanto o Ocidente como o mundo civilizado compreenderem a ameaça colocada pela Turquia, e não é segredo que a Turquia é hoje o centro de todos os ataques terroristas à escala internacional, seja no Médio Oriente, no Cáucaso ou nos Balcãs, mais o mundo civilizado será beneficiado. Sim, hoje em dia o povo arménio, como a nação cristã mais antiga do mundo, continua a enfrentar essa grande ameaça, para lutar sozinho.

Concorda com o PM da Arménia, Nikol Pashinyan, quando este aponta o dedo à Turquia? Que papel devem ter os restantes países da NATO?
Concordo com o ponto de vista do primeiro-ministro, sim, a Turquia está definitivamente comprometida com tudo isto. Resumindo, o autor da criação deste Estado chamado Azerbaijão é a Turquia, que tem como objetivo governar todo o Cáucaso através dele. Penso que a Turquia deveria ser expulsa da NATO, e outros Estados membros da NATO deveriam estar conscientes dos perigos que se esperam da Turquia para a humanidade, para a civilização. É preciso fazê-lo com muita urgência, caso contrário esse perigo constituirá outra ameaça.

A Turquia deveria ser expulsa da NATO, e outros Estados membros da NATO deveriam estar conscientes dos perigos que se esperam da Turquia para a humanidade

O Azerbaijão tem maior capacidade militar e estará a contar com mercenários. Como é que se consegue evitar uma derrota militar?
Nestes dias os mercenários terroristas têm lutado contra Artsakh, sim, há combatentes que lutam pelo Azerbaijão no Azerbaijão. E nós estamos a lutar pelas nossas famílias, pelos nossos antepassados, pelas nossas terras. Nestes dias foram escritas páginas brilhantes de história militar. São fantásticas, segundo os peritos militares. A história tem-nos mostrado que ganhámos com poucos meios. O problema aqui é por que estamos a lutar... Nós sabemos pelo que estamos a lutar.

Cabe à Rússia, como aliado militar da Arménia e membro do Grupo de Minsk, ter um papel decisivo na obtenção de uma trégua?
Sim, sempre tivemos relações amigáveis com a Rússia, é do interesse de dois povos - cultural, político, económico. Em geral, estamos prontos a cooperar com o mundo civilizado contra o terrorismo e a política de genocídio.

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